Um aumento de quase R$ 100 por mês parece significativo quando observado isoladamente. No supermercado, porém, o valor pode desaparecer rapidamente entre alimentos, produtos de higiene e contas domésticas.
A proposta da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027 prevê que o salário mínimo passe de R$ 1.621 para R$ 1.717. Isso representa uma elevação nominal de R$ 96, equivalente a aproximadamente 5,9%.
O valor, entretanto, ainda não é definitivo. A quantia depende do comportamento da inflação até novembro de 2026 e poderá ser revisada antes de entrar no Orçamento de 2027. Entender essa diferença é fundamental para não confundir uma projeção do governo com um reajuste já confirmado.
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O salário mínimo de 2027 já foi definido?

Ainda não. Os R$ 1.717 constam no Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027, o PLN 2/2026, encaminhado pelo governo federal ao Congresso Nacional.
A LDO orienta a elaboração do Orçamento da União. Ela apresenta estimativas para receitas, despesas, inflação, crescimento econômico e salário mínimo, mas esses parâmetros podem mudar ao longo do ano.
A proposta considera:
- salário mínimo de R$ 1.621 em 2026;
- piso projetado de R$ 1.717 em 2027;
- aumento nominal estimado de R$ 96;
- reajuste aproximado de 5,9%;
- entrada em vigor prevista para janeiro de 2027.
A própria documentação do Ministério do Planejamento trata R$ 1.717 como uma projeção. O valor final normalmente é conhecido depois da divulgação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor, o INPC, acumulado até novembro. A Câmara dos Deputados confirma que a quantia está prevista no projeto da LDO.
Como é calculado o reajuste do salário mínimo?
O cálculo procura atender a dois objetivos: repor a inflação e conceder um aumento acima dela.
A reposição inflacionária evita, ao menos em tese, que o trabalhador perca poder de compra. Já o chamado ganho real representa a parcela do reajuste que supera a alta dos preços.
A inflação utilizada é o INPC
O indicador usado na política de valorização é o INPC, calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Ele acompanha a variação dos preços para famílias com rendimento entre um e cinco salários mínimos.
Para o reajuste de 2027, será considerado o INPC acumulado nos 12 meses encerrados em novembro de 2026.
O crescimento econômico também entra na conta
A política de valorização estabelecida pela Lei nº 14.663/2023 prevê a soma da inflação com o crescimento real do Produto Interno Bruto de dois anos antes. Portanto, o cálculo de 2027 considera o desempenho do PIB de 2025.
Entre 2025 e 2030, porém, o ganho acima da inflação está submetido aos limites do regime fiscal. O crescimento real deve ficar entre 0,6% e 2,5%.
Na prática, o valor de R$ 1.717 poderá mudar se o INPC efetivamente registrado for diferente daquele usado na projeção orçamentária.
O aumento de R$ 96 será um ganho real?
Não necessariamente na totalidade. Os R$ 96 representam um aumento nominal, ou seja, a diferença entre o valor atual e o projetado.
Uma parte servirá apenas para compensar o aumento do custo de vida. Somente a parcela que ultrapassar a inflação representará ganho real.
Imagine, por exemplo, que uma família gaste R$ 1.000 por mês com determinado conjunto de produtos e serviços. Se os preços subirem 4%, a mesma compra passará a custar cerca de R$ 1.040. Nesse caso, R$ 40 do reajuste apenas cobririam a inflação.
Essa comparação é hipotética, pois cada família possui uma cesta de consumo diferente. Quem gasta mais com aluguel, alimentação ou medicamentos pode sentir uma inflação pessoal maior do que a média medida pelo IBGE.
O que será possível comprar com R$ 96?
O resultado varia conforme a cidade, o supermercado, a marca e as promoções encontradas. Ainda assim, uma simulação ajuda a visualizar o alcance do aumento.
Considerando preços aproximados encontrados no varejo em 2026, os R$ 96 poderiam pagar uma combinação como:
- um pacote de arroz;
- um pacote de feijão;
- uma garrafa de óleo;
- dois litros de leite;
- um pacote de macarrão;
- açúcar;
- papel higiênico;
- detergente;
- sabonete;
- creme dental.
Dependendo das marcas escolhidas, essa compra pode consumir praticamente todo o acréscimo mensal. Também é importante lembrar que o reajuste não chega como um pagamento separado: ele será incorporado ao salário e poderá ser utilizado com alimentação, transporte, aluguel, energia, gás ou qualquer outra despesa.
O preço da cesta básica mostra o tamanho do desafio
Em julho de 2026, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos estimou em R$ 7.687,01 o salário necessário para sustentar uma família de quatro pessoas. O cálculo inclui alimentação, moradia, saúde, educação, transporte, vestuário e outras necessidades previstas na Constituição.
Esse “salário mínimo necessário” não é uma proposta de pagamento obrigatório. Trata-se de um indicador usado para comparar o piso nacional com o custo estimado das necessidades básicas.
Em Campo Grande, por exemplo, a cesta básica custou R$ 809,08 em julho de 2026. Mesmo após uma queda mensal de 4,37%, o valor continuou correspondendo a aproximadamente metade do salário mínimo bruto vigente. Os dados fazem parte da Pesquisa Nacional da Cesta Básica do Dieese.
Por que o reajuste pode parecer menor no dia a dia?
A inflação não afeta todos os produtos da mesma maneira. Em alguns meses, alimentos, combustíveis ou medicamentos podem subir mais do que o índice geral.
Em julho de 2026, o IPCA acumulava 4,44% em 12 meses. Já o INPC apresentou variação de -0,01% naquele mês, segundo o IBGE. Uma queda mensal pontual, contudo, não significa que os preços voltaram aos níveis antigos. Significa apenas que, na média, houve pequena redução em relação ao mês anterior.
Outro fator é a concentração dos gastos. Famílias de renda menor destinam uma parcela maior do orçamento a despesas indispensáveis. Quando comida, aluguel, gás ou transporte aumentam, sobra menos espaço para aproveitar o ganho real do salário.
Quem será afetado pelo novo salário mínimo?
O piso nacional não interfere apenas no contracheque de quem recebe exatamente um salário mínimo.
Se a projeção for confirmada, o valor de R$ 1.717 poderá alterar pagamentos e limites associados ao piso.
Trabalhadores com carteira assinada
Nenhum empregado contratado para uma jornada integral poderá receber salário-base inferior ao mínimo nacional, salvo regras proporcionais legalmente admitidas.
Categorias com piso estadual ou profissional superior continuarão seguindo o valor mais vantajoso.
Aposentados e pensionistas do INSS
Benefícios previdenciários equivalentes ao piso nacional subirão para o novo mínimo. Isso alcança aposentadorias, pensões e auxílios que hoje valem R$ 1.621.
Quem recebe acima do piso terá reajuste pelo INPC, sem a aplicação automática do ganho real concedido ao salário mínimo.
Beneficiários do BPC
O Benefício de Prestação Continuada paga um salário mínimo mensal à pessoa idosa com pelo menos 65 anos ou à pessoa com deficiência que cumpra os critérios legais.
Com um mínimo de R$ 1.717, o valor mensal do BPC também passaria a essa quantia.
Trabalhadores que recebem abono salarial
O pagamento máximo do abono PIS/Pasep corresponde a um salário mínimo. O valor individual é proporcional à quantidade de meses trabalhados no ano-base.
Pessoas que recebem seguro-desemprego
O salário mínimo também funciona como piso para as parcelas do seguro-desemprego. Nenhuma parcela pode ser inferior ao mínimo vigente no momento do pagamento.
Essas vinculações ajudam a explicar por que cada reajuste possui impacto relevante nas contas públicas. O próprio anexo de metas fiscais da LDO destaca a relação do piso com benefícios previdenciários, BPC, seguro-desemprego e abono salarial.
Quem ganha mais de um salário mínimo terá reajuste de R$ 96?
Não obrigatoriamente. O aumento automático alcança quem recebe o piso nacional ou possui remuneração diretamente vinculada a ele.
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Um trabalhador que ganha R$ 2.500, por exemplo, não passa automaticamente a receber R$ 2.596. O reajuste dependerá do acordo da empresa, da convenção coletiva ou da data-base da categoria.
O mesmo cuidado vale para salários informalmente descritos como “dois mínimos”. Se o contrato não determinar uma vinculação expressa, a empresa poderá aplicar uma regra diferente, desde que respeite a legislação e os acordos coletivos.
O valor líquido será de R$ 1.717?
Para o trabalhador empregado, R$ 1.717 será o valor bruto. Ainda poderá haver desconto da contribuição previdenciária e outros abatimentos autorizados, como vale-transporte, plano de saúde, pensão alimentícia ou empréstimo consignado.
Por isso, o aumento líquido recebido no contracheque poderá ser menor do que R$ 96.
Já aposentadorias, pensões e BPC no valor de um salário mínimo possuem regras próprias. O BPC, por exemplo, não sofre desconto de contribuição previdenciária.
Como se preparar para o reajuste de 2027?
O primeiro cuidado é não incluir antecipadamente os R$ 96 no orçamento familiar. Como o valor ainda é uma estimativa, o piso definitivo poderá ficar acima ou abaixo de R$ 1.717.
Quando o reajuste for confirmado, vale seguir três passos:
- Compare o salário bruto e o líquido no primeiro pagamento de 2027.
- Identifique quanto do acréscimo será consumido por despesas que também aumentaram.
- Direcione uma parte do ganho real, se houver, para dívidas caras ou reserva de emergência.
Uma estratégia simples é evitar transformar todo o aumento em novas parcelas fixas. Se o acréscimo for usado para assumir uma prestação longa, qualquer imprevisto poderá voltar a apertar o orçamento.
O aumento ajuda, mas não resolve sozinho a perda de poder de compra
A projeção de R$ 1.717 representa R$ 96 a mais em relação ao piso de 2026. O reajuste melhora a renda nominal de trabalhadores e beneficiários, mas parte dele será destinada à reposição da inflação.
No supermercado, esse acréscimo pode pagar alguns alimentos e itens de higiene. Para famílias comprometidas com aluguel, medicamentos, transporte e contas domésticas, porém, o efeito tende a ser limitado.
O próximo passo do trabalhador é acompanhar a divulgação do INPC no fim de 2026 e o ato oficial que fixará o salário mínimo de 2027. Só então será possível saber o valor definitivo e calcular o aumento líquido no orçamento.
Perguntas frequentes

Qual será o salário mínimo em 2027?
A projeção apresentada pelo governo é de R$ 1.717. O valor ainda poderá ser revisado antes de entrar em vigor.
O aumento de R$ 96 já está confirmado?
Não. A diferença de R$ 96 decorre da estimativa da LDO de 2027. O reajuste definitivo dependerá do INPC acumulado até novembro de 2026 e dos demais critérios legais.
Quando o novo salário mínimo começa a valer?
A previsão é que o novo valor entre em vigor em 1º de janeiro de 2027. Trabalhadores normalmente percebem o efeito no pagamento referente a janeiro.
A aposentadoria do INSS também aumentará?
Sim. Aposentadorias e pensões que correspondem ao piso previdenciário acompanham o novo salário mínimo. Benefícios acima do piso seguem uma correção diferente.
Quem ganha mais de um salário mínimo receberá R$ 96 a mais?
Não automaticamente. O reajuste dependerá da política salarial da empresa ou do acordo coletivo da categoria.
O Bolsa Família aumentará com o salário mínimo?
Não de forma automática. O Bolsa Família possui valores e critérios próprios, definidos pela legislação e pelo governo federal.



