Selic elevada limita crédito e trava mercado imobiliário, afirmam bancos
A elevação da Selic vem sendo um dos principais obstáculos para o crescimento econômico do Brasil em 2025. A taxa básica de juros, mantida em 15% pelo Banco Central, tem limitado o acesso ao crédito, travado o mercado imobiliário e dificultado o consumo das famílias. Especialistas alertam que esse cenário afeta não apenas as incorporadoras, mas também a geração de empregos e o setor da construção civil, historicamente um dos motores da economia nacional.
Durante o evento Incorpora 2025, realizado em São Paulo, o presidente da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), Luiz França, fez um apelo contundente por uma política de juros mais equilibrada. Segundo ele, cada 1% de aumento na Selic retira 166 mil famílias do mercado de crédito imobiliário. A declaração acendeu o debate sobre a urgência de uma estratégia econômica que garanta estabilidade, mas sem sufocar o crescimento.
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O peso da Selic sobre o crédito imobiliário
O impacto da Selic sobre o crédito é direto e imediato. Quando os juros sobem, os bancos repassam esse custo aos consumidores, tornando os financiamentos mais caros. Isso significa que menos pessoas conseguem arcar com as parcelas de um imóvel, reduzindo a demanda e desacelerando o setor.
Para o presidente da Abrainc, é imprescindível que o Banco Central comece um movimento de redução gradual da Selic, de forma a reaquecer o mercado e restabelecer o acesso ao crédito. França reforçou que o equilíbrio fiscal é essencial para viabilizar juros mais baixos e sustentáveis no longo prazo.
Ele também destacou a necessidade de uma reforma administrativa, com foco na eficiência e na redução da burocracia, para garantir que o Estado tenha uma estrutura mais leve e moderna. Essa modernização, segundo França, permitiria um ambiente econômico mais propício ao investimento produtivo.
Como o Banco Central justifica a manutenção da Selic
Em setembro, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu manter a taxa básica em 15%, alegando incertezas no cenário internacional e uma desaceleração no crescimento econômico interno. O Banco Central afirmou que a decisão visa conter pressões inflacionárias e preservar a credibilidade da política monetária.
Contudo, entidades como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Central Única dos Trabalhadores (CUT) criticaram a postura do BC. Segundo elas, juros tão altos inviabilizam o crédito produtivo, impedem investimentos e travam o consumo.
A CNI foi enfática ao afirmar que “não existe crescimento sustentável com juros estratosféricos”. A entidade argumenta que o atual patamar da Selic desestimula a inovação, prejudica a reindustrialização e restringe a competitividade da economia brasileira.
A visão das centrais sindicais e do setor produtivo
A CUT também se posicionou de forma contundente. Para a central, o alto custo do dinheiro faz com que o financiamento de casas, carros e pequenos negócios se torne inacessível para boa parte da população. Além disso, as famílias que já possuem dívidas enfrentam maiores dificuldades para quitar seus compromissos, o que agrava o endividamento e compromete o consumo.
Os sindicatos defendem uma política econômica mais voltada para o crescimento social e produtivo, com juros em níveis razoáveis e mecanismos de incentivo ao crédito popular. “O estímulo ao consumo das famílias e das empresas com juros justos é o caminho para controlar a inflação sem penalizar o povo”, afirmou a entidade.
O setor produtivo, por sua vez, cobra coerência entre a política monetária e as políticas de desenvolvimento industrial. Para eles, não há como sustentar a competitividade internacional com um sistema de crédito travado e oneroso.
O efeito da Selic na construção civil e no emprego
O mercado imobiliário e a construção civil são setores altamente sensíveis à variação da Selic. Juros mais altos significam menos lançamentos, menos contratações e uma cadeia produtiva mais lenta. Estima-se que a redução de 1% na taxa básica de juros poderia gerar milhares de empregos diretos e indiretos no setor.
Empresas que dependem de financiamento para novos empreendimentos também sentem o impacto. Com a Selic elevada, os custos de capital aumentam, tornando os projetos menos rentáveis. Em consequência, muitas incorporadoras adiam lançamentos e reduzem investimentos.
Luiz França destacou que, se o cenário continuar, o país pode perder uma janela de crescimento importante, especialmente diante da demanda reprimida por habitação popular. O Minha Casa, Minha Vida, por exemplo, é um programa que depende fortemente de juros acessíveis para ser efetivo.
O papel do governo e das reformas estruturais
Para que a Selic volte a um patamar sustentável, especialistas afirmam que é necessário equilíbrio fiscal e confiança internacional. Isso envolve reformas que tornem o Estado mais eficiente e menos custoso. A reforma administrativa, citada por França, é considerada um passo essencial para conter gastos públicos e melhorar a produtividade do governo.
Outro ponto relevante é a necessidade de simplificar o sistema tributário, reduzindo a burocracia e estimulando o ambiente de negócios. A expectativa é que a reforma tributária, em discussão no Congresso, também traga reflexos positivos sobre os juros e o crédito, ao promover maior previsibilidade e segurança jurídica.
Por que a Selic é usada para controlar a inflação
A Selic é o principal instrumento do Banco Central para controlar a inflação. Quando os preços começam a subir, o BC aumenta a taxa para reduzir o consumo e, consequentemente, a pressão sobre os preços. No entanto, esse mecanismo tem um efeito colateral: ele desacelera o crescimento econômico e restringe o crédito.
Economistas destacam que, embora a política monetária seja necessária para manter a estabilidade, ela precisa ser aplicada com equilíbrio. Juros muito altos por longos períodos acabam prejudicando a atividade produtiva e, paradoxalmente, dificultam a queda sustentada da inflação, já que desorganizam o mercado e reduzem o investimento.
Perspectivas para os próximos meses
O mercado financeiro e os agentes do setor imobiliário aguardam com expectativa as próximas reuniões do Copom, que deverão indicar o rumo da política monetária para o fim de 2025. Caso o Banco Central sinalize uma redução gradual da Selic, há projeções de retomada lenta do crédito e de um reaquecimento do setor imobiliário a partir do início de 2026.
Por outro lado, se a taxa continuar alta, o impacto poderá ser profundo. Bancos e incorporadoras terão que repensar seus modelos de financiamento e estratégias de investimento. O consumidor, por sua vez, continuará enfrentando dificuldades de acesso ao crédito, o que tende a frear o crescimento do PIB e comprometer a confiança na economia.
O cenário atual evidencia um impasse econômico: de um lado, o Banco Central busca preservar o controle da inflação; de outro, o setor produtivo clama por medidas que impulsionem o desenvolvimento. A Selic elevada representa um freio significativo na expansão do crédito e um obstáculo para milhões de brasileiros que sonham com a casa própria.
Para especialistas, o caminho passa por um ajuste fiscal responsável, redução gradual da taxa básica e estímulos à produtividade. Só assim o Brasil poderá retomar um ciclo de crescimento sustentável, com mais empregos, mais crédito e uma economia menos dependente de políticas monetárias restritivas.
O futuro do mercado imobiliário — e da economia nacional — dependerá da capacidade do país de encontrar o ponto de equilíbrio entre estabilidade e crescimento.