O setor de serviços perdeu ritmo no segundo trimestre de 2026, em um sinal de que a economia brasileira começa a sentir com mais intensidade os efeitos do crédito caro e do aperto monetário. Em meio ao cenário de inflação ainda resistente, o volume de serviços ficou estável em junho, com variação de 0,0% em relação a maio, enquanto quatro dos cinco grandes grupos pesquisados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registraram queda.
O resultado, divulgado nesta quarta-feira (12), veio um pouco melhor do que a expectativa do mercado, que projetava retração de 0,2%. Ainda assim, o dado reforça uma tendência de desaceleração da atividade econômica.
O problema é que a perda de força dos serviços ainda não foi suficiente para afastar uma das principais preocupações do Banco Central: a resistência dos preços. Em 12 meses, a receita nominal do setor cresceu 8,6%, enquanto o volume avançou apenas 2,0%.
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O que aconteceu com o setor de serviços em junho?

A Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), do IBGE, mostrou estabilidade no volume de serviços em junho, após uma queda de 0,4% em maio.
Apesar do resultado geral de 0,0%, o desempenho entre as atividades foi bastante desigual. Quatro dos cinco grandes grupos pesquisados tiveram retração no mês.
Os principais recuos foram:
- serviços profissionais, administrativos e complementares: -1,4%;
- serviços prestados às famílias: -1,2%;
- turismo: -3,4%;
- transporte de passageiros: -4,0%.
O único grupo a crescer foi o de informação e comunicação, com alta de 1,8%, impulsionada principalmente pelos serviços de tecnologia da informação.
O resultado mostra por que olhar apenas para a estabilidade do índice geral pode esconder uma mudança relevante no comportamento da economia.
Serviços cresceram no segundo trimestre?
Sim. Na comparação com os três primeiros meses do ano, o volume de serviços avançou 0,4% no segundo trimestre de 2026.
O crescimento, porém, ocorreu em ritmo menor do que o observado em períodos anteriores, reforçando a percepção de que a economia está perdendo velocidade.
O setor ainda permanece em nível elevado: em junho, o volume de serviços estava 19,9% acima do registrado em fevereiro de 2020, antes da pandemia.
O ponto de atenção está menos no nível atual e mais na direção do indicador. Uma economia que continua acima do patamar pré-pandemia, mas cresce cada vez mais devagar, pode estar entrando em uma fase de acomodação.
Por que a desaceleração dos serviços preocupa?
Serviços têm peso relevante na economia brasileira e abrangem atividades diretamente ligadas ao consumo das famílias e à geração de empregos.
Quando segmentos como turismo, transporte, alimentação e serviços prestados às famílias começam a perder força, o movimento pode indicar que o consumidor está mais cauteloso.
O crédito caro é um dos fatores por trás dessa mudança. Com juros elevados, financiamentos e empréstimos ficam mais custosos, enquanto famílias endividadas tendem a reduzir ou adiar despesas.
A própria Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) avalia que o endividamento das famílias limita uma aceleração mais forte do setor no curto prazo.
Receita cresce muito mais que o volume. O que isso significa?
Essa é uma das informações mais relevantes do levantamento.
Em 12 meses, a receita nominal dos serviços aumentou 8,6%, enquanto o volume de serviços cresceu apenas 2,0%. A diferença chega a 6,6 pontos percentuais.
Isso não significa, automaticamente, que a inflação dos serviços foi de 6,6%. Os indicadores possuem metodologias, composições e ponderações diferentes.
A diferença, porém, mostra que o faturamento das empresas está crescendo muito mais do que a quantidade de serviços efetivamente prestados.
Em outras palavras, parte importante do aumento da receita está relacionada aos valores cobrados, e não somente à expansão da atividade.
É justamente essa resistência que preocupa os economistas.
A inflação de serviços pode continuar pressionando o Banco Central?
Sim.
A inflação de serviços costuma ser mais persistente porque está fortemente ligada à demanda doméstica, aos salários e aos custos das empresas.
Quando o mercado de trabalho continua aquecido e a renda das famílias permanece sustentada, empresas podem encontrar espaço para manter reajustes mesmo diante de uma desaceleração econômica.
A taxa de desemprego de 5,4% citada na análise mantém o mercado de trabalho apertado e ajuda a explicar por que os preços ainda apresentam resistência.
O efeito dos juros sobre a inflação também não acontece imediatamente. Empresas podem reduzir contratações e investimentos antes de recorrer a cortes mais significativos de salários ou empregos.
Por isso, a desaceleração dos serviços pode levar algum tempo para aparecer de forma mais clara nos índices de preços.
O que acontece com a Selic?
Os dados criam um cenário contraditório para o Banco Central.
De um lado, a perda de força da atividade econômica favorece uma política monetária menos restritiva. Se consumo, serviços e demanda continuarem desacelerando, a pressão sobre os preços tende a diminuir.
De outro, a inflação de serviços ainda resistente exige cautela.
O Comitê de Política Monetária (Copom) precisa avaliar se a desaceleração é suficiente para produzir uma queda mais disseminada e duradoura da inflação antes de acelerar eventuais cortes na taxa Selic.
O ambiente internacional também pesa nessa decisão. Segundo a análise da XP citada pelo InfoMoney, os juros americanos permanecem entre 3,50% e 3,75%, o que limita o espaço para uma redução muito agressiva dos juros brasileiros sem considerar possíveis efeitos sobre o câmbio e a inflação.
O PIB brasileiro pode desacelerar ainda mais?
Os números de serviços também influenciam as perspectivas para o Produto Interno Bruto (PIB).
A XP mantém uma previsão de crescimento de 2% para a economia brasileira em 2026, mas estima expansão de apenas 0,3% no terceiro trimestre e 0,1% no quarto trimestre.
Para 2027, a projeção mencionada é de crescimento de apenas 1%, refletindo uma desaceleração mais acentuada da economia.
São projeções, e não resultados já registrados. Elas podem mudar conforme novos dados de atividade, inflação, emprego e crédito sejam divulgados.
Quais setores mais chamaram atenção?
O turismo e o transporte de passageiros estão entre os segmentos que mais perderam força.
O turismo caiu 3,4% em junho, enquanto o transporte de passageiros recuou 4,0%. Segundo a análise da XP, o setor aéreo enfrenta uma combinação de menor demanda e pressão de custos, incluindo o impacto dos preços do petróleo e derivados sobre o querosene de aviação.
Na direção contrária, informação e comunicação avançou 1,8%, com forte contribuição da tecnologia da informação.
O contraste mostra que a desaceleração não está acontecendo de maneira uniforme. Alguns segmentos continuam crescendo, enquanto atividades mais dependentes do consumo e da mobilidade das famílias perdem força.
O que os dados significam para o consumidor?
Para o consumidor, uma desaceleração dos serviços não significa necessariamente que os preços vão cair.
O efeito mais provável, caso a tendência continue, é uma redução no ritmo de alta dos preços.
Restaurantes, viagens, hospedagem, transportes e outros serviços podem continuar mais caros, mas os reajustes podem se tornar menores caso a demanda enfraqueça de forma persistente.
Ao mesmo tempo, uma eventual redução da Selic poderia diminuir gradualmente o custo do crédito. Esse efeito, porém, depende das condições oferecidas pelos bancos e costuma chegar à economia com alguma defasagem.
O que o Banco Central vai observar daqui para frente?
Os próximos indicadores serão importantes para determinar se a desaceleração observada em junho representa apenas uma oscilação ou o início de uma tendência mais consistente.
Entre os principais pontos de atenção estão:
- evolução da inflação de serviços;
- comportamento dos salários;
- taxa de desemprego;
- consumo das famílias;
- concessão de crédito;
- expectativas de inflação;
- atividade econômica;
- comportamento do câmbio.
A combinação desses indicadores ajudará a definir quanto espaço existe para uma política monetária menos restritiva.
Se a atividade continuar esfriando e a inflação de serviços finalmente acompanhar esse movimento, o cenário poderá ficar mais favorável para cortes de juros.
Se a inflação permanecer resistente, o Banco Central terá menos espaço para acelerar a flexibilização.
Afinal, a economia brasileira está desacelerando?

Os dados apontam que sim, embora ainda não seja possível falar em uma forte contração da atividade.
O setor de serviços cresceu 0,4% no segundo trimestre, mas perdeu força ao longo do período. Em junho, a estabilidade do índice geral veio acompanhada de quedas em quatro dos cinco grandes grupos pesquisados.
O principal desafio agora é saber se essa perda de ritmo será suficiente para aliviar a inflação.
A resposta será determinante para os próximos passos da política monetária. Para o consumidor e para as empresas, a combinação ideal seria uma desaceleração capaz de reduzir a pressão sobre os preços sem provocar uma queda excessiva da atividade e do emprego.
Por enquanto, os números mostram exatamente esse equilíbrio delicado: a economia está esfriando, mas a inflação de serviços ainda não cedeu na mesma velocidade.
Conclusão
Os dados mostram que o setor de serviços começa a perder força, mas a inflação ainda impõe cautela ao Banco Central. Se a desaceleração da atividade continuar e os preços acompanharem esse movimento, o ambiente poderá abrir espaço para cortes de juros. Até lá, a trajetória da inflação de serviços, do emprego e do consumo será decisiva para definir os próximos passos da economia brasileira.
