O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu não analisar uma ação que questionava as novas regras do saque-aniversário do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). A decisão, tomada pela ministra Cármen Lúcia, mantém em vigor as mudanças implementadas pelo governo federal e pelo Conselho Curador do FGTS, que alteraram limites, tetos e condições de antecipação dos valores.
FGTS: entenda por que Cármen Lúcia rejeitou ação sobre saque-aniversário
STF rejeita ação sobre mudanças do saque-aniversário do FGTS. Entenda o que mudou, o impacto nas regras e a decisão da Corte.
A ação havia sido protocolada pelo partido Solidariedade, que contestou a Resolução 1.130/2025 do Conselho Curador. Segundo a sigla, o ato normativo impôs restrições severas ao uso da modalidade, contrariando o interesse dos trabalhadores.
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Decisão do STF sobre a ação do Solidariedade
Entendimento da ministra Cármen Lúcia
Na decisão publicada nesta quinta-feira (15/1), a ministra Cármen Lúcia rejeitou a ação com o argumento de que não cabia ao STF analisá-la naquele formato. Segundo ela, não havia ofensa direta à Constituição, o que torna o processo inadequado para controle abstrato de constitucionalidade.
“A jurisprudência deste Supremo Tribunal consolidou-se no sentido de não se admitir o controle abstrato de constitucionalidade de ato normativo secundário, nos casos em que se fizer necessário o exame de lei na qual aquele se fundamenta e que não tenha sido impugnada pelo requerente”, afirmou a ministra.
Contexto jurídico da ação
A ação foi apresentada via Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF 1283), em novembro de 2025. O objetivo do partido era barrar restrições impostas ao saque-aniversário, que passaram a valer em novembro de 2025 após aprovação do Conselho Curador.
A ministra ressaltou que a sigla questionou apenas a resolução, sem impugnar a lei que dá base a ela — a Lei 13.932/2019, que instituiu a modalidade do saque-aniversário. Sem contestação da lei principal, não há fundamento para análise constitucional.
Argumentos do partido Solidariedade
Restrições apontadas pelo partido
Segundo o Solidariedade, a Resolução 1.130/2025 teria extrapolado sua função, impondo exigências que só poderiam ser estabelecidas por meio de lei aprovada no Congresso. Entre as restrições criticadas estavam:
- carência mínima de 90 dias para antecipar valores;
- limite de operações anuais;
- limites de parcelas;
- teto máximo de crédito antecipado;
- valor mínimo para contratação.
Para o partido, essas medidas prejudicariam os trabalhadores ao restringir o acesso ao crédito baseado no FGTS e ao encarecer a operação, devido ao menor volume disponível para garantia.
O que mudou no saque-aniversário com a resolução
As mudanças no saque-aniversário foram aprovadas em outubro de 2025 e entraram em vigor em novembro do mesmo ano. Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), o objetivo é reduzir o alto nível de endividamento de trabalhadores e preservar recursos do fundo, que financia programas de moradia, saneamento básico e infraestrutura.
Teto para antecipação do saque
A principal mudança foi a limitação do valor por operação. Antes, o trabalhador podia utilizar todo o saldo do FGTS como garantia para operações de crédito. Agora, o limite passou a ser:
- Mínimo por operação: R$ 100
- Máximo por ano: R$ 500
Isso significa que, mesmo que o trabalhador tenha saldo alto no fundo, o limite anual permanece em R$ 500 para antecipação.
Limite de parcelas e prazos
Além do valor, houve mudanças nos prazos e quantidade de operações:
Fase de transição (12 meses iniciais)
- Antecipação de até 5 parcelas anuais (cinco anos)
- Valor máximo total: R$ 2.500
Após o período de transição
- Antecipação de até 3 parcelas anuais por contrato
- Valor máximo total: R$ 1.500
Essas alterações reduziram significativamente o uso do FGTS como ferramenta para contratação de crédito de longo prazo, prática que vinha crescendo desde 2020.
Justificativa econômica do governo
Dados apresentados pela Advocacia-Geral da União (AGU) durante o processo reforçaram a justificativa para as mudanças. Segundo o levantamento:
- 70% dos recursos de saque-aniversário estavam sendo canalizados para bancos;
- Cerca de R$ 249 bilhões estavam comprometidos em operações de crédito;
- A média era de 53,8 operações por trabalhador.
Esses números indicaram um uso intenso do FGTS como mecanismo de endividamento, o que levou o governo a frear a modalidade.
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O que é o saque-aniversário e por que foi criado
Origem da modalidade
O saque-aniversário foi criado em 2019, no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, como alternativa ao saque-rescisão. A ideia era permitir mais flexibilidade ao trabalhador e estimular o consumo anual.
Como funciona o saque-aniversário
O trabalhador que opta pelo saque-aniversário pode retirar anualmente parte do saldo do fundo no mês de seu aniversário, seguindo uma tabela de porcentagens.
No entanto, em caso de demissão sem justa causa, ele perde o direito ao saque integral e recebe apenas a multa de 40% paga pelo empregador.
Crescimento da modalidade
O modelo ganhou popularidade rapidamente. Dados do MTE mostram que:
- 21,5 milhões de trabalhadores aderiram ao saque-aniversário;
- O número representa 51% das contas ativas no FGTS;
- 70% dos aderentes contrataram crédito antecipado usando o FGTS como garantia.
Esse uso massivo para crédito foi um dos fatores que motivaram o endurecimento das regras.
Impactos da decisão no cenário atual
A decisão do STF mantém as novas regras e limitações do saque-aniversário, impedindo que o tema seja suspenso judicialmente neste momento.
Com isso:
- as instituições financeiras terão acesso mais limitado aos recursos do FGTS;
- trabalhadores terão menor capacidade de antecipar valores;
- a política de contenção de endividamento segue alinhada ao planejamento do governo.
A discussão, no entanto, pode voltar ao Supremo caso uma nova ação seja apresentada contestando a lei principal, e não apenas a resolução complementar.
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Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
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