O início da primavera coloca São Paulo diante de uma combinação que merece atenção: temperaturas acima do normal, períodos de forte calor e maior possibilidade de episódios de chuva intensa. Por trás desse cenário está o El Niño de 2026, que continua ganhando força no Oceano Pacífico e tem elevada probabilidade de alcançar intensidade muito forte nos próximos meses.
A tendência não significa que choverá sem parar no estado. O cenário mais provável envolve justamente uma alternância acentuada: dias quentes e até períodos secos podem ser interrompidos pela chegada de sistemas capazes de provocar temporais, rajadas de vento, descargas elétricas e, em algumas situações, granizo.
O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) aponta que partes de São Paulo e Mato Grosso do Sul podem registrar chuva acima da média histórica no trimestre setembro-outubro-novembro. Ao mesmo tempo, a expectativa é de temperaturas superiores à média em grande parte do Brasil.
É essa combinação de calor, umidade e passagem de sistemas meteorológicos que exigirá maior atenção durante a primavera e também na aproximação do verão.
Leia mais:
Governo amplia prazo até dezembro e CNH vencida volta a ter validade
El Niño de 2026 está ficando cada vez mais forte
O El Niño já não é apenas uma possibilidade para o segundo semestre de 2026. O fenômeno está estabelecido e segue em processo de intensificação.
Em sua atualização de 10 de setembro, o Centro de Previsão Climática da NOAA informou que o sistema oceano-atmosfera apresentava sinais claros de fortalecimento. A agência norte-americana estimou uma probabilidade superior a 90% de que o evento alcance intensidade muito forte durante o outono e o inverno do Hemisfério Norte, período que corresponde à primavera e ao verão no Brasil.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) também considera extremamente elevada a probabilidade de permanência do El Niño durante os próximos meses, com possibilidade de influência sobre o clima até pelo menos o começo de 2027.
No Brasil, INMET, INPE, Cemaden, ANA, Serviço Geológico do Brasil, Defesa Civil Nacional e outros órgãos vêm acompanhando conjuntamente a evolução do fenômeno.
O boletim divulgado no início de setembro apontava mais de 90% de probabilidade de um El Niño muito forte no trimestre setembro-outubro-novembro.
O que significa o chamado “Super El Niño”?
A expressão “Super El Niño” é usada popularmente para descrever episódios excepcionalmente intensos do fenômeno.
Nos boletins brasileiros, os órgãos meteorológicos preferem classificações como El Niño forte ou muito forte. Um evento desse tipo ocorre quando as anomalias de temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial atingem níveis muito elevados durante um período prolongado.
Em junho, o INMET já informava que existia possibilidade de o episódio de 2026 entrar entre os mais fortes dos registros históricos modernos. Naquele momento, modelos indicavam chance de o fenômeno atingir intensidade muito forte durante a primavera e o verão de 2026/2027.
As projeções se fortaleceram nos meses seguintes.
A NOAA informou em setembro que existe mais de 90% de chance de um evento muito forte e que o El Niño continua se intensificando.
Isso, porém, não permite afirmar que todos os locais terão eventos extremos.
Um El Niño mais forte aumenta a influência do fenômeno sobre os padrões de circulação atmosférica, mas chuva, ondas de calor e tempestades também dependem de fatores regionais e de sistemas meteorológicos que atuam em escalas de dias ou semanas.
Por que São Paulo pode ter mais temporais?
A primavera já é naturalmente uma estação de mudança rápida no tempo em São Paulo.
À medida que o Hemisfério Sul recebe mais radiação solar, as temperaturas aumentam. Ao mesmo tempo, cresce o transporte de umidade proveniente da Amazônia em direção ao Centro-Oeste e ao Sudeste.
O próprio INMET explica que a combinação entre ar quente, disponibilidade de umidade e a passagem de frentes frias pode favorecer a formação rápida de tempestades severas durante a primavera.
O El Niño interfere nessa dinâmica ao modificar a circulação atmosférica em grande escala.
Uma nota técnica elaborada por INPE, INMET, Funceme e Censipam explica que os efeitos do fenômeno sobre o Sudeste são mais variáveis do que aqueles normalmente registrados no Sul do Brasil.
Em determinadas configurações, o aumento do transporte de umidade da Amazônia em direção aos subtrópicos pode favorecer volumes maiores de precipitação no sudeste paulista e em outras áreas do Sudeste.
Por isso, São Paulo pode passar por episódios em que muita chuva cai em pouco tempo.
Esse tipo de situação aumenta principalmente a preocupação em áreas urbanizadas, onde grandes volumes de água em intervalos curtos podem provocar alagamentos, enxurradas e transtornos no trânsito.
Chuva acima da média não significa chuva todos os dias
Essa diferença é fundamental.
Quando uma previsão sazonal indica chuva acima da média, ela não está dizendo que haverá precipitação diariamente.
O volume de todo o período pode superar a média mesmo que ocorram vários dias consecutivos sem chuva.
São Paulo poderá experimentar justamente esse comportamento irregular: períodos mais secos e quentes seguidos por episódios de chuva volumosa.
A nota técnica dos órgãos meteorológicos brasileiros destaca inclusive que, apesar da influência do El Niño, episódios de estiagem e veranicos ainda podem ocorrer no Sudeste.
Um veranico é uma sequência de dias predominantemente secos e quentes dentro de uma época em que normalmente seria esperada maior frequência de chuva.
É por isso que previsões aparentemente contraditórias — mais calor e mais chuva — podem acontecer simultaneamente ao longo de uma mesma estação.
Calor também deve chamar atenção em São Paulo
A outra face do El Niño de 2026 será a temperatura.
Os prognósticos nacionais indicam maior probabilidade de temperaturas acima da média em praticamente todo o país durante o período de atuação mais intensa do fenômeno.
No Sudeste, os efeitos típicos do El Niño incluem maior persistência de massas de ar quente durante a primavera e o verão.
Uma das explicações está nas mudanças provocadas na circulação atmosférica.
O fortalecimento do jato subtropical e determinados bloqueios atmosféricos podem dificultar o avanço de massas de ar frio para áreas mais ao norte, deixando o ar quente permanecer sobre a região durante mais tempo.
Isso aumenta a possibilidade de episódios prolongados de calor.
Não significa, entretanto, que frentes frias deixarão de alcançar São Paulo.
Quedas bruscas de temperatura ainda podem acontecer. O próprio INMET ressalta que massas de ar frio continuam capazes de provocar mudanças rápidas mesmo em um cenário de temperaturas médias mais elevadas.
Primavera de 2026 começa com atmosfera mais instável
A primavera no Hemisfério Sul começa nesta terça-feira, 22 de setembro de 2026, às 21h05, pelo horário de Brasília, e termina em 21 de dezembro.
A estação representa uma transição importante no regime de chuvas do Brasil.
Depois dos meses mais secos do inverno em boa parte do interior, a atmosfera passa gradualmente a transportar mais umidade da Amazônia para o Centro-Oeste e Sudeste.
Com o avanço da estação, também começam a aparecer condições favoráveis aos primeiros episódios da Zona de Convergência do Atlântico Sul, a ZCAS, um corredor persistente de umidade capaz de provocar vários dias de chuva sobre áreas do Centro-Oeste e Sudeste.
O comportamento da ZCAS durante um El Niño, entretanto, pode mudar.
Estudos e análises técnicas apontam que alterações na circulação atmosférica podem deslocar ou dificultar a organização desse corredor de umidade em algumas situações, mudando a distribuição das chuvas dentro do próprio Sudeste.
Isso ajuda a explicar por que cidades relativamente próximas podem terminar uma estação com acumulados bastante diferentes.
Temporais podem trazer vento forte, raios e granizo
O risco não está somente no volume de chuva.
As tempestades típicas dos meses mais quentes podem se desenvolver rapidamente quando existe muita energia disponível na atmosfera.
O ar quente próximo à superfície tende a subir. Se houver grande quantidade de umidade e condições favoráveis em diferentes níveis da atmosfera, nuvens de grande desenvolvimento vertical podem se formar.
É nesse tipo de ambiente que podem ocorrer pancadas fortes acompanhadas de rajadas de vento, descargas elétricas e granizo.
O INMET destaca que o contraste entre o ar quente e sistemas como frentes frias favorece tempestades severas durante a primavera.
Por isso, mesmo uma tarde que começa com sol e temperaturas elevadas pode terminar com chuva intensa em determinados períodos da estação.
El Niño causa tornados?
Não diretamente.
O El Niño modifica padrões de circulação atmosférica em grande escala e pode contribuir para ambientes meteorológicos mais favoráveis a determinadas tempestades.
Mas um tornado específico depende de uma combinação muito mais localizada de fatores, como instabilidade, umidade, mudança da velocidade e da direção dos ventos com a altitude e organização das tempestades.
Assim, não é correto afirmar que o El Niño sozinho “provoca” um tornado.
O que pode ocorrer é o fenômeno alterar o cenário climático de fundo sobre o qual sistemas severos se desenvolvem.
O Pacífico está muito mais quente do que o normal
O motor do fenômeno está a milhares de quilômetros do Brasil.
El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais de partes do Oceano Pacífico Equatorial, acompanhado de mudanças na circulação atmosférica.
Em agosto, a NOAA registrou anomalia de aproximadamente +1,8°C na região Niño 3.4, uma das principais áreas utilizadas para acompanhar a evolução do fenômeno. Em partes do Pacífico mais próximas da América do Sul, os desvios eram ainda maiores.
O aquecimento altera a localização das áreas de chuva tropical sobre o Pacífico e desencadeia mudanças na circulação atmosférica que conseguem atingir regiões muito distantes.
São as chamadas teleconexões climáticas.
É dessa maneira que uma mudança nas águas do Pacífico tropical pode influenciar chuva e temperatura no Brasil.
E o Oceano Atlântico?
O Atlântico também é importante para entender o clima brasileiro, mas existe uma distinção necessária.
O aquecimento do Atlântico não caracteriza o El Niño.
A definição do fenômeno está ligada ao sistema oceano-atmosfera do Pacífico Equatorial.
O que ocorre é que as temperaturas do Atlântico Tropical e do Atlântico Sul podem reforçar, reduzir ou modificar os impactos provocados pelo El Niño sobre diferentes partes do Brasil.
O INMET já ressaltou que os efeitos observados no país dependem não apenas da intensidade do fenômeno no Pacífico, mas também das condições existentes em outros oceanos e de sistemas atmosféricos regionais.
É uma das razões pelas quais dois El Niños de intensidade semelhante não produzem necessariamente o mesmo padrão de chuva no Brasil.
Até quando o El Niño deve continuar?
Os modelos indicam que o fenômeno deverá permanecer ativo pelo menos durante o começo de 2027.
A atualização da Organização Meteorológica Mundial publicada em setembro apontou probabilidade próxima de 100% de permanência das condições de El Niño durante os trimestres setembro-outubro-novembro e dezembro-janeiro-fevereiro.
A NOAA também prevê continuidade e fortalecimento do evento ao longo dos próximos meses.
As projeções perdem precisão quanto mais distante está o período analisado. Portanto, ainda não é possível determinar exatamente quando o fenômeno terminará nem como será a transição posterior.
As previsões são atualizadas mensalmente conforme novas medições do oceano e da atmosfera são incorporadas aos modelos.
Um El Niño forte sempre provoca desastres?
Não.
Esse é outro cuidado importante ao interpretar previsões climáticas.
Um evento muito forte aumenta a possibilidade de impactos característicos do El Niño, mas intensidade não é sinônimo automático de desastre.
O próprio INMET ressalta que El Niños mais intensos não produzem necessariamente consequências mais graves em todos os lugares.
O impacto real de uma tempestade depende de onde ela ocorre, quanto tempo dura, quanto chove, das condições do solo e também da vulnerabilidade de cada cidade.
Uma chuva intensa em uma área rural pouco ocupada produz consequências muito diferentes da mesma quantidade de água caindo sobre uma região densamente urbanizada e com histórico de alagamentos.
Por isso, as previsões climáticas servem principalmente para indicar um cenário de maior ou menor risco, enquanto os alertas meteorológicos de curto prazo mostram quando uma ameaça está realmente se aproximando.
O que os moradores de São Paulo devem observar
Para quem vive no estado, a informação mais útil não é tentar prever exatamente em qual dia haverá um temporal daqui a dois meses.
Previsões desse tipo simplesmente não possuem confiabilidade suficiente.
O caminho é acompanhar as atualizações do INMET e da Defesa Civil sempre que sistemas de chuva estiverem se aproximando.
Nos períodos de maior instabilidade, alguns cuidados reduzem o risco:
- evitar áreas abertas e permanecer longe de árvores, postes e estruturas frágeis durante tempestades;
- não atravessar ruas alagadas ou enxurradas;
- procurar abrigo ao perceber raios ou vento forte;
- acompanhar avisos meteorológicos antes de viagens e atividades ao ar livre;
- manter hidratação e reduzir a exposição ao sol durante episódios de calor intenso;
- prestar atenção especial a crianças, idosos e animais nos dias mais quentes.
Os alertas de curto prazo serão particularmente importantes porque o comportamento previsto para esta primavera favorece mudanças rápidas.
São Paulo pode alternar extremos na mesma semana
É provavelmente uma das características que mais deverão chamar a atenção dos paulistas.
Um período de temperaturas elevadas pode ser sucedido rapidamente por uma frente fria, tempestades e queda de temperatura.
Depois, o calor pode retornar.
Essas oscilações não contradizem a previsão de uma primavera mais quente. Uma média sazonal acima do normal permite a ocorrência de dias frios; significa apenas que, considerando toda a estação, os valores tendem a ficar mais elevados.
Da mesma forma, chuva acima da média não elimina períodos secos.
Essa alternância ajuda a entender por que o El Niño de 2026 deve exigir atenção constante em São Paulo, especialmente durante a primavera e o começo do verão.
O que esperar dos próximos meses
As informações disponíveis até setembro apontam para um El Niño excepcionalmente intenso e com influência prolongada.
Para São Paulo, o cenário combina temperaturas elevadas, maior frequência de períodos de calor, chuva irregular e possibilidade de episódios de temporais intensos.
Partes do estado também aparecem entre as áreas com tendência de precipitação acima da média durante os próximos meses.
Isso não significa que todos esses fenômenos ocorrerão ao mesmo tempo ou com a mesma intensidade em todas as cidades.
A previsão sazonal mostra a tendência geral. Os detalhes de cada tempestade somente poderão ser definidos com antecedência muito menor.
Para a população, portanto, o ponto principal será acompanhar as atualizações meteorológicas conforme a primavera avança. Em uma estação marcada pela combinação entre calor, umidade e um El Niño muito forte, mudanças rápidas no tempo devem fazer parte da rotina.
Perguntas frequentes
O que é um Super El Niño?
“Super El Niño” é uma expressão utilizada para descrever episódios excepcionalmente intensos do El Niño. Os órgãos meteorológicos também utilizam classificações como El Niño forte ou muito forte.
São Paulo terá mais chuva por causa do El Niño?
As projeções indicam chuva acima da média em partes do estado durante o trimestre setembro-outubro-novembro. Isso não significa chuva diária: períodos secos podem se alternar com episódios de precipitação intensa.
O El Niño vai aumentar os temporais em São Paulo?
O fenômeno altera a circulação atmosférica e, combinado com o calor e a umidade típicos da primavera, pode favorecer um ambiente com maior ocorrência de episódios de chuva forte. Cada tempestade, porém, depende das condições meteorológicas daquele momento.
São Paulo terá ondas de calor?
Existe maior probabilidade de temperaturas acima da média e de episódios de calor durante a primavera e o verão. Ainda assim, frentes frias e quedas temporárias de temperatura continuarão ocorrendo.
Até quando dura o El Niño de 2026?
As projeções indicam alta probabilidade de permanência do fenômeno durante o fim de 2026 e o começo de 2027. A data exata de encerramento ainda não pode ser determinada.
El Niño causa tornados?
O El Niño não provoca diretamente um tornado específico. Ele pode modificar os padrões atmosféricos em grande escala, enquanto a formação de tornados depende de condições locais de instabilidade, umidade e vento.
Vai chover todos os dias durante a primavera em São Paulo?
Não. Mesmo com tendência de precipitação acima da média em algumas áreas, São Paulo poderá registrar períodos secos e quentes intercalados com episódios de chuva mais intensa.
