A nova política comercial imposta pelos Estados Unidos reacendeu preocupações sobre a vulnerabilidade do Brasil frente às instabilidades externas. O presidente Donald Trump anunciou oficialmente, no dia 30 de julho, um aumento tarifário que atinge duramente dois dos principais produtos da pauta de exportações brasileira: café e carne bovina.
Tarifaço de Trump: dois produtos nacionais ainda estão na mira dos EUA
Dois itens são os mais afetados pelo tarifaço de Trump. Entenda aqui os impactos e como o Brasil pode reagir. Leia a análise agora!!!!
Enquanto itens como suco de laranja, aço e aeronaves foram poupados da nova tributação, esses dois alimentos, que movimentam bilhões de dólares anualmente, não foram incluídos na lista de exceções. A decisão tem potencial para afetar diretamente setores estratégicos da economia e milhares de produtores, especialmente em Minas Gerais e São Paulo.

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Os detalhes do tarifaço: café e carne na linha de frente
O que muda com a nova alíquota
A nova ordem executiva assinada por Trump adicionou uma taxa de 40% à tarifa já existente de 10%, resultando em uma tributação de 50% para produtos brasileiros selecionados. O documento entra em vigor sete dias após sua publicação, o que deve impactar embarques já programados para os primeiros dias de agosto.
A lista de isenções é extensa, contemplando setores como aeronáutico, mineral, e algumas categorias de produtos industriais. No entanto, dois dos produtos mais relevantes para o agronegócio brasileiro ficaram de fora: café e carne bovina, ambos com forte presença no mercado americano.
Exportações afetadas: valores bilionários
Nos primeiros seis meses de 2025, o Brasil exportou mais de US$ 1,16 bilhão em café para os EUA, sendo este o terceiro produto mais lucrativo para o país na relação bilateral. A carne bovina aparece logo depois, com US$ 790 milhões no mesmo período. Esses números ilustram não apenas a importância dos produtos, mas também a dependência de determinados mercados.
Com a entrada em vigor da nova alíquota, a rentabilidade dessas exportações ficará comprometida, podendo gerar recuo na demanda americana e realocação de mercados.
Café: o grão nobre sob ataque
Minas Gerais, o epicentro da produção
Minas Gerais é o principal estado exportador de café do país. Somente no primeiro semestre deste ano, o estado enviou US$ 5,5 bilhões do produto ao exterior, com uma fatia significativa destinada aos Estados Unidos. Grandes empresas como Cooxupé, Unicafé, Exportadora Guaxupé e Terra Forte lideram os embarques.
Com a imposição do tarifaço, esses agentes econômicos terão que lidar com uma nova realidade: ou absorvem o custo adicional, ou perdem competitividade frente a concorrentes da Colômbia, Vietnã e Etiópia, que podem preencher o espaço deixado pelo Brasil.
Impacto no pequeno produtor
Boa parte do café exportado pelos gigantes do setor é adquirido de pequenos produtores rurais, que cultivam em propriedades familiares. Com margens já apertadas, uma retração da demanda pode significar perda de renda direta no campo, afetando comunidades inteiras e compromissos financeiros de curto e médio prazo.
O risco é que produtores abandonem áreas cultiváveis ou vendam café a preços ainda mais baixos para manter o fluxo de caixa – cenário prejudicial para toda a cadeia.
Carne bovina: cortes no acesso a um mercado estratégico
As grandes exportadoras brasileiras
No setor da carne bovina, o Brasil também se destaca como um dos principais exportadores mundiais. Empresas como JBS, Marfrig e Minerva Foods lideram os embarques para os Estados Unidos, sendo este um dos mercados mais lucrativos por conta das exigências sanitárias e do valor agregado do produto.
Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC), o estado de São Paulo foi o maior exportador de carne bovina para os EUA entre janeiro e abril, com mais de US$ 202 milhões, representando 27% de todas as vendas do país nesse setor para o mercado americano.
Goiás e Mato Grosso do Sul: relevância crescente
Além de São Paulo, estados como Goiás e Mato Grosso do Sul tiveram papéis importantes nas exportações de carne bovina em 2025. Goiás enviou US$ 137 milhões, e Mato Grosso do Sul, US$ 116 milhões, só nos quatro primeiros meses do ano. Ambos os estados possuem forte vocação para a pecuária de corte e, agora, encaram um cenário de incertezas comerciais.
Os riscos para a economia nacional
Prejuízo na balança comercial
Com o aumento da tarifação, é provável que os EUA reduzam significativamente as compras desses produtos. Isso impactaria diretamente a balança comercial brasileira, que se beneficia dos superávits gerados pelo agronegócio. A queda nas exportações de café e carne, se confirmada, pode abrir um rombo bilionário nas contas externas do país.
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Além disso, a menor entrada de dólares reduz o volume de reservas internacionais e pressiona o câmbio, gerando consequências indiretas como inflação de importados e aumento de custos industriais.
Ameaça ao emprego e ao PIB do agro
O agronegócio é responsável por cerca de 25% do Produto Interno Bruto brasileiro e emprega milhões de pessoas. Um choque nas exportações desses produtos pode provocar demissões, fechamento de frigoríficos e quebra de produtores rurais.
A dificuldade em escoar a produção, somada à concorrência externa, tende a reduzir a lucratividade das empresas e impactar a arrecadação tributária nos estados exportadores, como São Paulo, Minas Gerais e Goiás.
Possíveis saídas: diversificação e diplomacia
Reação do Itamaraty e da Apex Brasil
A resposta do governo brasileiro deve ser articulada em dois eixos: diplomacia comercial e diversificação de mercados. A Apex Brasil já atua na prospecção de compradores em outras regiões, como Oriente Médio, Sudeste Asiático e Europa Oriental.
Já o Itamaraty tenta sensibilizar o governo norte-americano quanto aos impactos da medida, especialmente em setores que historicamente mantêm relações estáveis com os EUA.
A importância da competitividade interna
Outro aspecto considerado essencial é o fortalecimento da competitividade da produção nacional. Redução de juros, investimento em infraestrutura e ampliação do crédito rural podem ajudar produtores a enfrentarem essa fase de turbulência com mais resiliência.
É consenso entre especialistas que o Brasil precisa reduzir sua dependência de poucos mercados e ampliar sua presença em blocos comerciais como Mercosul, BRICS e União Europeia.

Um teste para a diplomacia e a resiliência do agro
O tarifaço imposto por Trump é mais do que uma medida comercial; representa um desafio à sustentabilidade econômica de dois setores estratégicos do Brasil. Café e carne bovina, apesar da sua força histórica, agora enfrentam um cenário de incertezas que exigirá ação rápida, estratégica e coordenada entre governo, empresas e produtores.
Minas Gerais, São Paulo, Goiás e Mato Grosso do Sul estão no epicentro desse abalo, e suas economias locais podem sentir os reflexos ainda em 2025. Em vez de recuar, o país precisa reagir com inteligência, buscando novos caminhos e consolidando seu papel como um dos maiores produtores de alimentos do mundo.
