Apesar das declarações do presidente Donald Trump de que países estrangeiros e empresas internacionais absorvem os custos do tarifaço, evidências econômicas recentes mostram que os consumidores e empresas americanas estão pagando caro pelas tarifas impostas como ferramenta política.
Tarifaço avança e pressiona gastos dos consumidores americanos
Tarifaço dos EUA pressionam empresas e consumidores americanos, aumentando preços de produtos importados e domésticos.
Trump publicou em sua rede social Truth Social:
“Está provado que, mesmo neste estágio avançado, as tarifas não causaram inflação ou quaisquer outros problemas para a América, além de quantias massivas de dinheiro entrando nos cofres do nosso Tesouro. Além disso, foi demonstrado que, na maior parte, os consumidores nem estão pagando essas tarifas. Os custos são principalmente de empresas e governos, muitos deles estrangeiros, que estão arcando com as contas.”
No entanto, dados econômicos, pesquisas acadêmicas e análises empresariais indicam que essa afirmação não corresponde à realidade. O fardo das tarifas vem crescendo e deve se intensificar nos próximos meses, com impactos prolongados sobre os preços ao consumidor.
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O custo real das tarifas

Se os exportadores estrangeiros estivessem absorvendo os custos, os preços de exportação antes das tarifas deveriam cair. No entanto, os preços de importação permanecem praticamente estáveis: aumentaram apenas 0,5% desde a eleição de novembro e 0,2% desde março.
“Um argumento que parecia plausível até recentemente era que os preços de importação haviam sido sustentados pelo estoque pré-tarifa na [última parte de 2024 e nos primeiros três meses de 2025], que viu as importações de mercadorias atingirem níveis recordes. Isso deixou os exportadores estrangeiros com muitos pedidos, fornecendo pouco incentivo para cortar preços. Mas os preços de importação permaneceram resilientes apesar das importações de mercadorias terem caído acentuadamente [no segundo trimestre], sugerindo que uma queda acentuada nos preços à frente é improvável.”
— Economistas Samuel Tombs e Oliver Allen, Pantheon, 19 de agosto
O chefe de pesquisa econômica da Fitch Ratings, Olu Sonola, também destaca que o ônus recai sobre importadores americanos:
“O dado está nos dizendo que tudo isso é pago pelos importadores. Agora é uma questão: é o fabricante, são os varejistas ou é a pequena empresa que está pagando? Eles agora precisam descobrir: ‘Quanto disso posso absorver e quanto disso vou repassar?’”
Consumidores absorvendo tarifas
Até junho, os consumidores americanos absorveram 22% dos custos tarifários, mas a projeção do Goldman Sachs indica que essa parcela deve subir para 67% até outubro.
“Economistas do Goldman Sachs afirmaram que esperam que cerca de 70% dos custos diretos das tarifas eventualmente recaiam sobre o consumidor, e que o total pode chegar a 100% se incluídos os efeitos secundários dos produtores domésticos aumentarem seus preços.”
A transmissão gradual do custo aos consumidores se explica por fatores como estoques pré-tarifados, repasses distribuídos ao longo da cadeia de suprimentos e a implementação intermitente das tarifas.
Impacto na inflação e preços
Apesar de a inflação geral ter se mantido relativamente controlada — impulsionada por quedas nos preços da gasolina, tendências deflacionárias em certos setores e demanda reprimida —, algumas categorias de produtos importados registraram aumentos significativos.
Produtos como móveis, roupas de cama, ferramentas, brinquedos e artigos esportivos apresentam preços até 5% acima das previsões pré-tarifa, enquanto bens produzidos domesticamente subiram cerca de 3%, segundo pesquisa do professor Alberto Cavallo, da Harvard Business School.
Cavallo observa que o repasse será gradual:
“Acho que pode levar mais de um ano para vermos alguns dos efeitos dessas tarifas. Mas daqui a um ano, talvez dois anos, notaremos que os consumidores acabaram pagando uma quantidade significativa das tarifas, mesmo que não tenham percebido os aumentos imediatamente.”
Expectativas empresariais
O Federal Reserve Bank de Atlanta analisou o impacto das tarifas sobre as expectativas de preço das empresas:
- No final de 2024, empresas previam aumento de preços de 2,5% no ano seguinte
- Em maio de 2025, expectativa subiu para 3,5%, independentemente da exposição direta às tarifas
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O economista Matt Bush, da Guggenheim Investments, observa:
“As empresas dizem que estão trabalhando tanto com fornecedores quanto com consumidores para ajudar a compartilhar parte do ônus dos custos. Mas, conforme a percepção de que essas tarifas não vão diminuir se consolida, elas começarão a repassar mais aos consumidores.”
O CEO do Walmart, Doug McMillon, confirma essa realidade: os custos da empresa aumentam semanalmente devido às tarifas, embora tentem manter os preços baixos “pelo maior tempo possível.”
Desafios para famílias americanas
O impacto é sentido de forma desigual: famílias de baixa renda enfrentam dificuldades para absorver pequenos aumentos contínuos. A economista Heather Long, do Navy Federal Credit Union, detalha:
“Eles podem ficar sem carne ou café em uma semana para comprar sapatos para seus filhos. Na semana seguinte, podem pular o pagamento do carro para cobrir a conta de luz e uma despesa médica. É um malabarismo constante onde alocam dinheiro para sua necessidade mais urgente naquele momento.”
O conceito de “sneakflation” — aumento gradual e quase imperceptível de preços — está sendo utilizado por varejistas para repassar tarifas sem choque imediato ao consumidor.
Perspectivas futuras

Com novas tarifas sendo implementadas e outras se estabelecendo nas cadeias globais, os custos adicionais devem se refletir gradualmente nos preços ao consumidor. Especialistas projetam que, nos próximos meses, a maior parte do impacto tarifário será repassada, afetando especialmente produtos importados e setores com menos concorrência.
O fenômeno destaca a complexidade da política tarifária americana e o risco de pressão contínua sobre gastos familiares, mesmo quando administrado de forma fragmentada.
Com informações de: CNN Brasil
