Um levantamento recente da Frente Nacional dos Prefeitos (FNP) revelou que apenas 10% dos municípios brasileiros oferecem algum tipo de serviço de telemedicina. A constatação expõe o abismo entre a tecnologia disponível e a realidade da saúde pública em grande parte do país, especialmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, onde a carência de médicos é mais aguda.
Telemedicina avança devagar: veja por que só 10% das cidades têm acesso
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Mesmo com a regulamentação da prática e investimentos previstos pelo governo federal, a infraestrutura precária ainda é o principal obstáculo para a expansão da telemedicina, uma ferramenta que promete desafogar o Sistema Único de Saúde (SUS) e facilitar o acesso da população a especialidades médicas.
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O que é telemedicina e por que ela é importante?

Atendimento remoto como resposta à escassez de médicos
A telemedicina permite que médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde realizem consultas, diagnósticos e acompanhamentos à distância, por meio de plataformas digitais.
Essa modalidade é especialmente útil em regiões remotas ou com déficit de especialistas, pois elimina a necessidade de deslocamentos e permite um uso mais eficiente dos recursos médicos disponíveis.
Segundo o levantamento da FNP, a telemedicina poderia ser fundamental em especialidades com alta demanda e poucos profissionais, como:
- Oftalmologia;
- Ortopedia;
- Neurologia;
- Cirurgia geral.
Nesses casos, o atendimento remoto evita que quadros simples ocupem vagas destinadas a casos mais graves, otimizando o fluxo de atendimento nas unidades de saúde.
Por que o avanço é tão lento?
Falta de infraestrutura digital
Apesar de sua eficácia, a implementação da telemedicina esbarra em problemas antigos: a falta de computadores, conexão de internet estável e pessoal capacitado. Muitas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) ainda funcionam com equipamentos obsoletos e sem acesso à rede adequada para videochamadas médicas.
Desigualdade regional
A desigualdade no acesso à saúde é refletida também na adoção da telemedicina. Enquanto capitais e grandes centros urbanos já contam com plataformas de atendimento remoto, pequenos municípios do interior enfrentam dificuldades estruturais para aderir à modalidade. Isso reforça a dependência de deslocamentos para centros maiores e perpetua o problema do abandono médico nas periferias do país.
Investimentos públicos e legislação
Telessaúde no novo PAC da Saúde
Para mudar esse panorama, o Ministério da Saúde incluiu a telessaúde no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) da Saúde, com previsão de R$ 300 milhões em investimentos. O objetivo é informatizar as UBSs e digitalizar processos clínicos, reduzindo até 30% do tempo de atendimento no SUS.
Base legal garante expansão
A prática da telemedicina foi regulamentada em 2022 por meio da Lei nº 14.510, que autoriza a telessaúde em todo o território nacional. Além disso, o Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou a Resolução nº 2.314/2022, estabelecendo critérios técnicos e éticos para a prática, como:
- Garantia de sigilo das informações médicas;
- Registro da consulta em prontuário eletrônico;
- Definição dos limites do atendimento remoto.
Essas normas visam garantir segurança e qualidade nos serviços prestados digitalmente.
Crescimento impulsionado pela pandemia
Durante a pandemia da Covid-19, a telemedicina teve um crescimento explosivo de 372%, segundo dados da Saúde Digital Brasil. Foram mais de 7,5 milhões de atendimentos remotos realizados entre 2020 e 2022, o que revelou o potencial da tecnologia para atender a população mesmo em momentos críticos.
No entanto, passada a emergência sanitária, o ritmo de implementação da telemedicina desacelerou, e o que era tendência durante a crise virou exceção no cotidiano da saúde pública brasileira.
Como a telemedicina pode transformar o SUS?
Redução de filas e democratização do acesso
A adoção da telemedicina pode ser uma solução estratégica para reduzir as filas no SUS. Pacientes com queixas simples podem ser atendidos virtualmente, liberando consultas presenciais para casos mais complexos.
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Além disso, a telemedicina promove a inclusão de comunidades distantes, que muitas vezes enfrentam meses de espera para uma consulta especializada.
Integração com a atenção básica
A proposta do governo é que a telemedicina funcione integrada à atenção primária, fortalecendo o papel das UBSs como portas de entrada para o SUS. Enfermeiros e agentes comunitários de saúde podem ajudar a preparar os pacientes e viabilizar o atendimento online com especialistas.
Desafios para o futuro
Formação e capacitação de profissionais
Mesmo com infraestrutura adequada, muitos municípios enfrentam resistência por parte dos profissionais de saúde, que ainda não estão familiarizados com o uso das plataformas digitais. A formação técnica e a capacitação continuada são fundamentais para garantir o sucesso da telemedicina.
Segurança digital e privacidade
Outro ponto crucial é a segurança dos dados dos pacientes. A prática da telemedicina exige o uso de plataformas seguras e criptografadas, além de profissionais treinados em boas práticas de privacidade digital, conforme exigido pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
O que está por vir?

O sucesso da telemedicina no Brasil depende de ações coordenadas entre União, estados e municípios. Sem investimentos consistentes em tecnologia, infraestrutura e qualificação, o país corre o risco de aprofundar ainda mais as desigualdades regionais no acesso à saúde.
Por outro lado, a digitalização do SUS representa uma oportunidade única de modernizar o sistema e colocar a saúde pública mais próxima do cidadão — esteja ele na zona rural do interior do Piauí ou na periferia de São Paulo.
Conclusão
A telemedicina é uma ferramenta poderosa para ampliar o acesso à saúde e enfrentar os gargalos históricos do SUS. No entanto, a baixa adesão em apenas 10% das cidades brasileiras revela um problema estrutural que precisa ser enfrentado com urgência.
Sem infraestrutura, capacitação e segurança digital, a promessa da saúde digital corre o risco de se tornar mais uma tecnologia restrita às grandes cidades, longe de cumprir seu papel de inclusão.
Imagem: Liubomyr Vorona / iStock
