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Tesouro Direto despenca após 1º turno e Renda+ 2065 dispara 22%

Avatar de Melissa Barbosa Melissa Barbosa · · 9 min de leitura
Tesouro Direto

O Tesouro Direto viveu uma das sessões mais voláteis de sua história nesta segunda-feira (5), no primeiro pregão após o 1º turno das Eleições 2026. A forte queda das taxas dos títulos públicos provocou uma disparada nos preços de papéis que já estavam nas carteiras dos investidores, ampliando os ganhos com a chamada marcação a mercado.

A movimentação foi tão intensa que o Tesouro Direto suspendeu temporariamente as negociações durante a manhã. O Tesouro Nacional informou que a interrupção ocorreu devido à alta volatilidade dos mercados.

O movimento aconteceu após Flávio Bolsonaro (PL) terminar o primeiro turno na liderança, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Os dois disputarão o segundo turno em 25 de outubro.

A reação do mercado está relacionada às expectativas dos investidores para a política econômica do próximo governo, especialmente em relação ao ajuste fiscal, às contas públicas e ao comportamento futuro da taxa Selic.

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Por que os títulos do Tesouro Direto subiram tanto?

Tesouro Direto
(Imagem: Adobe Stock)

A explicação está na relação entre taxas de juros e preços dos títulos públicos.

Quando as taxas oferecidas pelo mercado caem, o preço dos títulos que já estão nas mãos dos investidores tende a subir. O movimento ocorre porque um papel comprado anteriormente com uma taxa mais elevada passa a ser mais atrativo diante das novas condições.

É justamente esse mecanismo que produz a chamada marcação a mercado.

Na segunda-feira, a queda das taxas foi especialmente forte nos títulos prefixados e nos papéis indexados à inflação de longo prazo.

Segundo levantamento do mercado, alguns títulos registraram uma das maiores quedas diárias de suas séries históricas. O movimento ficou atrás apenas de episódios observados durante a crise financeira de 2008.

Tesouro Renda+ 2065 dispara 22% em um único pregão

Um dos maiores destaques foi o Tesouro Renda+ 2065.

Na sexta-feira (2), o título era negociado com rentabilidade de IPCA + 6,89% ao ano. Na segunda-feira, a taxa caiu para IPCA + 6,42% ao ano.

Ao mesmo tempo, o preço unitário passou de R$ 209,30 para R$ 256,31.

Isso representa uma valorização de aproximadamente 22,46% em apenas um pregão.

O movimento chama atenção porque o Renda+ 2065 está entre os títulos de prazo mais longo disponíveis ao investidor. Papéis com vencimentos distantes costumam apresentar maior sensibilidade às mudanças nas taxas de juros.

Quanto maior essa sensibilidade, maior pode ser a variação do preço quando o mercado passa por uma reprecificação.

Tesouro IPCA+ 2050 também registra forte valorização

Outro papel que apresentou forte valorização foi o Tesouro IPCA+ 2050.

O preço unitário saiu de R$ 938,35 para R$ 1.046,55, uma alta de aproximadamente 11,53%.

Ao mesmo tempo, a taxa oferecida pelo título caiu de IPCA + 7,08% para IPCA + 6,59% ao ano.

Esse é um exemplo clássico de marcação a mercado: enquanto a taxa exigida pelos investidores diminuiu, o preço do título que já estava no mercado aumentou.

Isso significa que o investidor ganhou 22%?

Não necessariamente.

A valorização de 22,46% representa a valorização do preço de mercado do título, e não necessariamente um lucro já realizado.

Para transformar essa valorização em dinheiro, o investidor precisa vender o título antes do vencimento.

É nesse momento que entra uma diferença fundamental.

Quem vende antecipadamente recebe o preço de mercado daquele dia. Portanto, pode obter um ganho expressivo ou sofrer uma perda, dependendo do comportamento das taxas.

Já quem mantém o título até o vencimento recebe a rentabilidade estabelecida no momento da compra, respeitadas as condições do papel.

Por isso, a marcação a mercado pode ser muito interessante para quem comprou títulos longos quando os juros estavam elevados, mas também representa um risco para quem precisa vender em um momento de alta das taxas.

Por que o Tesouro Direto suspendeu as negociações?

A suspensão ocorreu por causa da forte volatilidade.

O Tesouro Direto pode interromper temporariamente as negociações quando as condições de mercado ficam muito instáveis. A medida busca evitar que os investidores negociem títulos em condições de preço consideradas inadequadas diante de oscilações muito rápidas.

Foi o que aconteceu na manhã de 5 de outubro.

As negociações foram posteriormente retomadas, mas os títulos voltaram ao mercado com taxas significativamente diferentes das observadas antes do resultado eleitoral.

O que aconteceu com as taxas do Tesouro Direto?

Depois da forte queda dos juros, vários títulos perderam os patamares que haviam se tornado comuns nos meses anteriores.

Entre os prefixados, o Tesouro Prefixado 2029 encerrou o dia oferecendo 12,62% ao ano.

O Tesouro Prefixado 2032 ficou em 12,81%, enquanto o Tesouro Prefixado 2037 com juros semestrais terminou oferecendo 12,90% ao ano.

Nos títulos vinculados à inflação, o Tesouro IPCA+ 2032 ficou em IPCA + 7,00% ao ano.

Os títulos mais longos apresentaram taxas menores:

  • Tesouro IPCA+ 2040: IPCA + 6,68%
  • Tesouro IPCA+ 2050: IPCA + 6,59%
  • Tesouro IPCA+ 2060 com juros semestrais: IPCA + 6,59%

Veja as taxas do Tesouro Direto em 5 de outubro

TítuloRentabilidadeInvestimento mínimo
Tesouro Selic 2031Selic + 0,0858%R$ 199,52
Tesouro Prefixado 202912,62%R$ 7,68
Tesouro Prefixado 203212,81%R$ 5,34
Tesouro Prefixado 2037 com juros semestrais12,90%R$ 8,78
Tesouro IPCA+ 2032IPCA + 7,00%R$ 32,04
Tesouro IPCA+ 2040IPCA + 6,68%R$ 19,49
Tesouro IPCA+ 2050IPCA + 6,59%R$ 10,46
Tesouro IPCA+ 2037 com juros semestraisIPCA + 6,95%R$ 45,51
Tesouro IPCA+ 2045 com juros semestraisIPCA + 6,68%R$ 45,48
Tesouro IPCA+ 2060 com juros semestraisIPCA + 6,59%R$ 44,45
Tesouro Renda+ 2030IPCA + 6,76%R$ 21,55
Tesouro Renda+ 2035IPCA + 6,66%R$ 15,80
Tesouro Renda+ 2040IPCA + 6,55%R$ 11,72
Tesouro Renda+ 2045IPCA + 6,49%R$ 8,68
Tesouro Renda+ 2050IPCA + 6,45%R$ 6,42
Tesouro Renda+ 2055IPCA + 6,42%R$ 4,75
Tesouro Renda+ 2060IPCA + 6,42%R$ 3,49
Tesouro Renda+ 2065IPCA + 6,42%R$ 2,56

O que as eleições têm a ver com os juros?

O mercado financeiro trabalha com expectativas.

A liderança de Flávio Bolsonaro no primeiro turno aumentou, entre parte dos investidores, a aposta em uma eventual mudança na condução da política fiscal brasileira.

Uma percepção de maior controle das contas públicas pode reduzir o prêmio de risco exigido pelos investidores. Com menor prêmio de risco, os juros futuros podem cair.

Foi essa mudança nas expectativas que ajudou a provocar a forte reprecificação dos títulos.

Mas existe um ponto importante: a eleição ainda não terminou.

Flávio Bolsonaro e Lula disputarão o segundo turno em 25 de outubro. Até lá, pesquisas eleitorais, alianças, discursos e propostas econômicas podem provocar novas mudanças nas expectativas do mercado.

Portanto, a queda dos juros observada nesta segunda-feira não significa que um novo ciclo de queda da Selic esteja garantido.

Quem já tinha Tesouro Direto ganhou dinheiro?

Potencialmente, sim — especialmente quem possuía títulos longos adquiridos quando as taxas estavam mais altas.

Imagine, por exemplo, um investidor que comprou um título longo quando o mercado oferecia uma taxa bastante elevada.

Se posteriormente as taxas caem, o preço daquele título aumenta. O investidor pode então vender o papel por um valor superior ao que pagou.

Esse é o ganho proporcionado pela marcação a mercado.

Porém, o resultado não é igual para todos.

Quem estava investido no Tesouro Selic, por exemplo, não experimentou uma valorização de preço semelhante à dos títulos longos. Já quem possuía papéis prefixados ou IPCA+ de longo prazo ficou muito mais exposto à movimentação dos juros.

E quem comprar Tesouro Direto agora?

A situação mudou para quem pretende investir depois da forte queda das taxas.

Isso porque o investidor que compra um título agora trava uma taxa diferente daquela disponível antes do primeiro turno.

Isso não significa que os títulos tenham deixado de ser interessantes.

Um Tesouro IPCA+, por exemplo, continua oferecendo uma taxa real acima da inflação. O investidor que mantém o papel até o vencimento pode receber a rentabilidade contratada.

A questão é avaliar se a taxa disponível atualmente é adequada ao objetivo e ao prazo do investimento.

Também é necessário considerar que as taxas podem voltar a subir.

Se isso acontecer, os preços dos títulos poderão cair novamente.

Renda fixa pode perder dinheiro?

Sim.

O termo “renda fixa” não significa que o preço do investimento permanece constante.

Os títulos públicos negociados pelo Tesouro Direto têm seus preços atualizados diariamente de acordo com as condições do mercado.

Por isso, um título comprado hoje pode aparecer amanhã com valor superior ou inferior ao preço pago.

A situação é especialmente relevante para quem pode precisar resgatar o dinheiro antes do vencimento.

Quem mantém o título até o vencimento, por outro lado, está menos preocupado com essas oscilações intermediárias, pois a remuneração contratada é mantida nas condições previstas para o papel.

O que pode acontecer com o Tesouro Direto daqui para frente?

O mercado deve continuar acompanhando de perto a disputa presidencial.

O segundo turno está marcado para 25 de outubro, e novas pesquisas e declarações dos candidatos podem provocar oscilações importantes nos juros futuros.

Além da eleição, os investidores continuarão observando inflação, política monetária, situação fiscal e decisões do Banco Central.

Isso significa que as taxas do Tesouro Direto podem continuar mudando rapidamente.

Para o investidor, o principal cuidado é não tomar uma decisão apenas porque determinado título subiu ou caiu muito em um único dia.

O que o investidor deve analisar antes de comprar?

Tesouro Direto
Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

Antes de escolher um título do Tesouro Direto, é importante observar:

  • prazo até o vencimento;
  • rentabilidade oferecida;
  • objetivo do investimento;
  • necessidade de liquidez;
  • possibilidade de venda antecipada;
  • exposição à marcação a mercado;
  • cenário de juros e inflação.

Um título que parece extremamente atrativo por causa de uma taxa elevada pode não ser adequado para quem precisará do dinheiro no curto prazo.

Da mesma forma, uma forte valorização pode parecer uma oportunidade de venda, mas a decisão deve considerar o objetivo original do investimento.

Conclusão

O pregão de 5 de outubro mostrou que a renda fixa pode apresentar movimentos expressivos quando as expectativas do mercado mudam rapidamente.

A liderança de Flávio Bolsonaro no primeiro turno provocou uma forte reação nos juros futuros, com queda das taxas e valorização dos títulos públicos. O movimento foi tão intenso que o Tesouro Direto suspendeu temporariamente as negociações durante a manhã.

Entre os destaques, o Tesouro Renda+ 2065 teve valorização de aproximadamente 22,46% no preço de mercado, enquanto o Tesouro IPCA+ 2050 avançou cerca de 11,53%.

Para quem já possuía títulos longos, a queda das taxas representou uma oportunidade de valorização por meio da marcação a mercado. Para quem pretende investir agora, porém, as condições são diferentes.

A principal lição é que renda fixa não significa preço fixo. Entender a relação entre juros, preço e vencimento é fundamental para saber quando uma oscilação representa uma oportunidade e quando pode representar um risco.

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