Pesquisadores do Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Araraquara (SP), desenvolveram uma tecnologia capaz de identificar a presença de metanol em bebidas alcoólicas ou combustíveis em poucos minutos. O método, patenteado pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), custa cerca de R$ 15 e pode se tornar um kit acessível para bares, distribuidoras e consumidores.
Teste de apenas R$ 15 promete revelar metanol em bebidas em minutos!
Método desenvolvido pela Unesp identifica metanol em bebidas por apenas R$15, com resultado em 15 minutos e 100% de precisão.
De acordo com os cientistas envolvidos no projeto, o processo é simples, rápido e não exige equipamentos sofisticados nem mão de obra especializada. A descoberta reacendeu o debate sobre segurança alimentar e adulteração de bebidas, especialmente após o aumento de casos de intoxicação registrados no país.
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Como funciona o teste

Mudança de cor revela presença de metanol
O método desenvolvido pela Unesp baseia-se em uma reação química de oxidação. Um tipo de sal é adicionado ao líquido suspeito e, caso haja metanol, a amostra se transforma em formol. Em seguida, um ácido é aplicado, provocando uma mudança visível na cor da solução — o que permite detectar a concentração de metanol a olho nu.
O resultado é interpretado de acordo com a tonalidade obtida:
- Verde: ausência de metanol
- Verde amarronzado: 0,1% a 0,4%
- Marrom: 0,5% a 0,9%
- Roxo: 1% a 20%
- Azul-marinho: 50% a 100%
Nas bebidas destiladas, o diagnóstico é concluído em apenas 15 minutos, com precisão de 100% nas análises laboratoriais realizadas.
Potencial para uso em larga escala
Kit de baixo custo pode chegar ao mercado
Em entrevista à BBC Brasil, a pesquisadora Larissa Modesto, líder do estudo e mestranda do Instituto de Química à época da pesquisa, afirmou que a tecnologia é totalmente escalável, desde que haja interesse comercial.
“Seria necessário que uma empresa adquirisse os direitos de comercialização da patente e produzisse o kit. Como o limite de metanol permitido é muito baixo, qualquer tonalidade roxa já indica que a bebida não deve ser consumida”, explicou Modesto.
A expectativa é que o produto, quando fabricado em escala industrial, mantenha o custo estimado em R$ 15 — valor considerado acessível diante do potencial de salvar vidas e evitar surtos de intoxicação.
Outras iniciativas brasileiras de detecção
Pesquisa da UnB virou empresa
A tecnologia da Unesp não é a única em desenvolvimento no país. Em Brasília, um estudo iniciado na Universidade de Brasília (UnB) em 2013 deu origem à empresa Macofren, que hoje fornece kits de detecção de metanol para empresas privadas e órgãos públicos.
O químico Arilson Onésio Ferreira, autor do projeto original, afirmou que o custo do teste completo gira em torno de R$ 50, mas o reagente isolado sai por R$ 25. Segundo ele, o desafio está na diversidade das formulações das bebidas, que podem interferir no resultado.
“Corantes e açúcares podem causar falso positivo, mas jamais pode ocorrer falso negativo”, ressaltou o pesquisador.
Canudo que muda de cor
Na Paraíba, cientistas da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) estão desenvolvendo um canudo detector de metanol. O item, impregnado com substâncias químicas, muda de cor quando entra em contato com bebidas contaminadas.
A pró-reitora de pós-graduação da instituição, Nadja Oliveira, explicou que o dispositivo busca dar mais segurança ao consumidor, permitindo que ele identifique rapidamente se a bebida está adulterada.
O projeto chamou atenção do governo federal: o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), intermediou uma reunião entre a equipe da UEPB e o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, para apresentar a tecnologia.
Exame com ressonância magnética
Outro método promissor vem da Universidade Federal do Paraná (UFPR). O Laboratório Multiusuário de Ressonância Magnética Nuclear desenvolveu uma técnica que identifica o metanol a partir da análise espectroscópica do líquido.
O professor Kahlil Salome, vice-coordenador do projeto, explicou que a amostra é colocada em um tubo e analisada por um equipamento semelhante aos utilizados em exames médicos.
“A análise leva cerca de cinco minutos e é capaz de detectar metanol mesmo em bebidas com corantes ou frutas”, destacou.
Cresce o número de intoxicações no Brasil
O Ministério da Saúde registrou 225 casos de intoxicação por metanol, sendo 16 confirmados e 209 em investigação. As ocorrências se concentram em São Paulo e São Bernardo do Campo (SP), envolvendo bebidas como gim, vodca e uísque adulterados.
Diante do aumento dos casos, o governo anunciou a compra de 2.500 doses de fomepizol, medicamento usado como antídoto contra o metanol, além de 12.000 ampolas de etanol farmacêutico, para reforçar o estoque estratégico dos hospitais públicos.
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O que é o metanol

Substância altamente tóxica e inflamável
O metanol (CH₃OH) é um álcool simples, incolor e inflamável, com odor semelhante ao etanol. Historicamente chamado de “álcool da madeira”, é hoje produzido industrialmente a partir do gás natural. Ele é usado na fabricação de solventes, tintas, resinas e biodiesel — nunca para consumo humano.
Segundo o Conselho Federal de Química (CFQ), a ingestão de apenas 4 ml a 10 ml pode causar cegueira irreversível, e 30 ml podem ser fatais. A substância é metabolizada em formaldeído e ácido fórmico, que provocam acidose metabólica, afetando órgãos vitais e a visão.
Os principais sintomas de intoxicação incluem:
- Náusea e tontura
- Dor abdominal
- Respiração acelerada
- Alterações visuais progressivas
Diagnóstico e tratamento
Em casos suspeitos, o diagnóstico deve ser imediato, com exames de sangue e imagem. O tratamento é feito com fomepizol ou etanol intravenoso, que bloqueiam o metabolismo do metanol, impedindo a formação de ácido fórmico. Casos graves exigem hemodiálise e cuidados intensivos.
A Associação Brasileira de Neuro-oftalmologia (Abno) alerta que qualquer atraso no atendimento pode resultar em morte ou sequelas permanentes.
Prevenção: atenção à procedência
Fiscalização é essencial para evitar tragédias
A ingestão de bebidas adulteradas é um problema recorrente e muitas vezes fatal. Especialistas recomendam verificar sempre a procedência do produto, evitar preços muito baixos e não consumir bebidas sem rótulo ou registro.
O Conselho Federal de Química reforça que a fiscalização rigorosa dos órgãos públicos, associada ao uso de tecnologias como os kits de detecção, é fundamental para garantir a segurança da população.
Com a popularização do teste desenvolvido pela Unesp e outras iniciativas acadêmicas, o Brasil pode estar mais próximo de evitar tragédias provocadas pela adulteração criminosa de bebidas alcoólicas. O desafio, agora, é transformar a inovação científica em ferramenta acessível e disponível em todo o país.
Imagem: Freepik

