O Tribunal Superior do Trabalho (TST) proferiu, no dia 14 de outubro de 2024, uma decisão importante para os trabalhadores brasileiros ao definir, em julgamento de recurso repetitivo (tema 21), que a autodeclaração de pobreza é suficiente para garantir o direito à Justiça gratuita. Essa decisão é um marco para assegurar o acesso à Justiça para trabalhadores de baixa renda ou em situação de fragilidade econômica, afastando a necessidade de provas adicionais que vinham sendo exigidas por alguns tribunais regionais.
Autodeclaração de pobreza é validada e garante gratuidade jurídica
Decisão do TST em julgamento de recurso repetitivo confirma que a autodeclaração de pobreza do trabalhador é suficiente para garantir a gratuidade judiciária, afastando a exigência de provas adicionais.
Essa decisão unifica o entendimento dos tribunais sobre a questão, especialmente em face das controvérsias que surgiram com a reforma trabalhista de 2017, que alterou aspectos cruciais da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). A decisão do TST preserva a possibilidade de o trabalhador acessar a Justiça sem arcar com custos processuais, desde que sua condição de pobreza seja declarada formalmente, sem a exigência de comprovações adicionais.
A relevância da decisão para a Justiça do Trabalho

A decisão do TST foi celebrada por advogados e defensores dos direitos trabalhistas como uma “vitória histórica”. Mauro de Azevedo Menezes, sócio do escritório Mauro Menezes & Advogados, que atuou diretamente no caso, destacou a importância desse julgamento para garantir que trabalhadores em condições de vulnerabilidade financeira possam continuar buscando seus direitos na Justiça do Trabalho sem o receio de despesas processuais inatingíveis.
“Esse julgamento do plenário do TST garantiu a plena validade da autodeclaração, feita pela pessoa trabalhadora ou por seu advogado, no sentido de que não pode arcar com os custos processuais sem comprometer o próprio sustento ou o de sua família”, comentou Menezes. Segundo ele, a decisão reforça a proteção de trabalhadores com recursos limitados, assegurando-lhes o direito de buscar justiça sem o risco de comprometer sua subsistência.
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Reforma trabalhista e o impacto sobre a Justiça gratuita
Desde a entrada em vigor da reforma trabalhista em 2017, promovida pela Lei 13.467/17, houve intensos debates sobre a aplicação de determinadas regras, especialmente no que diz respeito à concessão de Justiça gratuita. A reforma introduziu alterações significativas na forma como os trabalhadores devem comprovar sua insuficiência de recursos para fins de gratuidade judiciária. Em termos práticos, a lei estabelece que os trabalhadores com renda igual ou inferior a 40% do teto dos benefícios do Regime Geral de Previdência Social (RGPS) — atualmente em torno de R$ 3.114,40 — têm direito automático à gratuidade de Justiça.
Contudo, a situação para aqueles que recebem acima desse valor era incerta, pois a interpretação variava entre os tribunais regionais. Enquanto alguns Tribunais Regionais do Trabalho (TRTs) aceitavam a mera declaração de pobreza, outros passaram a exigir provas adicionais, como extratos bancários e comprovantes financeiros, gerando insegurança jurídica. A decisão do TST, ao uniformizar esse entendimento, representa um avanço na garantia dos direitos fundamentais dos trabalhadores, especialmente daqueles em situações de vulnerabilidade.
Unificação de entendimentos nos tribunais
Gustavo Ramos, advogado do escritório Mauro Menezes & Advogados, também comentou sobre a importância dessa decisão no cenário jurídico brasileiro. Segundo ele, a decisão reafirma a jurisprudência histórica tanto na Justiça do Trabalho quanto na Justiça Comum, garantindo que a declaração de miserabilidade feita sob as penas da lei seja suficiente para a obtenção da Justiça gratuita.
“A relevante decisão do plenário do TST reafirmou a jurisprudência histórica, tanto na Justiça do Trabalho quanto na Justiça Comum, de que a declaração de miserabilidade, feita sob as penas da lei, é um meio de prova válido para garantir os benefícios da Justiça gratuita, mesmo após as mudanças da CLT promovidas pela reforma trabalhista”, destacou Ramos. Com isso, a decisão elimina a possibilidade de interpretações equivocadas que exigiam mais do que a autodeclaração, retirando obstáculos que poderiam comprometer o acesso à Justiça.
Impacto social e jurídico da decisão
A decisão do TST tem um impacto profundo não apenas na Justiça do Trabalho, mas também no direito constitucional de acesso à Justiça. Ao garantir que a simples declaração de pobreza seja considerada prova suficiente para a concessão do benefício da Justiça gratuita, o tribunal assegura que trabalhadores de baixa renda possam reivindicar seus direitos sem se submeter a exigências que muitas vezes são difíceis de cumprir.
Caso a exigência de provas adicionais prevalecesse, trabalhadores poderiam ser condenados ao pagamento de custas processuais e honorários advocatícios em caso de perda da ação, caso não comprovassem de maneira mais rigorosa sua incapacidade de arcar com essas despesas. Esse cenário poderia ter o efeito de desestimular ações judiciais, especialmente em situações onde o trabalhador se vê em situação de vulnerabilidade, como desemprego ou salários insuficientes para manter o sustento da família.
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Com a decisão do Incidente de Recursos Repetitivos, essa ameaça foi afastada, conforme ressaltou o advogado Mauro Menezes. “Prevaleceu, portanto, a tese que reforça o acesso à Justiça para os trabalhadores brasileiros, especialmente aqueles em situações mais frágeis economicamente.”
Acesso à Justiça para todos

A decisão do TST é um marco na defesa dos direitos trabalhistas, pois reforça o princípio de que o acesso à Justiça é um direito fundamental, garantido pela Constituição Federal. Em tempos de dificuldades econômicas, onde muitos trabalhadores enfrentam instabilidade financeira, essa decisão assegura que o sistema judiciário continua acessível àqueles que mais precisam, sem a imposição de barreiras financeiras que possam prejudicar o exercício desse direito.
A uniformização de entendimentos promovida pelo TST protege trabalhadores que, muitas vezes, têm receio de buscar reparação judicial devido aos custos envolvidos. Com a validação da autodeclaração de pobreza, a Justiça do Trabalho mantém seu papel essencial de garantir o equilíbrio nas relações trabalhistas, proporcionando um ambiente de proteção para os mais vulneráveis.
Conclusão
A decisão do TST sobre o tema 21 do Incidente de Recursos Repetitivos representa uma conquista significativa para o direito do trabalho no Brasil. Ao garantir a validade da declaração de pobreza para a concessão da Justiça gratuita, o tribunal assegura que os trabalhadores brasileiros continuem tendo acesso a seus direitos de forma justa e acessível, reforçando o compromisso da Justiça com a equidade e a proteção social.
Essa decisão não apenas consolida a jurisprudência em favor dos trabalhadores, como também reforça a importância de um sistema judicial que reconheça a realidade econômica de grande parte da população, permitindo que todos tenham a chance de buscar justiça, independentemente de sua situação financeira.
