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Guerra entre iFood e Keeta coloca preço de US$ 300 por hora em conversas estratégicas

iFood diz que funcionários foram abordados por consultorias em busca de informações internas. Keeta nega acusações e disputa chega à Justiça.

Melissa BarbosaPor Melissa Barbosa··9 min de leitura
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A disputa pelo mercado brasileiro de delivery ganhou um novo capítulo após o iFood afirmar que cerca de 100 funcionários foram abordados por consultorias chinesas nas primeiras semanas de agosto. Segundo a empresa, os contatos buscavam informações internas sobre operação, estratégia e negócios.

O episódio amplia uma disputa que já chegou à Justiça e envolve acusações de concorrência desleal, assédio sistemático a funcionários e espionagem empresarial. A Keeta, braço da chinesa Meituan, nega fazer abordagens com essa finalidade e afirma que seus próprios funcionários também recebem solicitações semelhantes de consultorias estrangeiras.

No centro da controvérsia está um valor que chama atenção: em pelo menos uma das abordagens relatadas, a oferta era de US$ 300 por hora para participar de uma conversa. O caso mostra como informações aparentemente simples sobre um mercado podem adquirir valor estratégico em uma disputa pela liderança do setor.

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O que aconteceu na disputa entre iFood e Keeta?

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Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

Segundo o iFood, funcionários da companhia receberam convites, principalmente pelo LinkedIn, para participar de pesquisas sobre o mercado brasileiro de delivery. A empresa afirma que os contatos foram feitos por representantes de consultorias sediadas na China.

A companhia sustenta que algumas dessas conversas ultrapassariam a busca legítima por informações públicas sobre o setor. Entre os dados que teriam sido procurados estariam indicadores financeiros e econômicos, planos de investimento, relacionamento com restaurantes parceiros, modelo logístico, relação com entregadores, formas de financiamento e estratégias comerciais.

O iFood classifica a nova rodada de contatos como uma “quarta onda” de abordagens. De acordo com a empresa, cerca de 353 funcionários teriam sido procurados desde 2025, período que coincide com a chegada da Keeta ao mercado brasileiro.

A Keeta contesta a acusação. Em manifestação ao InfoMoney, a companhia afirmou que não aborda indivíduos com os objetivos descritos pelo iFood e disse que funcionários da própria Keeta são abordados diariamente por consultorias estrangeiras, inclusive europeias.

Por que uma conversa pode valer US$ 300 por hora?

O valor oferecido ajuda a explicar o interesse econômico por informações obtidas diretamente de profissionais que trabalham em uma determinada indústria.

Consultorias especializadas em inteligência de mercado costumam entrevistar profissionais para compreender tendências, modelos de negócio, comportamento de consumidores e características de determinados setores. A atividade, por si só, não é necessariamente irregular.

A fronteira está no tipo de informação fornecida. Dados disponíveis publicamente sobre o mercado de delivery são diferentes de informações internas sobre margens, investimentos, contratos, estratégias comerciais ou planos ainda não divulgados.

Foi justamente essa diferença que o CEO do iFood, Diego Barreto, destacou ao comentar o caso. Segundo ele, a busca de informações por consultorias é uma prática normal, mas existe uma distinção entre conteúdo público e informação confidencial.

Assim, o pagamento não significa, por si só, que houve uma prática ilícita. O ponto central da disputa é saber qual informação foi solicitada, quem a solicitou, com qual finalidade e se houve violação de deveres legais ou contratuais.

O que o iFood acusa a Keeta de fazer?

A ação apresentada pelo iFood em maio acusa a Keeta e sua controladora, a Meituan, de utilizar dezenas de empresas de consultoria, brasileiras e estrangeiras, para tentar obter informações estratégicas da companhia.

Entre as acusações estão concorrência desleal, assédio sistemático de funcionários de uma empresa concorrente e espionagem empresarial.

A empresa brasileira pede que a Justiça reconheça a prática de atos ilícitos e determine que as companhias deixem de abordar funcionários e ex-funcionários do iFood.

O pedido inclui ainda uma multa de R$ 1 milhão.

As acusações, entretanto, ainda são objeto de disputa. Não se trata de uma condenação definitiva contra a Keeta ou a Meituan.

O caso chegou à Justiça dos Estados Unidos

Um dos elementos apresentados pelo iFood na ação teria surgido de uma investigação interna realizada em 2025.

Segundo a petição citada pelo InfoMoney, um executivo de vendas teria participado de conversas remuneradas com uma consultoria chamada China Insights Consultancy e respondido a questionários considerados sensíveis pela empresa.

O iFood então recorreu à Justiça dos Estados Unidos para solicitar a produção de provas junto à plataforma de videoconferências Zoom.

De acordo com os documentos mencionados na reportagem, o procedimento teria identificado cinco reuniões remuneradas nas quais participaram pessoas utilizando endereços de e-mail associados ao domínio da Meituan.

A existência desses registros é parte das evidências apresentadas pelo iFood. A interpretação sobre o que eles demonstram e eventual responsabilidade das empresas continua sendo matéria de discussão judicial.

Onde entra a Lei Geral de Proteção de Dados?

A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), instituída pela Lei nº 13.709/2018, estabelece regras para o tratamento de dados pessoais por empresas e outras organizações.

A legislação determina princípios como finalidade, adequação, necessidade, segurança e transparência. Também estabelece que empresas devem adotar medidas técnicas e administrativas para proteger dados pessoais contra acessos não autorizados e outras formas de tratamento inadequado ou ilícito.

Mas existe uma distinção importante: nem toda informação empresarial confidencial é necessariamente um dado pessoal protegido pela LGPD.

Um plano de expansão, por exemplo, pode ser informação estratégica e sigilosa de uma empresa sem necessariamente ser um dado pessoal. Já informações identificáveis sobre funcionários, clientes, entregadores ou parceiros podem envolver dados pessoais e, dependendo do conteúdo, também estar sujeitas às regras da LGPD.

Por isso, a controvérsia entre iFood e Keeta não se resume à proteção de dados. Ela também envolve questões de concorrência, segredo empresarial, deveres de confidencialidade e eventual utilização indevida de informações estratégicas.

Keeta também afirma ser alvo de abordagens

A disputa não ficou restrita aos funcionários do iFood.

A Keeta afirma que seus próprios funcionários recebem diariamente contatos de consultorias estrangeiras com solicitações semelhantes. A empresa também declarou seguir a LGPD e manter políticas internas relacionadas ao uso de dados.

A companhia ainda citou outro episódio ocorrido após sua chegada ao Brasil.

Segundo a Keeta, a Polícia Civil abriu uma investigação sobre supostos ataques de espionagem contra a empresa em Santos. A companhia afirma que pelo menos oito restaurantes locais teriam sido abordados por indivíduos que se apresentavam como funcionários da Keeta e utilizavam credenciais falsas para tentar obter informações dos estabelecimentos.

Esse episódio é apresentado pela empresa como parte de sua argumentação de que também estaria sendo alvo de tentativas de obtenção de informações.

Por que informações de funcionários são tão valiosas?

Em uma indústria competitiva, funcionários podem conhecer detalhes que não aparecem em relatórios públicos ou apresentações corporativas.

Um profissional que trabalha diretamente com restaurantes, logística ou vendas, por exemplo, pode ter conhecimento sobre processos internos, dificuldades operacionais, estratégias comerciais ou características de determinados mercados.

Isso não significa que o funcionário esteja autorizado a revelar essas informações.

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Contratos de trabalho, políticas internas, acordos de confidencialidade e a própria legislação podem impor limites ao compartilhamento de determinados conteúdos. Além disso, informações estratégicas podem representar vantagem competitiva para uma empresa.

É justamente essa assimetria que torna as chamadas entrevistas de mercado uma área sensível: uma conversa pode começar com perguntas legítimas sobre uma indústria e avançar para informações que não deveriam ser divulgadas.

O que o iFood fez internamente após os episódios?

Segundo Diego Barreto, o iFood modificou algumas práticas internas de comunicação depois dos episódios relatados.

A companhia afirma ter uma comunicação bastante aberta entre suas equipes, mas teria reduzido parte dessa transparência diante da preocupação com a circulação de informações estratégicas.

O CEO afirmou que a principal consequência interna foi a necessidade de mudar a maneira como a empresa compartilha informações com seus cerca de 8 mil funcionários.

A mudança mostra que a disputa também produz efeitos dentro das próprias companhias.

Em vez de afetar apenas departamentos jurídicos ou executivos, casos desse tipo podem levar empresas a revisar políticas de confidencialidade, treinamentos, acesso a documentos e comunicação interna.

O que acontece agora?

O iFood pretende anexar os novos episódios à ação judicial apresentada em maio. A empresa busca uma decisão que reconheça a prática de atos de concorrência desleal e determine que Keeta e Meituan deixem de abordar funcionários e ex-funcionários com esse objetivo.

A Keeta, por sua vez, mantém a negativa e afirma estar comprometida com a concorrência livre e justa. A empresa também diz estar disponível para colaborar com as autoridades quando necessário.

Enquanto a disputa continua, novas evidências poderão ser apresentadas e analisadas pelas autoridades e pela Justiça.

Até que haja uma decisão definitiva, as acusações apresentadas pelas partes devem ser tratadas como alegações, e não como fatos judicialmente comprovados.

O que a disputa revela sobre o mercado de delivery?

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Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

Mais do que uma briga entre duas empresas, o episódio revela o grau de importância que informações estratégicas assumiram na competição por um mercado de grande escala.

A chegada de novos concorrentes pode aumentar a pressão sobre preços, restaurantes, entregadores e consumidores. Ao mesmo tempo, quanto maior a competição, maior tende a ser o valor de informações capazes de revelar como uma operação funciona por dentro.

O caso também mostra por que empresas de tecnologia e plataformas digitais passaram a tratar segurança da informação e confidencialidade como questões diretamente relacionadas à estratégia empresarial.

No fim, a disputa não será definida pelo valor pago por uma entrevista, mas pelo conteúdo das informações buscadas, pela forma como foram obtidas e pelo que as investigações e a Justiça conseguirem comprovar.

Conclusão

A oferta de US$ 300 por hora para conversas com profissionais ajuda a dimensionar o valor atribuído à informação em uma disputa pelo mercado brasileiro de delivery. Segundo o iFood, cerca de 100 funcionários foram abordados nas primeiras semanas de agosto, enquanto 353 teriam recebido contatos desde 2025. A Keeta nega as acusações e afirma que também enfrenta abordagens semelhantes. A disputa já está na Justiça, enquanto outros episódios relatados pelas empresas são investigados separadamente.

Para o leitor, o principal ponto é entender que uma entrevista remunerada com um profissional não constitui automaticamente uma irregularidade. O problema pode surgir quando a conversa envolve informações confidenciais, dados protegidos ou conteúdos obtidos em desacordo com obrigações legais e contratuais. O caso entre iFood e Keeta ainda está em andamento e poderá ganhar novos capítulos à medida que provas sejam produzidas e analisadas.

INFORMAÇÕES ATUALIZADAS 2026:

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