Um levantamento recente realizado pela AtlasIntel em parceria com a Bloomberg revelou um dado curioso e ao mesmo tempo preocupante: 67,2% dos brasileiros já utilizaram ferramentas baseadas em inteligência artificial (IA) de forma intencional, mas 48% afirmam que não entendem como essa tecnologia realmente funciona.
Inteligência artificial no dia a dia: uso cresce mesmo sem entendimento pleno da tecnologia
Descubra por que o uso da inteligência artificial cresce, mesmo sem compreensão total. Leia e entenda os riscos e desafios da tecnologia.
Essa contradição entre uso e compreensão desta tecnologia acende um alerta sobre o papel que essa tecnologia vem desempenhando na sociedade.
Do desbloqueio facial do celular até interações com assistentes virtuais ou ferramentas como o ChatGPT, a IA está cada vez mais presente na rotina das pessoas — ainda que muitas delas não consigam explicar seu funcionamento ou seus riscos.
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Aplicações de IA mais comuns no dia a dia

Assistentes de voz lideram o uso
Entre as aplicações mais utilizadas nos últimos 12 meses, segundo a pesquisa:
- Assistentes de voz (Siri, Alexa, Google Assistente) — 73,7%;
- IA generativa para texto (ChatGPT, Gemini) — 69,8%;
- Ferramentas de tradução (Google Tradutor, DeepL) — 69%;
- Reconhecimento facial (desbloqueio de dispositivos) — 66,6%;
- Aplicativos de navegação (Google Maps, Waze) — 66,2%.
Essas soluções estão inseridas de maneira quase invisível no cotidiano, o que ajuda a explicar a alta taxa de adesão, mesmo diante da baixa compreensão.
IA invisível, mas presente
Boa parte do público pode não associar esses recursos com inteligência artificial. O uso de um mapa, por exemplo, parece simples, mas envolve processamento avançado de dados, aprendizado de máquina e algoritmos preditivos — todos elementos centrais da tecnologia moderna.
Entendimento limitado da tecnologia
Apenas 9,5% dizem entender “muito bem” a tecnologia
Quando questionados sobre o entendimento da IA, os brasileiros responderam:
- Muito bem: 9,5%;
- Bem: 18%;
- Moderadamente: 24,5%;
- Pouco: 35%;
- De forma alguma: 13%.
Ou seja, quase metade da população adulta do país admite saber pouco ou nada sobre o funcionamento da IA, mesmo com o uso frequente.
Falta de entendimento também sobre os riscos
Mesmo com alertas frequentes nas plataformas — como o aviso de que IAs generativas podem “alucinar” ou gerar conteúdos imprecisos —, muitos usuários não compreendem plenamente as limitações e os riscos associados ao uso dessas ferramentas.
Principais preocupações dos brasileiros com a IA
A pesquisa identificou cinco grandes medos em relação à tecnologia:
- Criação e disseminação de fake news: 53% extremamente preocupados;
- Violação da privacidade pessoal: 44%;
- Vigilância governamental: 41%;
- Perda de empregos: 29%;
- Tomada de decisões tendenciosas ou injustas: 29%.
Essa preocupação se intensifica quando o uso da IA se aproxima da esfera pública, especialmente em decisões judiciais ou concessão de benefícios sociais.
Resistência ao uso de IA em serviços públicos
Oposição à automatização de decisões sensíveis
O levantamento mostra que 53,3% dos brasileiros se opõem ao uso de IA em processos de decisão ligados a serviços públicos, como:
- Decisões judiciais;
- Elegibilidade para benefícios sociais;
- Aplicação da lei.
Esse dado evidencia uma desconfiança significativa em relação à imparcialidade e à transparência dos algoritmos. Ainda que a IA possa acelerar decisões, há receio de que ela perpetue injustiças ou erros sistêmicos.
Falta de educação digital amplia o problema
Educação formal ainda ignora o tema
Apesar da crescente presença da IA na sociedade, poucas instituições educacionais no Brasil oferecem formação crítica ou técnica sobre o assunto. O resultado é uma lacuna de conhecimento que contribui para:
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- Uso superficial ou automático de ferramentas;
- Dificuldade em avaliar fontes de informação geradas por IA;
- Baixa percepção de riscos à privacidade e à segurança digital.
Excesso de confiança em respostas da IA
Estudos anteriores já haviam demonstrado que muitas pessoas tratam respostas de IA como verdades absolutas, mesmo quando alertadas sobre a possibilidade de erros. Essa confiança excessiva pode gerar efeitos graves na propagação de desinformação, especialmente quando somada ao baixo letramento digital.
Desafios e caminhos possíveis

Papel do governo
Para especialistas, é fundamental que o governo promova:
- Campanhas de educação midiática e digital;
- Regulamentação ética para uso de IA em serviços públicos;
- Incentivo à transparência nos algoritmos usados por empresas privadas.
Responsabilidade das empresas
Empresas que oferecem produtos baseados em IA também devem ser responsáveis por:
- Explicitar o uso da tecnologia;
- Garantir que seus sistemas sejam auditáveis;
- Oferecer canais de denúncia ou revisão de decisões automatizadas.
Educação como pilar central
Mais do que ensinar a programar ou usar ferramentas de IA, é preciso promover compreensão crítica, com foco em:
- Ética no uso da tecnologia;
- Identificação de vieses algorítmicos;
- Avaliação de confiabilidade de fontes.
Futuro da IA no Brasil depende da alfabetização digital
A inteligência artificial já está profundamente integrada ao cotidiano dos brasileiros. No entanto, seu avanço só será benéfico de forma ampla se vier acompanhado de compreensão, transparência e responsabilidade. Sem isso, corremos o risco de alimentar um uso cego da tecnologia, vulnerável a manipulações, injustiças e desinformação.
Imagem: Freepik
