A cena que antes parecia restrita a jovens e adolescentes, com os olhos fixos na tela do celular, agora se repete com frequência entre pessoas com mais de 60 anos. Estudos recentes revelam uma realidade preocupante: o uso excessivo de redes sociais está atingindo também os idosos, com impactos profundos sobre sua saúde mental, física e emocional.
Vício em redes sociais cresce entre idosos e traz consequências preocupantes
O uso excessivo de redes sociais entre idosos cresce e acende alerta para problemas como ansiedade, insônia, desinformação e vício digital na terceira idade.
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O isolamento como gatilho
O isolamento social durante a pandemia da Covid-19 teve um papel determinante na relação entre os idosos e a tecnologia. Sem poder sair de casa e com o convívio familiar e comunitário reduzido, muitos passaram a usar o celular, o tablet e o computador como janelas para o mundo.
Além de chamadas de vídeo, as redes sociais se tornaram um espaço de sociabilidade e distração. Contudo, o que começou como um alívio para a solidão evoluiu, em muitos casos, para um uso compulsivo e desregulado.
A busca por conexão
Com o tempo, os momentos de navegação em redes como Facebook, Instagram e WhatsApp passaram a ocupar horas do dia. A sensação de pertencimento, o recebimento de curtidas e comentários e a possibilidade de manter contato com parentes e amigos contribuíram para uma crescente dependência digital.
Os impactos do uso excessivo de redes sociais no cérebro do idoso
Efeitos neurológicos e cognitivos
Segundo o médico Antônio Henriques, em entrevista ao quadro Consultório JM, o uso prolongado das redes sociais afeta diretamente a região frontal do cérebro. Essa área é responsável por funções como tomada de decisão, foco, atenção e controle de impulsos — habilidades que naturalmente tendem a se deteriorar com o envelhecimento.
Queixas frequentes em consultórios
Na prática clínica, tem sido comum a presença de idosos relatando:
- Dificuldade para se concentrar
- Perda de memória recente
- Sono irregular ou insônia
- Irritabilidade sem causa aparente
Esses sintomas, muitas vezes confundidos com os da demência, podem ter como origem a exposição contínua às telas, especialmente antes de dormir, o que prejudica a produção natural de melatonina, hormônio regulador do sono.
A nomofobia: medo irracional de ficar sem o celular
O que é nomofobia?
O termo “nomofobia” vem da expressão inglesa no mobile phone phobia — o medo de ficar sem o celular. Embora comum entre adolescentes e adultos jovens, essa fobia tem ganhado terreno entre os idosos.
Sintomas da nomofobia em idosos
Os sintomas mais comuns incluem:
- Ansiedade extrema quando o celular está longe
- Suor excessivo
- Tremores
- Irritação e sensação de pânico
Em alguns casos, os idosos preferem não sair de casa para não se afastar do carregador ou do sinal de internet, o que aprofunda ainda mais o isolamento.
A desinformação e os riscos da vulnerabilidade digital

Fake news entre usuários acima de 65 anos
Um estudo das universidades de Princeton e Nova York, publicado na revista Science Advances, revelou um dado alarmante: usuários do Facebook com mais de 65 anos compartilham quase sete vezes mais notícias falsas do que os mais jovens.
Falta de letramento digital
Essa tendência é explicada, em parte, pela baixa familiaridade com as ferramentas tecnológicas. Muitos idosos não conseguem diferenciar conteúdos verificados de informações manipuladas, e confiam cegamente em mensagens recebidas em grupos de WhatsApp, Telegram ou perfis informais no Instagram e Facebook.
Consequências sociais e políticas
A propagação de fake news pode ter efeitos devastadores, desde a adesão a tratamentos ineficazes até a crença em teorias da conspiração. Em períodos eleitorais, a desinformação atinge níveis ainda mais preocupantes, influenciando decisões políticas e polarizando opiniões.
Quando o vício digital passa despercebido
Aposentadoria como fator invisível
Ao contrário de outras faixas etárias, os idosos geralmente estão fora do mercado de trabalho. Isso significa que o vício digital não interfere diretamente no desempenho profissional, um dos sinais mais perceptíveis entre jovens adultos.
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+311 mil seguidores
Falta de atenção familiar
Além disso, familiares podem interpretar o uso frequente das redes como algo positivo — uma maneira de manter os idosos “ocupados” ou “antenados”. Poucos se dão conta de que esse comportamento pode esconder um quadro de dependência e sofrimento psíquico.
O que pode ser feito? Caminhos para o uso saudável das redes
Intervenção familiar e afetiva
A primeira medida é o diálogo aberto e empático entre familiares e idosos. Em vez de proibir ou criticar o uso das redes, o ideal é propor alternativas: passeios ao ar livre, jogos de memória, oficinas culturais, leitura de livros impressos e, principalmente, presença afetiva.
Acompanhamento médico e psicológico
Caso o uso esteja afetando o sono, o humor ou a cognição, é fundamental procurar ajuda profissional. Médicos geriátricos, neurologistas e psicólogos estão preparados para identificar sintomas e propor tratamentos adequados, que podem incluir desde mudanças na rotina até terapias específicas.
Educação digital para a terceira idade
Oficinas de letramento digital são ferramentas valiosas para reduzir a vulnerabilidade a fake news. Ao ensinar a identificar fontes confiáveis, checar informações e usar as redes com mais autonomia, essas iniciativas fortalecem a cidadania digital dos idosos.
O papel do Estado e da sociedade civil

Políticas públicas para envelhecimento saudável
É urgente que o poder público desenvolva políticas de inclusão digital voltadas para a terceira idade, aliando tecnologia à promoção da saúde mental. Programas de convivência, centros de apoio e campanhas educativas podem fazer a diferença.
Responsabilidade das plataformas
Redes sociais como Facebook, WhatsApp e Instagram também têm responsabilidade nesse cenário. Recursos como alertas de tempo de uso, verificação de notícias e ferramentas de denúncia devem ser ampliados e adaptados às necessidades do público idoso.
Conclusão: uma nova fronteira de cuidado
O vício digital entre idosos ainda é um tema subestimado, mas a realidade dos consultórios, os estudos acadêmicos e os relatos familiares apontam para uma tendência clara e preocupante. O uso de redes sociais pode, sim, trazer benefícios à terceira idade — desde que feito com equilíbrio, orientação e consciência.
Ao reconhecer o problema, abrir espaços de escuta e investir em estratégias de educação e acolhimento, é possível transformar a relação dos idosos com a tecnologia em algo mais saudável, humano e sustentável.
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