A Vale está avaliando oportunidades em terras-raras e lítio, dois grupos de minerais que ganharam importância mundial com a transição energética e a disputa por cadeias de suprimentos estratégicas. Por enquanto, porém, a mineradora brasileira não tomou decisão de investimento nesses segmentos.
A prioridade continua concentrada em três negócios nos quais a companhia considera possuir escala, conhecimento e vantagens competitivas: minério de ferro, cobre e níquel.
A estratégia foi detalhada pelo presidente da Vale, Gustavo Pimenta, durante a Exposibram 2026, realizada entre 24 e 27 de agosto, em Belo Horizonte. A edição deste ano colocou minerais críticos, geopolítica e competitividade brasileira entre seus principais temas.
Dentro dos negócios atuais, o cobre aparece como uma das maiores oportunidades de crescimento. A Vale trabalha atualmente com uma projeção de produção entre 360 mil e 380 mil toneladas em 2026 e acredita que possui condições para ampliar significativamente sua capacidade nos próximos anos.
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Vale estuda entrada em terras-raras e lítio

A possibilidade de diversificação ganhou destaque após Pimenta ser questionado sobre uma eventual entrada da Vale no mercado de terras-raras.
O executivo confirmou que a empresa acompanha tanto esse segmento quanto o de lítio.
Isso, entretanto, ainda está distante de significar a abertura de uma nova mina ou a aprovação de bilhões de reais em investimentos.
A companhia está estudando essas commodities e analisando se existe uma oportunidade capaz de justificar a entrada em novos mercados. Segundo Pimenta, ainda não foi tomada decisão de investimento em terras-raras ou lítio.
A postura demonstra que a Vale não pretende entrar em novos minerais apenas porque eles ganharam relevância internacional.
O que a Vale considera antes de entrar em um novo mineral?
A mineradora utiliza critérios financeiros e estratégicos para avaliar uma eventual diversificação.
Entre os pontos destacados pela administração estão a possibilidade de alcançar escala, construir vantagem competitiva, utilizar competências técnicas da companhia e gerar retorno adequado para os investidores.
Isso significa que possuir uma reserva mineral promissora não é suficiente.
A Vale precisa avaliar se consegue desenvolver uma operação competitiva durante vários anos, incluindo custos de extração, processamento, infraestrutura, logística e demanda futura.
A disciplina na alocação de capital continua sendo apresentada pela administração como um dos pilares para novas decisões.
Por que as terras-raras se tornaram tão importantes?
O interesse da Vale ocorre em um momento de crescente disputa internacional pelos chamados minerais críticos.
As terras-raras formam um conjunto de elementos utilizados em diferentes tecnologias de alta complexidade.
Suas aplicações incluem motores elétricos, ímãs permanentes, equipamentos eletrônicos, turbinas eólicas e diferentes tecnologias industriais.
Por isso, o tema ultrapassou os limites tradicionais do setor de mineração.
Governos passaram a enxergar o fornecimento desses minerais como uma questão econômica, tecnológica e geopolítica.
A própria Exposibram 2026 colocou terras-raras, lítio, cobre, níquel e grafite entre os minerais considerados fundamentais para transição energética, eletrificação e segurança das cadeias de abastecimento.
Brasil tenta aproveitar espaço no mercado de minerais críticos
A discussão interessa especialmente ao Brasil devido à diversidade de seus recursos minerais.
Durante a Exposibram, Gustavo Pimenta defendeu que o país acelere o desenvolvimento de projetos e amplie o conhecimento sobre seu potencial geológico.
Segundo o executivo, o Brasil pode se posicionar como fornecedor para diferentes mercados em um cenário internacional cada vez mais fragmentado.
Para isso, seriam necessárias melhorias em áreas como pesquisa mineral, licenciamento, integração das cadeias produtivas e segurança institucional.
O estudo apresentado pelo presidente da Vale foi elaborado em parceria com a Accenture ao longo de aproximadamente um ano e resultou em quatro agendas prioritárias e 15 iniciativas para o setor mineral brasileiro.
Lítio também está no radar da mineradora
Outro mineral citado pela Vale é o lítio.
Sua importância aumentou principalmente devido ao crescimento das baterias recarregáveis usadas em veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia.
O Brasil já possui projetos de lítio em desenvolvimento e operação, especialmente em Minas Gerais.
Para a Vale, entretanto, acompanhar esse mercado não significa que uma entrada esteja decidida.
A administração terá de concluir que existe uma oportunidade compatível com a dimensão e a estratégia da companhia antes de comprometer capital.
Assim, terras-raras e lítio devem ser entendidos atualmente como mercados em avaliação, e não como novas áreas de negócio confirmadas.
Cobre já é uma aposta concreta da Vale
Enquanto terras-raras e lítio permanecem no campo dos estudos, o cobre está em uma situação completamente diferente.
Ele já integra o portfólio da companhia e vem ganhando importância nos resultados.
A Vale encerrou o segundo trimestre de 2026 com 98,4 mil toneladas de cobre produzidas, avanço de 6% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Foi o melhor resultado da empresa para um segundo trimestre desde 2017.
As vendas de cobre pagável chegaram a 97,6 mil toneladas no período.
Além do crescimento dos volumes, os preços favoreceram o desempenho financeiro.
Preço realizado do cobre superou US$ 14 mil por tonelada
No segundo trimestre, o preço médio realizado do cobre pela Vale alcançou US$ 14.062 por tonelada.
O valor ficou 7% acima do primeiro trimestre e 57% superior ao observado um ano antes.
Essa combinação de preços mais elevados e maior produção ajuda a explicar por que o metal ganhou tanta relevância para a estratégia da companhia.
No primeiro trimestre, a divisão de metais básicos, que inclui cobre e níquel, já havia dobrado seu EBITDA na comparação anual, passando de US$ 600 milhões para US$ 1,2 bilhão.
O desempenho fortalece a intenção da mineradora de aumentar a exposição ao segmento.
Vale acredita que pode dobrar capacidade de cobre
A ambição é considerável.
Pimenta afirmou durante a Exposibram que a companhia acredita possuir condições de dobrar sua capacidade de cobre, com participação importante dos ativos brasileiros nessa expansão.
O patamar atual ajuda a dimensionar o objetivo.
A orientação oficial da Vale para 2026 está entre 360 mil e 380 mil toneladas de cobre. Depois do bom desempenho do primeiro semestre, a empresa estreitou sua faixa de projeção para esse intervalo.
Dobrar a capacidade colocaria o cobre em uma posição ainda mais relevante dentro do portfólio da mineradora.
Isso, entretanto, deve acontecer de maneira gradual e dependerá da execução dos projetos.
Brasil terá papel importante nessa expansão
Uma parcela relevante do crescimento deverá vir das operações brasileiras.
No segundo trimestre, por exemplo, a Vale registrou produção recorde para o período em Salobo, no Pará.
Sossego também contribuiu para o aumento dos volumes.
Os dois ativos fazem parte da estratégia da companhia para metais básicos no país.
A expansão é particularmente relevante porque permite à Vale utilizar infraestrutura, conhecimento geológico e operações que já fazem parte de seu portfólio.
Projeto Bacaba reforçará produção de cobre
Entre os projetos em andamento está Bacaba, ligado ao Complexo de Sossego.
A Vale informou que as obras estavam com 39% de avanço físico ao final do segundo trimestre de 2026, acima do cronograma previsto.
O início das operações foi antecipado para o terceiro trimestre de 2027.
O projeto foi concebido para prolongar a vida útil do complexo e acrescentar aproximadamente 50 mil toneladas anuais de cobre durante cerca de oito anos de operação.
O investimento planejado é de aproximadamente US$ 290 milhões.
É um exemplo de como a companhia pretende aumentar a produção utilizando sua atual presença no mercado.
Por que o cobre se tornou estratégico?
A procura pelo metal está diretamente relacionada às transformações da economia global.
O cobre possui elevada condutividade elétrica e é amplamente utilizado em redes de transmissão, equipamentos industriais, construção, veículos elétricos e infraestrutura energética.
A expansão de data centers, sistemas elétricos e fontes renováveis também aumenta a necessidade de infraestrutura intensiva no metal.
Ao contrário de terras-raras e lítio, a Vale já possui operações, conhecimento técnico e escala relevante no cobre.
Isso torna a expansão desse negócio uma opção menos distante do que começar uma nova cadeia mineral praticamente do zero.
Níquel permanece entre os três pilares
O terceiro componente da estratégia é o níquel.
Assim como o cobre, o metal integra a divisão de metais básicos da companhia.
A Vale prevê produção entre 185 mil e 200 mil toneladas de níquel em 2026, após revisar sua orientação diante do desempenho operacional do primeiro semestre.
No segundo trimestre, a produção chegou a 42 mil toneladas, alta de 4% na comparação anual e melhor desempenho para um segundo trimestre desde 2020.
O níquel possui aplicações tradicionais na produção de aço inoxidável e também ganhou relevância com determinados tipos de baterias.
Minério de ferro continuará sendo o coração da Vale
O crescimento dos metais básicos não significa abandono do principal negócio da companhia.
Pimenta reforçou que o minério de ferro continuará no centro da estratégia da Vale.
Os números mostram a dimensão desse negócio.
Somente no segundo trimestre de 2026, a empresa produziu 84,3 milhões de toneladas de minério de ferro, o melhor resultado para um segundo trimestre desde 2018.
As vendas alcançaram 79,7 milhões de toneladas no período.
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Portanto, mesmo que o cobre aumente significativamente sua participação nos resultados, a diferença de escala entre os negócios permanece elevada.
Vale também está ampliando capacidade no minério de ferro
A companhia mantém investimentos importantes no segmento.
O projeto Serra Sul +20 iniciou operação em julho de 2026 com o comissionamento do segundo sistema de correias transportadoras de longa distância.
Quando estiver completamente desenvolvido, o projeto, combinado ao Britador de Compactos, deverá adicionar 20 milhões de toneladas por ano de capacidade ao complexo.
Isso mostra que a estratégia não consiste em substituir minério de ferro por cobre.
A intenção é crescer em ambos, diversificando gradualmente a geração de resultados.
Estratégia busca reduzir dependência de uma única commodity
Historicamente, o desempenho da Vale possui forte relação com o minério de ferro.
Quando o preço internacional do produto sobe, os resultados podem melhorar significativamente. Quando cai, a companhia fica mais exposta à deterioração das margens.
Expandir cobre e níquel cria uma fonte adicional de receitas.
Além disso, os ciclos de demanda desses minerais não são necessariamente idênticos aos do minério de ferro.
Essa diversificação pode se tornar especialmente relevante diante das mudanças esperadas na economia chinesa e da expansão dos investimentos globais em eletrificação.
Terras-raras podem representar uma diversificação ainda maior
Uma eventual entrada da Vale em terras-raras levaria essa estratégia para outra etapa.
A empresa passaria a disputar um mercado fortemente associado à tecnologia e às políticas de segurança de suprimento adotadas por grandes economias.
Mas esse também é um segmento complexo.
Não basta extrair minério. O processamento e a separação dos diferentes elementos de terras-raras representam etapas técnicas fundamentais da cadeia.
Por isso, a existência de recursos minerais não garante automaticamente competitividade industrial.
Essa é uma das razões pelas quais a Vale insiste que qualquer novo investimento precisará demonstrar escala, vantagem competitiva e retorno.
Minerais críticos viraram tema geopolítico

A movimentação das mineradoras acontece em um cenário de crescente interesse governamental.
Países procuram reduzir sua dependência de fornecedores concentrados e construir cadeias mais diversificadas para matérias-primas essenciais.
A Exposibram dedicou parte relevante de sua programação de 2026 justamente a essa discussão.
O evento destacou que cobre, lítio, terras-raras, níquel e grafite são considerados estratégicos para eletrificação, desenvolvimento tecnológico, transição energética e segurança das cadeias produtivas.
Também foi realizado um encontro de investidores focado especificamente em projetos brasileiros relacionados a minerais críticos.
Vale vê oportunidade para o Brasil ganhar espaço
Na avaliação de Gustavo Pimenta, o país possui recursos e capacidade para ocupar posição mais relevante no mercado mineral mundial.
Mas o potencial geológico sozinho não resolve o problema.
A companhia defende mais pesquisa mineral, maior previsibilidade para investimentos, avanço no licenciamento e integração das cadeias produtivas.
A Agência Nacional de Mineração também colocou a atração de investimentos, a regulação e os minerais estratégicos entre os principais debates da Exposibram deste ano.
O desafio brasileiro é transformar reservas conhecidas ou potenciais em projetos economicamente competitivos.
Vale vai investir em lítio e terras-raras?
Ainda não há essa decisão.
Esse é o principal cuidado ao interpretar as declarações da companhia.
A Vale confirmou que avalia oportunidades nesses mercados, mas não anunciou aquisição, projeto de mineração ou orçamento de investimento para entrar em lítio ou terras-raras.
Hoje, a estratégia concreta continua baseada em minério de ferro, cobre e níquel.
Entre esses três, o cobre aparece como uma das principais avenidas de crescimento.
O que esperar da Vale nos próximos anos
A estratégia desenhada pela companhia combina continuidade e diversificação.
O minério de ferro continuará sendo o negócio de maior escala. Cobre e níquel devem ampliar sua contribuição, com novos projetos e melhorias nas operações existentes.
Terras-raras e lítio permanecem no radar como possibilidades de longo prazo.
A Vale só pretende avançar caso identifique negócios capazes de combinar escala, conhecimento técnico, vantagem competitiva e retorno adequado ao capital empregado.
No curto e médio prazo, portanto, o movimento mais concreto está no cobre. A companhia já produz centenas de milhares de toneladas por ano, desenvolve projetos no Brasil e acredita que existe espaço para dobrar sua capacidade.
As terras-raras e o lítio representam uma possibilidade adicional — relevante diante da corrida mundial por minerais críticos, mas que, por enquanto, permanece em fase de estudo.



