O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou nesta quarta-feira (26) uma proclamação que amplia temporariamente a importação de determinados tipos de carne bovina com imposto menor. A medida começa a valer em 1º de setembro e terá duração de 90 dias, em uma tentativa do governo americano de aumentar a oferta e conter a alta dos preços para os consumidores.
A nova cota é destinada a carnes bovinas consideradas magras, utilizadas principalmente na produção de carne moída e na preparação de hambúrgueres. A mudança também pode abrir uma oportunidade para o Brasil, que já é um dos principais fornecedores de carne bovina para o mercado americano.
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O que Trump decidiu sobre a carne bovina?

A medida assinada por Trump amplia temporariamente a quantidade de carne bovina magra que poderá entrar nos Estados Unidos dentro de uma faixa tarifária mais favorável. Ao todo, serão permitidas 300 mil toneladas métricas adicionais, distribuídas em três períodos de 100 mil toneladas.
A primeira parcela começa em 1º de setembro. As etapas seguintes serão disponibilizadas posteriormente, dentro do período de validade da proclamação, que poderá durar até 90 dias ou terminar antes caso o volume seja totalmente utilizado.
A decisão não representa uma redução generalizada das tarifas para todos os tipos de carne bovina. O benefício está concentrado nas chamadas aparas magras, matéria-prima utilizada pela indústria americana para produzir carne moída.
Por que os Estados Unidos precisam importar mais carne?
Os Estados Unidos enfrentam uma combinação de oferta limitada e demanda elevada. O rebanho bovino americano chegou ao menor nível em décadas, enquanto o consumo de carne continua pressionando a cadeia produtiva.
Segundo dados do Bureau of Labor Statistics, o preço de uma libra de carne moída chegou a US$ 6,82 em junho de 2026. Uma libra corresponde a aproximadamente 453,6 gramas, e o valor representa uma alta de cerca de 79% em relação ao início de 2019.
A situação também foi afetada pela redução das importações de gado mexicano. Em 2025, os Estados Unidos suspenderam grande parte da entrada de animais do México por preocupações relacionadas à disseminação da bicheira-do-Novo-Mundo, uma praga que atinge o gado.
Com menos animais disponíveis e uma demanda ainda firme, frigoríficos e consumidores passaram a enfrentar um mercado mais apertado. A importação aparece, portanto, como uma alternativa de curto prazo enquanto os produtores americanos tentam recuperar seus rebanhos.
Carne pode ficar 25% mais barata nos EUA?
A Casa Branca afirma que a medida busca reduzir os custos da carne, mas isso não significa que o consumidor encontrará carne moída 25% mais barata nos supermercados.
A administração Trump determinou que os produtos importados dentro da nova cota sejam acompanhados para verificar se estão sendo comercializados com preços 25% inferiores aos valores de mercado das aparas magras. Caso as condições estabelecidas não sejam cumpridas, o governo poderá interromper a quantidade adicional que ainda não tiver sido utilizada.
O preço final pago pelo consumidor depende de várias outras etapas. Processamento, transporte, distribuição, margens dos frigoríficos e supermercados e custos operacionais também entram na formação do valor cobrado pela carne.
Por isso, o efeito mais provável da medida é aumentar a oferta e ajudar a limitar a pressão sobre os preços. Uma queda de exatamente 25% no preço da carne moída, porém, não está garantida.
Brasil pode se beneficiar da nova medida?
Sim. O Brasil está entre os países que poderão se beneficiar da ampliação da cota americana. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) informou que os exportadores brasileiros serão contemplados pela medida, embora não sejam os únicos fornecedores que poderão disputar o espaço adicional.
A oportunidade é relevante porque o Brasil já possui uma presença significativa no mercado americano. Com uma quantidade maior de carne podendo entrar em condições tarifárias mais favoráveis, os frigoríficos brasileiros podem ganhar competitividade diante de outros fornecedores internacionais.
O impacto, entretanto, dependerá da capacidade das empresas brasileiras de ocupar parte do volume disponível. Também será necessário considerar preços, logística, disponibilidade de produto e cumprimento das exigências sanitárias americanas.
Como funciona a cota de carne brasileira nos Estados Unidos?
Atualmente, o Brasil participa de uma cota compartilhada com outros fornecedores de carne bovina dos Estados Unidos. Esse volume costuma ser preenchido rapidamente ao longo do ano.
Depois que a quantidade disponível dentro da cota é esgotada, a carne brasileira ainda pode ser exportada para o mercado americano, mas fica sujeita a uma tarifa adicional. Segundo as informações apresentadas pela indústria brasileira, essa cobrança extra é de 26,4%.
A ampliação anunciada por Trump cria, portanto, uma janela adicional para os exportadores brasileiros. Durante o período de validade da nova regra, parte da carne poderá acessar o mercado americano em condições mais competitivas.
Quanto o Brasil já exporta para os Estados Unidos?
Os Estados Unidos são atualmente um dos principais destinos da carne bovina brasileira. De janeiro a julho de 2026, o Brasil exportou 233,8 mil toneladas de carne bovina para o mercado americano, segundo dados da Abiec apresentados nas informações sobre a medida.
A receita chegou a aproximadamente US$ 1,54 bilhão, com crescimento em relação ao mesmo período do ano anterior. O país também conta com dezenas de estabelecimentos frigoríficos habilitados a realizar exportações para os Estados Unidos.
Esse histórico facilita o aproveitamento da nova oportunidade, já que parte da estrutura necessária para atender ao mercado americano já está estabelecida. Ainda assim, a nova cota não garante que todo o volume adicional será destinado ao Brasil.
A medida pode aumentar as exportações brasileiras?
A tendência é de que a mudança crie condições mais favoráveis para novos embarques, principalmente de produtos que atendam ao perfil procurado pela indústria americana.
A carne magra tem uma função específica no mercado dos Estados Unidos. Ela é utilizada na composição da carne moída, o que torna esse tipo de produto especialmente relevante em um momento de alta dos preços dos hambúrgueres e de outros alimentos à base de carne moída.
Para os frigoríficos brasileiros, a oportunidade estará em oferecer o produto dentro das condições exigidas e disputar espaço com outros países exportadores. O aumento efetivo das vendas dependerá, portanto, da resposta do mercado.
A nova oportunidade substitui o mercado chinês?
Não. A China continua sendo um dos principais destinos da carne bovina brasileira e possui uma demanda diferente da observada nos Estados Unidos.
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes avalia que a abertura americana não deve ser tratada como substituição do mercado chinês. Os dois países compram produtos com características e perfis distintos, além de possuírem diferentes regras de comércio.
Ainda assim, a ampliação das oportunidades nos Estados Unidos pode ajudar o Brasil a diversificar seus destinos de exportação. Isso ganha importância em períodos de incerteza comercial ou de mudanças nas condições de acesso a determinados mercados.
O que acontece com as exportações brasileiras para a China?
O mercado chinês continua tendo grande peso na balança comercial do setor, mas os embarques brasileiros passaram por oscilações recentes.
Em agosto, as exportações de carne bovina registraram queda no balanço parcial do mês, segundo dados divulgados pelo setor, em meio às preocupações relacionadas às condições de comércio com a China e ao preenchimento de cotas.
Nesse contexto, a ampliação temporária da cota americana aparece como uma alternativa adicional para os frigoríficos. Ela não elimina a importância da China, mas pode reduzir a concentração das vendas brasileiras em poucos grandes mercados.
Pecuaristas americanos são contra a importação?
Parte dos produtores americanos se posicionou contra a ampliação das importações. A principal preocupação é que a entrada de carne estrangeira aumente a oferta disponível e pressione os preços recebidos pelos pecuaristas locais.
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O argumento ganha força porque os produtores americanos precisam de melhores condições econômicas para reconstruir o rebanho. Se a concorrência com produtos importados reduzir excessivamente os preços, pode haver menos incentivo para ampliar a produção doméstica.
O governo Trump, por outro lado, prioriza neste momento o aumento da oferta para o consumidor. A discussão mostra o conflito entre dois objetivos: manter a renda dos produtores americanos e reduzir o preço da carne para as famílias.
Trump também quer rever regras dos frigoríficos
A discussão sobre o preço da carne nos Estados Unidos não ficou limitada às importações. Nesta quarta-feira (26), Trump afirmou que pretende analisar se existem regulamentações excessivas nas fábricas de processamento de carne bovina.
A declaração ocorreu durante uma participação no programa de Glenn Beck, depois que o apresentador sugeriu que regras menos rígidas poderiam permitir que agricultores e pecuaristas realizassem seus próprios abates.
Trump também havia solicitado uma investigação sobre os quatro maiores frigoríficos que atuam no mercado americano: JBS, National Beef, Cargill e Tyson Foods. O presidente acusou as empresas de contribuir para o encarecimento da carne por meio de práticas que classificou como conluio ilícito.
A decisão de Trump pode afetar o preço da carne no Brasil?
O efeito sobre o consumidor brasileiro não é automático. Se os Estados Unidos aumentarem significativamente suas compras de carne brasileira, a demanda externa poderá crescer e, dependendo das condições do mercado, exercer pressão sobre a oferta disponível internamente.
Por outro lado, os preços da carne no Brasil são determinados por diversos fatores. Produção de bovinos, oferta de animais para abate, consumo doméstico, câmbio, custos de produção e demanda de outros países também influenciam os valores.
Por isso, não é possível afirmar que a decisão americana fará a carne subir ou cair imediatamente no Brasil. O impacto dependerá principalmente da intensidade do aumento das exportações e das condições do mercado brasileiro nos próximos meses.
Quando a nova regra começa a valer?
A primeira etapa da ampliação da cota começa em 1º de setembro de 2026. Nesse período, até 100 mil toneladas métricas poderão entrar nos Estados Unidos dentro da quantidade adicional estabelecida pelo governo.
Outras parcelas serão disponibilizadas posteriormente, respeitando o cronograma definido pela proclamação. A medida terá duração máxima de 90 dias, mas poderá ser encerrada antes caso os volumes disponíveis sejam totalmente utilizados ou as condições determinadas pelo governo não sejam cumpridas.
A partir de setembro, o mercado deverá mostrar quanto desse espaço será efetivamente ocupado pelos diferentes países exportadores. Para o Brasil, esse será o principal indicador de quanto a decisão de Trump poderá representar em novas vendas.
O que muda para o Brasil na prática?

Na prática, a decisão abre uma oportunidade temporária para os frigoríficos brasileiros ampliarem sua participação no mercado americano. O acesso a uma quantidade adicional com condições tarifárias mais favoráveis pode melhorar a competitividade do produto brasileiro.
O país, porém, terá de disputar esse espaço com outros fornecedores e atender às exigências sanitárias e comerciais dos Estados Unidos. Além disso, a janela é limitada e não representa uma mudança permanente na política de importação americana.
Para o consumidor brasileiro, os efeitos ainda são incertos. Uma expansão das exportações pode aumentar a demanda pela produção nacional, mas o comportamento dos preços dependerá de uma série de outros fatores.
Conclusão
A decisão de Donald Trump busca aumentar a oferta de carne bovina nos Estados Unidos e conter a alta dos preços. A medida, que começa em 1º de setembro, também abre uma oportunidade para o Brasil ampliar suas exportações ao mercado americano.
O impacto, porém, ainda dependerá de quanto da nova cota será aproveitado pelos frigoríficos brasileiros e de como os preços irão reagir nos próximos meses.



