Uma nova denúncia publicada pela CNN Brasil nesta segunda-feira (02) revelou um esquema alarmante envolvendo a venda ilegal de dados pessoais de beneficiários do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).
Empresas estão vendendo listas com dados de aposentados e beneficiários do INSS: entenda!
Listas com dados de beneficiários do INSS são vendidas ilegalmente no Brasil, em violação à LGPD. Reportagem revela valores e compradores.
Informações confidenciais de aposentados e pensionistas estão sendo comercializadas em larga escala por empresas especializadas, violando diretamente a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
As listas comercializadas incluem dados altamente sensíveis, como nome completo, CPF, endereço, valor do benefício, telefone, e-mail, entidade associativa descontada e até contratos de empréstimo consignado ativos.
O caso expõe não apenas a fragilidade na segurança de dados do sistema previdenciário brasileiro, mas também a utilização indevida dessas informações por advogados e escritórios de assessoria jurídica.
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O que está sendo vendido?

Segundo a reportagem, empresas vendem tabelas organizadas com informações detalhadas sobre beneficiários do INSS. Os pacotes de dados incluem:
- Nome completo
- Número do CPF
- Data de nascimento
- Endereço completo
- Nome da mãe
- Telefones fixos e celulares
- Endereço de e-mail
- Valor mensal do benefício
- Data de início do recebimento da aposentadoria ou pensão
- Entidades com descontos ativos
- Parcelas descontadas e datas de adesão
- Margem consignável disponível
- Contratos de empréstimos consignados ativos
Quem compra esses dados?

O principal público-alvo das empresas que comercializam essas listas são advogados, especialmente aqueles que atuam em ações contra descontos indevidos em benefícios previdenciários.
Ao adquirir os dados, eles conseguem localizar potenciais clientes com base em filtros específicos, como presença de descontos associativos ou valores de margem consignável.
Essa prática, porém, é proibida pelo Código de Ética da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), que veta expressamente a captação ativa de clientela. O artigo 39 do código afirma que a publicidade profissional deve ser informativa e discreta, não podendo se configurar como mercantilização da advocacia.
Tabela de preços dos dados
A reportagem revelou os valores cobrados por pacotes com diferentes quantidades de nomes:
- 500 nomes: R$ 150
- 1.000 nomes: R$ 250
- 5.000 nomes: R$ 350
- 10.000 nomes: R$ 450
- Dados de beneficiários de um Estado inteiro: R$ 600
A empresa Nexus Soluções em Assessoria Jurídica
Durante a apuração, a CNN simulou a compra de dados com a empresa Nexus Soluções em Assessoria Jurídica, que ofereceu uma prévia dos arquivos contendo informações reais de aposentados.
Três das pessoas listadas foram contatadas e confirmaram que os dados fornecidos estavam corretos.
Ao ser confrontado sobre a origem das informações, o representante da empresa respondeu:
“Temos uma equipe responsável pela captação e depois apura os dados com um pessoal dentro da previdência.”
A declaração sugere o envolvimento de servidores públicos do próprio INSS ou da Dataprev, empresa estatal responsável pela gestão dos dados previdenciários.
Resposta da empresa
Ao ser questionada oficialmente pela CNN Brasil, a Nexus respondeu de forma evasiva e hostil:
“Nem vou perder meu tempo com quem não tem conhecimento.”
Acesso indevido e violação da LGPD
A LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), em vigor desde setembro de 2020, proíbe o tratamento de dados pessoais sem o consentimento explícito do titular.
A comercialização de informações como CPF, nome da mãe, e-mails e dados financeiros fere diretamente os princípios da legalidade, finalidade e necessidade previstos na legislação.
A infração pode gerar multas de até R$ 50 milhões, além de sanções administrativas, civis e penais. Empresas envolvidas em práticas ilegais também podem ser incluídas em listas negras públicas, o que afeta sua reputação e operação comercial.
Como os dados são vazados?
Embora não haja confirmação oficial, indícios apontam para o envolvimento de funcionários do INSS ou da Dataprev. Essas informações só podem ser acessadas internamente por sistemas restritos, o que indica falhas graves na segurança institucional e possibilidade de corrupção interna.
Possíveis caminhos do vazamento
- Servidores com acesso privilegiado vendendo os dados
- Empresas terceirizadas contratadas pelo INSS com falhas de controle
- Sistemas com vulnerabilidades de segurança cibernética
- Uso de senhas compartilhadas ou dispositivos invadidos
Reação das autoridades
O Ministério da Previdência Social ainda não se pronunciou oficialmente sobre a denúncia, mas a pressão sobre o governo federal deve aumentar. O escândalo ocorre em meio à Operação Sem Desconto, que investiga outra irregularidade grave no INSS: os descontos indevidos por entidades associativas em milhões de benefícios, também alvo de fraudes e venda de dados.
O papel da OAB e os riscos éticos para advogados
Além de ilegal, o uso desses dados por advogados pode levar à punição disciplinar por parte da Ordem dos Advogados do Brasil. A violação da ética profissional inclui:
- Captação de clientela por meios ilegais
- Utilização de dados obtidos sem consentimento
- Oferecimento de serviços jurídicos com base em informações vazadas
A OAB pode aplicar penalidades como advertência, suspensão e até exclusão do quadro da Ordem.
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Quais os riscos para os aposentados?
A exposição de dados sensíveis de aposentados e pensionistas representa grave risco à segurança pessoal e financeira dos beneficiários. Os principais problemas incluem:
- Aplicação de golpes personalizados por telefone, SMS e e-mail
- Falsos contratos de crédito com assinatura digital forjada
- Roubo de identidade para abertura de contas bancárias
- Utilização indevida da margem consignável
- Fraudes em nome dos idosos com prejuízos irreparáveis
Como se proteger?

Diante desse cenário, é importante que os beneficiários do INSS adotem medidas preventivas:
1. Evite fornecer dados por telefone
Desconfie de qualquer ligação que solicite CPF, número do benefício ou senhas.
2. Verifique com frequência o extrato do INSS
No site ou app Meu INSS, é possível conferir descontos, empréstimos e dados cadastrais.
3. Solicite o bloqueio de descontos não autorizados
Em casos de desconto indevido, entre em contato com o INSS pelo 135 ou pelo portal gov.br.
4. Atualize seus dados e bloqueie empréstimos
É possível bloquear a contratação de consignado diretamente pelo Meu INSS.
5. Registre boletim de ocorrência
Caso identifique uso indevido dos dados, registre imediatamente um B.O. na delegacia ou pela internet.
Considerações finais
A venda de listas com dados de beneficiários do INSS por empresas como a Nexus Soluções expõe uma falha sistêmica na proteção de informações públicas sensíveis. A reportagem da CNN Brasil levanta sérias preocupações sobre a vulnerabilidade dos dados de milhões de aposentados e a forma como esses dados estão sendo explorados por interesses comerciais.
Além de colocar em risco a integridade financeira e emocional dos idosos, a prática representa violação direta à LGPD e exige resposta firme das autoridades, incluindo o INSS, a Dataprev, o Ministério da Justiça e a própria OAB.
O escândalo reforça a necessidade de uma investigação profunda, punição exemplar aos responsáveis e uma reformulação urgente nos sistemas de segurança de dados da Previdência Social brasileira.
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