Documentos da Polícia Federal (PF) apontam um padrão de viagens internacionais envolvendo o lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, e o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
Rastro em Madri e Lisboa: PF identifica viagens coincidentes de Lulinha e Careca do INSS hoje
PF identifica viagens simultâneas de Careca do INSS e Lulinha durante investigação sobre fraude no INSS.
De acordo com os registros analisados pelos investigadores, os dois viajaram para Lisboa e Madri em períodos coincidentes pelo menos três vezes em 2024. As viagens ocorreram durante o período em que se intensificaram as investigações sobre fraudes relacionadas ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Segundo os documentos, os deslocamentos foram feitos em voos de primeira classe ou em assentos localizados nas primeiras fileiras da aeronave, com datas de ida e volta próximas ou sobrepostas.
Além deles, a empresária Roberta Luchsinger também aparece nos registros de duas das viagens. Investigadores apontam que ela atuaria como intermediária entre o lobista e o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
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As três viagens que chamaram atenção da investigação
A análise da PF identifica três deslocamentos internacionais considerados relevantes pelos investigadores.
Lisboa em junho de 2024
A primeira viagem ocorreu em junho de 2024.
Lulinha e Roberta Luchsinger partiram do Aeroporto Internacional de Guarulhos em direção a Lisboa no dia 13 de junho. Apesar de não estarem sentados lado a lado, os dois viajaram na mesma fileira do avião.
O Careca do INSS embarcou para o mesmo destino quatro dias depois, também saindo de Guarulhos.
Os períodos registrados foram:
- Lulinha e Roberta: 13 a 18 de junho
- Careca do INSS: 17 a 21 de junho
A coincidência temporal e a proximidade nos voos são elementos considerados pela investigação como indícios de possível coordenação.
Madri em setembro de 2024
A segunda viagem ocorreu em setembro de 2024, com destino à capital espanhola.
O Careca do INSS deixou o Brasil em 12 de setembro. No dia seguinte, Lulinha e Roberta embarcaram para o mesmo destino.
Os retornos ao Brasil ocorreram em datas diferentes, mas dentro do mesmo período de permanência na cidade.
Períodos de estadia:
- Careca do INSS: 12 a 20 de setembro
- Lulinha: 13 a 22 de setembro
- Roberta: 13 a 29 de setembro
Posteriormente, Lulinha passou a residir em Madri a partir de 2025.
Lisboa em novembro de 2024
A terceira viagem ocorreu novamente para Lisboa, em novembro.
Dessa vez, Lulinha e o Careca do INSS viajaram no mesmo voo, partindo de Guarulhos em 8 de novembro.
Os investigadores destacaram outro detalhe: as passagens foram compradas com apenas quatro minutos de diferença, ambas adquiridas com 21 dias de antecedência.
Segundo relatório da PF:
- passagem de Antonio Antunes: comprada às 14h37
- passagem de Fábio Luís: comprada às 14h41
Embora os bilhetes não tenham sido emitidos sob o mesmo código de reserva, os investigadores apontam que a proximidade temporal reforça indícios de vínculo logístico entre as viagens.
Possível relação com negócios de cannabis medicinal
A investigação também analisa uma possível relação das viagens com negócios no setor de cannabis medicinal, que tem crescido globalmente.
De acordo com depoimento de um ex-funcionário do lobista à Polícia Federal, o Careca do INSS e Lulinha teriam viajado para tratar de oportunidades nesse mercado.
O ex-funcionário afirmou que Antunes tinha interesse em expandir atividades ligadas à empresa World Cannabis, que atuaria no segmento.
Portugal é considerado um dos polos europeus de produção e pesquisa de cannabis medicinal, com legislação específica para cultivo e exportação para fins farmacêuticos.
Transferências financeiras também são investigadas
Outro ponto citado no relatório da PF envolve movimentações financeiras entre os investigados.
Os investigadores identificaram que Antonio Camilo teria transferido cerca de R$ 1,5 milhão para Roberta Luchsinger.
Em uma das transações, segundo análise da PF, o lobista mencionou que o dinheiro seria destinado ao “filho do rapaz”, expressão que os investigadores consideram possivelmente relacionada a Lulinha.
Além disso, registros apontam que uma agência de viagens que recebeu mais de R$ 640 mil de uma empresa ligada a Roberta aparece associada a dados cadastrais utilizados por Lulinha em trechos internacionais.
Operação Sem Desconto e o escândalo no INSS
Os três personagens citados aparecem na Operação Sem Desconto, que investiga irregularidades em descontos aplicados a aposentadorias e pensões.
A apuração envolve suspeitas de que valores teriam sido descontados de beneficiários do INSS sem autorização.
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Segundo investigadores, o Careca do INSS seria o principal articulador do esquema.
A Polícia Federal também analisa possíveis tentativas de lobby dentro do Ministério da Saúde, envolvendo interesses empresariais ligados à tecnologia e ao mercado de cannabis medicinal.
Defesa de Lulinha nega envolvimento
A defesa de Fábio Luís Lula da Silva afirma que o empresário não tem relação com as irregularidades investigadas.
O advogado Guilherme Suguimori declarou que Lulinha não é sócio oculto de Antonio Antunes e nunca recebeu valores do lobista.
Em manifestações anteriores, o empresário também afirmou desconhecer episódios citados pela investigação, incluindo o envio de medicamentos para um apartamento em São Paulo.
Até o momento, não houve manifestação pública adicional sobre os registros de viagem apontados pela Polícia Federal.
O que acontece agora na investigação
As informações sobre as viagens fazem parte do conjunto de evidências analisadas pela Polícia Federal no inquérito.
Em investigações desse tipo, dados como:
- registros de voos
- movimentações financeiras
- comunicações entre investigados
- vínculos empresariais
são analisados para identificar possíveis relações entre os envolvidos.
Caso sejam encontrados indícios suficientes de irregularidades, o caso pode resultar em novas fases da investigação ou eventual denúncia ao Ministério Público Federal.
Até o momento, a apuração continua em andamento.
Impacto político e institucional do caso
Investigações envolvendo figuras próximas ao poder político costumam gerar forte repercussão no cenário nacional.
O caso também reacende debates sobre:
- transparência na relação entre empresários e governo
- fiscalização de benefícios previdenciários
- combate a fraudes em programas sociais
O INSS administra benefícios pagos a milhões de brasileiros, incluindo aposentadorias e pensões, o que torna qualquer suspeita de fraude um tema de grande interesse público.
A evolução das investigações deverá esclarecer se as viagens e relações comerciais apontadas possuem ou não ligação direta com as irregularidades apuradas.
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Imagem: Reprodução / Arquivo / Polícia Federal
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