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Brasileiro é vítima de tráfico humano no Uruguai em golpe de criptomoedas: Bastidores de um call center fraudulento

Brasileiro é enganado com falsa vaga de emprego e levado ao Uruguai para aplicar golpes com criptomoedas. Entenda como funciona essa nova forma de tráfico humano.

Tainara FerreiraPor Tainara Ferreira6 min de leitura
Criptomoedas

No final de abril de 2025, um brasileiro de 38 anos, natural de São Paulo, vivenciou um episódio alarmante que reflete o crescimento silencioso do tráfico de pessoas para fins de exploração econômica no setor de tecnologia e finanças.

A vítima, que prefere não se identificar, foi atraída por uma oferta de emprego supostamente legítima no Uruguai, mas acabou sendo forçada a trabalhar em um esquema fraudulento envolvendo golpes com criptomoedas.

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A promessa que virou pesadelo

A abordagem ocorreu via Instagram, onde uma suposta empresa chamada Wolfrin Montevidéu/Alfa oferecia oportunidades para brasileiros trabalharem em um “call center internacional” com salários entre R$ 4.000 e R$ 5.200, com benefícios, hospedagem paga e passagens incluídas.

A vítima, motivada por promessas de melhores condições financeiras e a chance de trabalhar no exterior, rapidamente iniciou o processo de seleção por WhatsApp. “Tudo parecia legítimo. Recebi contato de um recrutador, fiz entrevistas, assinei documentos e até participei de um treinamento presencial em São Paulo”, relatou.

Processo seletivo aparentemente legítimo

O processo incluía:

  • Preenchimento de formulários via Google Forms;
  • Recebimento de um Código de Conduta para assinatura;
  • Entrevistas remotas com representantes da empresa;
  • Treinamento presencial próximo à Avenida Paulista, em São Paulo.

O recrutador, identificado apenas como “Sebastian”, ofereceu passagens para Montevidéu, além de um adiantamento em pesos uruguaios — o equivalente a cerca de R$ 540 — para cobrir despesas iniciais.

A realidade ao chegar no Uruguai

Ao desembarcar no Uruguai, o brasileiro foi encaminhado ao hostel Piano del Sur, onde as condições de moradia estavam muito longe do prometido. “Não havia copos, lençóis, os banheiros estavam imundos. Era insalubre”, afirmou.

Mesmo após diversas reclamações, a situação permaneceu inalterada. A empresa, apesar de demonstrar uma falsa preocupação, não tomou nenhuma providência concreta.

Desconfiança e investigação própria

Ao notar inconsistências, o brasileiro começou a investigar o local e descobriu que outros conterrâneos já haviam denunciado a mesma empresa e o mesmo hostel às autoridades. O nome da Wolfrin Montevidéu/Alfa já constava em registros de denúncias por práticas suspeitas.

O verdadeiro trabalho: aplicar golpes com criptomoedas

Bitcoin criptomoedas
Imagem: Freepik

Segundo o relato, o verdadeiro propósito da vaga era cooptar brasileiros para atuarem em esquemas fraudulentos de investimentos com criptomoedas. O “call center” servia como base para contatos com vítimas, geralmente em outros países, com o objetivo de convencê-las a investir em plataformas fictícias de criptoativos.

Pressão psicológica e endividamento

O modelo de exploração é perverso: os recém-chegados são forçados a cobrir custos de hospedagem e alimentação com comissões oriundas dos golpes aplicados.

Ou seja, a única forma de “sobrevivência” era cometer crimes, criando uma situação de servidão por dívida, uma das formas reconhecidas de trabalho escravo contemporâneo.

“Eles te colocam em uma situação onde você não tem como voltar ao Brasil. A única forma de pagar o que você deve à empresa é aplicando golpes”, relatou.

Tráfico humano disfarçado de oportunidade

De acordo com a Lei nº 13.344/2016, tráfico de pessoas inclui o recrutamento, transporte, transferência, alojamento ou acolhimento de pessoas, por meio de ameaça, coação, fraude, engano ou abuso de vulnerabilidade com a finalidade de exploração. Neste caso, o engano e a fraude no recrutamento preenchem os critérios legais.

Embora o Uruguai seja considerado um país com bons índices de segurança e estabilidade, casos como este revelam a existência de redes transnacionais de recrutamento fraudulento, que utilizam o Brasil como fonte de mão de obra vulnerável.

As vítimas são atraídas por promessas de estabilidade financeira e acabam sendo traficadas para atividades criminosas.

Denúncias e medidas legais

A vítima conseguiu retornar ao Brasil por meios próprios, sem qualquer auxílio das empresas envolvidas. Embora não tenha sofrido violência física ou ameaças diretas, o impacto emocional e psicológico da experiência foi profundo.

“Carrego essa experiência como um alerta. Não desejo isso para ninguém”, afirmou.

Empresas envolvidas já foram denunciadas

As empresas Wolfrin Montevidéu e Alfa possuem registros de reclamações públicas de outros brasileiros, além de menções em investigações policiais. No entanto, muitas dessas organizações mudam frequentemente de nome e localização, dificultando a responsabilização legal.

Como se proteger de falsas ofertas de trabalho no exterior

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Sinais de alerta

Especialistas em segurança do trabalho e direito internacional alertam sobre sinais comuns de vagas fraudulentas:

  • Promessas vagas e genéricas de altos salários;
  • Falta de endereço físico ou registro oficial da empresa;
  • Processo seletivo todo feito por aplicativos de mensagem;
  • Pressão para decisão rápida e assinatura de documentos sem leitura adequada;
  • Pagamento antecipado ou empréstimos para despesas iniciais.

Verificações recomendadas

Antes de aceitar qualquer proposta internacional:

  • Pesquise o CNPJ ou equivalente da empresa no país de destino;
  • Busque referências com ex-funcionários ou comunidades online;
  • Consulte o Ministério das Relações Exteriores e os canais consulares;
  • Não compartilhe dados pessoais sensíveis sem verificação formal.

O que fazer ao ser vítima de tráfico internacional?

Canais de denúncia no Brasil

  • Disque 100 (Direitos Humanos): Gratuito, 24 horas por dia, inclusive feriados. Também disponível via WhatsApp, Telegram e pelo site do Ministério dos Direitos Humanos.
  • Plantão consular do Itamaraty: (61) 98260-0610 – ativo 24 horas por dia para situações emergenciais envolvendo brasileiros no exterior.

Legislação brasileira

O tráfico de pessoas é crime no Brasil, com pena de 4 a 8 anos de reclusão e multa, podendo ser agravado em casos com vítimas menores de idade. Também pode configurar trabalho análogo à escravidão, tipificado com penas similares.

O papel das criptomoedas nos crimes transnacionais

Gemini
Imagem: Chinnapong/ Shutterstock.com

Nos últimos anos, criptomoedas como Bitcoin, Ethereum e outras altcoins passaram a ser utilizadas em esquemas de lavagem de dinheiro, financiamento de atividades ilícitas e golpes cibernéticos. Plataformas fantasmas de investimentos são particularmente comuns nesses crimes, dificultando o rastreamento dos valores e a punição dos responsáveis.

Golpes mais comuns com criptomoedas

  • Pirâmides financeiras disfarçadas de trading bots;
  • Promessas de rentabilidade fixa com tokens desconhecidos;
  • Falsas corretoras que somem com os depósitos dos usuários;
  • “Golpes do amor” (romance scams) envolvendo criptoativos.

Considerações finais

O caso do brasileiro levado ao Uruguai sob falsa promessa de emprego expõe uma rede internacional de tráfico humano disfarçada de oportunidades no setor de criptomoedas. Mais do que um episódio isolado, trata-se de um alerta para autoridades, plataformas de redes sociais e profissionais em busca de oportunidades legítimas no exterior.

A combinação entre vulnerabilidade econômica, crescimento das criptomoedas e facilidade de recrutamento online forma o terreno perfeito para o surgimento de esquemas como este. A conscientização e a denúncia são as primeiras linhas de defesa para evitar que mais brasileiros caiam em armadilhas semelhantes.

Tainara Ferreira

Autor

Tainara Ferreira

Tainara Ferreira atua como redatora no portal Seu Crédito Digital, contribuindo com pautas que facilitam o entendimento de políticas públicas, programas sociais, economia do dia a dia e direitos dos cidadãos. Com olhar atento aos temas que impactam diretamente a vida da população brasileira, tem como missão traduzir informações complexas em conteúdos claros, úteis e acessíveis.

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