A Volkswagen está no centro de uma polêmica judicial, sendo acusada de envolvimento em práticas de trabalho escravo nas décadas de 1970 e 1980. O Ministério Público do Trabalho (MPT) entrou com uma ação civil pública que visa cobrar uma indenização de R$ 165 milhões da montadora.
Volkswagen é acusada de trabalho escravo e deverá pagar R$ 165 mi em indenização
O MPT apresentou uma ação contra a Volkswagen por trabalho escravo nas décadas de 1970 e 1980, com pedido de indenização de R$ 165 milhões. Entenda os detalhes do caso e o posicionamento da montadora
O processo, formalizado no dia 4 de dezembro de 2024, envolve denúncias sobre a exploração de trabalhadores na Fazenda Vale do Rio Cristalino, no estado do Pará, durante o regime militar.
A empresa, por sua vez, negou as acusações, argumentando que não foi formalmente notificada e que não comenta processos em andamento. O caso reacende um debate importante sobre as práticas trabalhistas durante o período da ditadura e as responsabilidades de grandes corporações em relação a violações dos direitos humanos.
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O que é a Fazenda Vale do Rio Cristalino e qual o papel da Volkswagen?
A Fazenda Vale do Rio Cristalino, também conhecida como Fazenda Volkswagen, foi uma propriedade pertencente à CVRC (Companhia Vale do Rio Cristalino Agropecuária Comércio e Indústria), uma subsidiária da Volkswagen.
Localizada no município de Santana do Araguaia, no Pará, a fazenda tinha mais de 139 mil hectares de terra e era usada para criação de gado e extração de madeira durante as décadas de 1970 e 1980, período em que o Brasil vivia sob a ditadura militar.
O MPT afirma que as práticas de exploração no local eram cruéis e desumanas, caracterizando trabalho análogo ao escravo. Além disso, a montadora teria se beneficiado diretamente dessas condições de trabalho em sua fazenda, que foi subsidiada pelo governo militar por meio de instituições como a Sudam (Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia) e o Basa (Banco da Amazônia).

As denúncias de tráfico de pessoas e trabalho escravo
As denúncias contra a Volkswagen surgiram em 2019, quando o padre Ricardo Rezende Figueira, na época coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) para a região do Araguaia e Tocantins, levou as informações ao MPT.
Segundo o processo, trabalhadores eram aliciados por empreiteiros conhecidos como “gatos”, que recrutavam pessoas nos estados de Mato Grosso, Goiás e no atual Tocantins, com promessas de bons salários e empregos estáveis.
Condições de exploração
O que se revelaria, entretanto, era uma realidade bem diferente. Os trabalhadores eram transportados em condições degradantes, em “paus de arara” vigiados por homens armados, e chegavam ao local de trabalho sem saber das condições de exploração que enfrentariam. Uma vez na fazenda, eram proibidos de sair e obrigados a trabalhar em regime de dívida, sendo forçados a cumprir jornadas exaustivas.
Condições desumanas e violência nas frentes de trabalho
O processo relata as condições precárias nas quais os trabalhadores eram forçados a viver e trabalhar. Segundo as denúncias, os empregados precisavam construir suas próprias moradias de forma improvisada, utilizando lonas e outros materiais de baixo custo. Além disso, a alimentação era fornecida em uma cantina local, mas as dívidas com o local nunca eram quitadas.
Os trabalhadores, muitas vezes, eram obrigados a comprar alimentos, roupas e outros itens essenciais, sendo mantidos em um ciclo de endividamento constante. As condições de trabalho eram igualmente deploráveis.
Humilhações físicas e psicológicas
Trabalhadores foram expostos a doenças como malária, sofreram acidentes de trabalho com ferramentas como facões e motosserras, e vivenciaram abusos como humilhações físicas e psicológicas.
O relato aponta ainda para o uso de violência física, como golpes de facão e até disparos de armas de fogo. Há também menções a desaparecimentos de trabalhadores que, ao tentar fugir das condições de trabalho, desapareceram sem deixar rastros.
O pedido de indenização do MPT e as reações da Volkswagen
Com base nas evidências apresentadas, o MPT entrou com uma ação civil pública exigindo que a Volkswagen pague uma indenização de R$ 165 milhões. O valor, segundo o Ministério Público, tem como objetivo reparar os danos causados às vítimas e também servir como uma forma de reparação pelos danos aos bens lesados, como o meio ambiente e os direitos humanos.
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O MPT também solicitou que a Volkswagen reconheça as violações ocorridas e peça desculpas públicas à sociedade brasileira. Além disso, o valor da indenização deve ser destinado ao FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) ou a uma entidade socialmente relevante.
A montadora, por sua vez, negou todas as acusações. Em nota, a Volkswagen afirmou que ainda não foi formalmente notificada sobre a ação e que, por isso, não tem acesso ao conteúdo do processo. A empresa também reiterou seu compromisso com a responsabilidade social e com a promoção de condições de trabalho adequadas para seus empregados.
O impacto do caso e a relevância para o contexto atual
Este caso coloca em foco uma prática que, infelizmente, ainda é uma realidade em diversas regiões do Brasil, especialmente em áreas remotas da Amazônia. O trabalho escravo, embora ilegal, ainda persiste em algumas atividades econômicas, como no agronegócio e na extração de recursos naturais.
A ação do MPT contra a Volkswagen também levanta questões sobre a responsabilidade das empresas em relação ao que ocorre em suas cadeias produtivas e em suas subsidiárias.
Se comprovadas as acusações, a Volkswagen se veria obrigada a assumir sua responsabilidade sobre as condições de trabalho na Fazenda Vale do Rio Cristalino, o que pode ter consequências significativas para a imagem da empresa, especialmente em um contexto onde a pressão por transparência e responsabilidade social das grandes corporações têm se intensificado.

Outros processos envolvendo a Volkswagen e o período da ditadura
Este não é o único caso que envolve a Volkswagen durante o período da ditadura militar. A montadora também foi acusada de colaborar com o regime militar, por meio de espionagem e repressão a seus próprios empregados. Em 2017, a empresa admitiu que forneceu informações ao regime sobre seus funcionários, o que resultou na prisão e tortura de alguns deles.
O caso envolvendo a Fazenda Vale do Rio Cristalino é um lembrete de que a história recente do Brasil ainda guarda muitas cicatrizes, e que as vítimas das violações de direitos humanos, especialmente no período da ditadura, continuam buscando reparação.
Imagem: AR Pictures / shutterstock.com
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