A decretação da liquidação extrajudicial da Will Financeira, popularmente conhecida como Will Bank, na manhã desta quarta-feira, 21, representa um dos episódios mais emblemáticos do atual momento vivido pelo setor de fintechs no Brasil. O caso evidencia não apenas a fragilidade de determinados modelos de negócio digitais, como também os efeitos em cadeia provocados por crises de liquidez em conglomerados financeiros tradicionais que passaram a incorporar startups ao seu ecossistema.
Will Bank: de “banco dos invisíveis” à liquidação; entenda a trajetória e o que levou ao fim
Liquidação do Will Bank pelo Banco Central revela impactos da crise do Banco Master e acende alerta sobre riscos no mercado fintech brasileiro.
Criada em um contexto de forte expansão dos bancos digitais, a Will surgiu com a proposta de democratizar o acesso ao crédito e ampliar a bancarização, especialmente em regiões historicamente menos atendidas pelo sistema financeiro. Ao longo de sua trajetória, acumulou milhões de clientes, investimentos robustos e campanhas de marketing de grande visibilidade. Ainda assim, não conseguiu atravessar ilesa a turbulência que atingiu o Banco Master, seu controlador.
A liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central encerra, ao menos por ora, a operação da fintech e levanta questionamentos sobre governança, sustentabilidade financeira e supervisão regulatória em um mercado que cresceu de forma acelerada na última década.
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A origem da Will Financeira e o crescimento no auge das fintechs
Fundada em 2017, a Will Financeira nasceu em meio à multiplicação de startups financeiras que buscavam disputar espaço com grandes bancos e com os primeiros unicórnios digitais do país. O cenário era favorável: alto índice de desbancarização, avanço dos smartphones e crescente insatisfação dos consumidores com tarifas e burocracias tradicionais.
Inicialmente, a empresa operava como emissora de cartões de crédito sob a marca Meu Pag!. A estratégia era simples e agressiva: facilitar a aprovação de crédito para públicos negligenciados pelo sistema financeiro convencional. Com o passar do tempo, a fintech percebeu que poderia ampliar seu alcance ao transformar o cartão em porta de entrada para um banco digital mais completo.
O nascimento do Will Bank e a consolidação da marca
Foi em 2020 que a empresa passou a adotar oficialmente o nome fantasia Will Bank. A mudança marcou uma nova fase, com a incorporação de funcionalidades típicas de bancos digitais, como conta corrente, transferências, pagamentos e, posteriormente, outros produtos financeiros.
Naquele mesmo ano, o crescimento foi expressivo. A base de clientes atingiu 1,6 milhão de contas, impulsionada pela abertura de 400 mil novos usuários em poucos meses. O resultado financeiro acompanhou o avanço: o lucro registrado chegou a R$ 14,91 milhões, um salto de 338% em relação ao período anterior.
O desempenho colocou o Will Bank no radar de investidores e reforçou a percepção de que havia espaço para modelos focados em públicos de menor renda e com histórico de crédito limitado.
A aposta na bancarização e o foco no Nordeste
Em 2021, a fintech passou a se posicionar publicamente como um agente de inclusão financeira. Dados divulgados pela própria empresa indicavam que cerca de 40% dos clientes estavam utilizando um cartão de crédito pela primeira vez. O discurso encontrava eco em um país onde milhões de pessoas ainda enfrentam barreiras para acessar produtos bancários básicos.
A força do Will Bank estava concentrada, sobretudo, no Nordeste. Aproximadamente 60% da base de clientes residia na região, que historicamente apresenta menor oferta de crédito e maior concentração de desbancarizados. A estratégia regionalizada ajudou a empresa a crescer rapidamente, mas também a expôs a desafios relacionados ao perfil de risco da carteira.
O então CEO e cofundador Felipe Félix sintetizou essa proposta ao afirmar que o banco “dizia sim aos invisíveis do crédito”, frase que se tornou um dos lemas mais conhecidos da marca.
Investimentos milionários e marketing agressivo
O desempenho operacional e o discurso de impacto social chamaram a atenção de grandes investidores. Em julho de 2021, a empresa anunciou um aporte de R$ 250 milhões liderado pela XP e pela Atmos Capital. O investimento reforçou o caixa e abriu espaço para a expansão de produtos e campanhas de marketing.
A estratégia de comunicação foi uma das mais visíveis do setor. O Will Bank apostou em personalidades com forte apelo junto ao público jovem e popular, como o humorista Whindersson Nunes e as cantoras Pabllo Vittar e Danny Bond. Também firmou parcerias com ex-participantes de reality shows e investiu em ações na televisão aberta.
O objetivo era claro: consolidar a marca como um banco acessível, próximo do público e alinhado à cultura digital brasileira.
A aquisição pelo Banco Master e a mudança de rumo
Apesar do crescimento acelerado, o cenário começou a mudar com a aquisição do Will Bank pelo Banco Master, concluída em fevereiro de 2024. O valor da operação não foi divulgado, mas representou uma inflexão importante na trajetória da fintech.
Na ocasião, o Banco Master destacou que a compra permitiria a construção de um ecossistema digital completo, combinando tecnologia, distribuição e um portfólio diversificado de produtos financeiros. O discurso oficial ressaltava sinergias e prometia ganhos de escala.
À época, o Will Bank informava contar com cerca de 1,2 mil colaboradores e atender aproximadamente 6 milhões de clientes em todo o país. O portfólio incluía conta digital, cartões, crédito pessoal, investimentos e marketplace.
A crise do Banco Master e os reflexos sobre o Will
O cenário de aparente estabilidade começou a ruir em novembro de 2025, quando o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master. A autarquia apontou a existência de uma grave crise de liquidez, colocando em xeque a capacidade do conglomerado de honrar seus compromissos.
Dados divulgados pelo Fundo Garantidor de Crédito indicavam que o banco possuía patrimônio de R$ 160 bilhões, sendo R$ 122 bilhões em recursos líquidos em caixa. Ainda assim, os problemas de gestão e liquidez levaram à intervenção regulatória.
Para evitar um colapso imediato, o Banco Central optou por manter o Banco Master Múltiplo em funcionamento sob Regime Especial de Administração Temporária (RAET). Esse mecanismo permite a continuidade das operações enquanto uma equipe indicada tenta reestruturar a instituição. Sob essa estrutura, permanecia a Will Financeira.
As tentativas de recuperação e o colapso final
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Mesmo com o RAET, as dificuldades financeiras se aprofundaram. A Will Financeira enfrentava restrições operacionais, dificuldades de capitalização e pressão de parceiros estratégicos. O episódio decisivo ocorreu na última segunda-feira, 19, quando a empresa deixou de honrar um arranjo de pagamentos com a Mastercard.
A quebra desse compromisso foi interpretada pelo Banco Central como um sinal inequívoco de insolvência. Em comunicado oficial, a autoridade monetária afirmou que a liquidação extrajudicial tornou-se inevitável diante do comprometimento da situação econômico-financeira da empresa e do vínculo de controle com o Banco Master, já sob liquidação.
Com isso, o ciclo iniciado anos antes, marcado por crescimento acelerado e forte apelo popular, foi abruptamente interrompido.
O que significa a liquidação extrajudicial para clientes
A liquidação extrajudicial é um processo administrativo conduzido pelo Banco Central que visa encerrar as atividades de uma instituição financeira de forma ordenada. Nesse regime, as operações são suspensas, os administradores são afastados e um liquidante é nomeado para apurar ativos, passivos e responsabilidades.
Para os clientes do Will Bank, o impacto depende do tipo de produto contratado. Valores mantidos em conta corrente, poupança ou aplicações cobertas pelo Fundo Garantidor de Crédito podem ser ressarcidos dentro dos limites previstos. Já produtos não cobertos exigem análise caso a caso.
O episódio reforça a importância de compreender os riscos associados a instituições financeiras digitais, mesmo aquelas que apresentam crescimento acelerado e forte presença de mercado.
Impactos para o mercado de fintechs no Brasil
A queda do Will Bank ocorre em um momento de maior maturidade e escrutínio do setor fintech. Após anos de expansão acelerada, investidores, reguladores e consumidores passaram a exigir maior solidez financeira, governança robusta e modelos de negócio sustentáveis.
O caso também evidencia os riscos de aquisições realizadas por grupos que enfrentam fragilidades estruturais. A interdependência entre controladoras e subsidiárias pode amplificar crises e comprometer operações que, isoladamente, poderiam ser viáveis.
Especialistas avaliam que o episódio tende a reforçar a atuação do Banco Central na supervisão preventiva, além de influenciar decisões de investimento em startups financeiras nos próximos anos.
Lições deixadas pelo fim do Will Bank
A trajetória do Will Bank ilustra tanto o potencial transformador das fintechs quanto os desafios de manter crescimento sustentável em um ambiente altamente regulado. Inclusão financeira, inovação tecnológica e marketing eficiente são pilares importantes, mas não substituem uma estrutura sólida de capital e gestão de riscos.
Para o consumidor, fica a lição de que instituições digitais devem ser avaliadas com o mesmo cuidado dispensado aos bancos tradicionais. Para o mercado, o episódio serve como alerta sobre os limites da expansão acelerada sem bases financeiras consistentes.
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