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Inteligência artificial já aparece em 35% dos textos da internet, diz estudo

Estudo encontra sinais de IA em 35% das páginas recentes. Entenda como a pesquisa foi feita, suas limitações e os impactos para o leitor.

Bruna MachadoPor Bruna Machado··9 min de leitura
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A inteligência artificial já participa de uma parcela relevante do conteúdo publicado na web. Uma análise do Pew Research Center identificou sinais de autoria ou edição por IA em 35% das páginas em inglês publicadas depois do lançamento do ChatGPT, em novembro de 2022.

O número chama atenção, mas precisa ser interpretado corretamente. O levantamento não concluiu que 35% de tudo o que existe na internet foi escrito integralmente por máquinas. A porcentagem se refere a páginas recentes, com data de publicação identificável, analisadas por um detector automatizado.

Ainda assim, o estudo mostra uma mudança importante: ferramentas como ChatGPT, Gemini e Claude deixaram de ser apenas assistentes experimentais e passaram a integrar a produção cotidiana de notícias, materiais de marketing, descrições de produtos, textos institucionais e conteúdos para redes sociais.

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O que o estudo realmente descobriu

Imagem: Reprodução / Seu Crédito Digital

O Pew Research Center analisou 490 mil páginas em inglês armazenadas pelo Common Crawl, um arquivo que registra partes da internet pública. A amostra reuniu páginas coletadas em 49 varreduras realizadas entre janeiro de 2021 e julho de 2026.

Considerando todas as páginas da amostra de julho de 2026, inclusive conteúdos antigos que já existiam antes da popularização da IA generativa, 10% apresentaram sinais significativos de autoria ou edição automatizada.

Quando os pesquisadores olharam apenas para páginas com data identificável e publicadas depois da chegada do ChatGPT, a proporção subiu para 35%. Portanto, a conclusão mais precisa é que aproximadamente um terço das páginas recentes analisadas apresentava indícios relevantes de participação da inteligência artificial. Os dados completos estão no estudo do Pew Research Center.

Por que os números de 10% e 35% são diferentes

A internet acumula conteúdo produzido ao longo de décadas. Reportagens antigas, páginas governamentais, documentos acadêmicos e sites que não são atualizados continuam disponíveis e aparecem nas varreduras.

Por isso, quando todas as páginas são consideradas, a presença estimada de IA fica em 10%. A taxa de 35% surge depois que os pesquisadores isolam conteúdos publicados na fase posterior ao lançamento do ChatGPT.

Há ainda uma limitação importante: apenas entre 10% e 15% das páginas observadas em cada varredura tinham uma data de publicação detectável no código. Isso significa que o grupo usado para calcular os 35% não representa necessariamente toda a web recente.

Como os pesquisadores identificaram textos com IA

Os textos foram processados pelo editlens_Llama-3.2-3B, modelo aberto desenvolvido pela Pangram. A ferramenta procura padrões estatísticos de escrita associados a sistemas generativos, como determinadas combinações de palavras, construções de frases e formas de pontuação.

O detector atribui uma pontuação entre zero e um. Quanto mais próximo de um, maior a probabilidade estimada de participação da inteligência artificial. O Pew classificou como relevantes os resultados iguais ou superiores a 0,2.

Esse limite permite incluir páginas que não foram necessariamente produzidas do início ao fim por um chatbot. Um texto escrito por uma pessoa e depois reestruturado, ampliado ou revisado por IA também pode entrar nessa categoria.

O detector não funciona como prova definitiva

Detectores de IA trabalham com probabilidades. Eles podem classificar um texto humano como artificial, o chamado falso positivo, ou deixar de reconhecer um conteúdo efetivamente criado por uma ferramenta.

Para testar a consistência do resultado, os pesquisadores compararam o modelo aberto com uma versão comercial da Pangram em mais de 62 mil páginas. As duas ferramentas concordaram em 96% dos casos, embora tenham apresentado divergências relevantes em parte das classificações.

O próprio Pew ressalta que o resultado atribuído a uma página isolada não deve ser tratado como veredito sobre sua autoria. A utilidade do detector está em acompanhar tendências dentro de amostras grandes e analisadas com o mesmo método. A metodologia detalhada explica essas limitações.

Onde a presença de IA aparece com mais frequência

A distribuição dos conteúdos identificados como artificiais não é igual em todos os tipos de site. Em 2026, aproximadamente uma em cada dez páginas com domínio “.com” apresentou sinais de uso de IA.

Nos endereços “.org”, a proporção ficou em 4,6%. Em domínios “.edu” e “.gov”, ligados principalmente a instituições de ensino e órgãos públicos dos Estados Unidos, o índice permaneceu próximo de 1%.

Essa diferença pode ter várias explicações. Sites comerciais costumam publicar conteúdos em grande escala, atualizar páginas com frequência e utilizar automação para reduzir custos. Instituições públicas e acadêmicas, por outro lado, normalmente trabalham com procedimentos formais de aprovação, revisão e responsabilização.

O domínio, porém, não é um certificado de qualidade. Um endereço “.com” pode publicar jornalismo rigoroso, enquanto um site institucional também pode divulgar informações incompletas. A origem, as evidências e a transparência continuam sendo mais importantes que a extensão do endereço.

Por que a produção automatizada cresceu tanto

A principal razão é econômica. Uma ferramenta generativa consegue entregar rascunhos, resumos, traduções e descrições em poucos segundos, reduzindo o tempo necessário para tarefas repetitivas.

Uma loja virtual, por exemplo, pode usar IA para preparar centenas de descrições de produtos. Uma empresa pode transformar um relatório técnico em posts, e-mails e perguntas frequentes. Um profissional autônomo pode revisar um texto antes de apresentá-lo a um cliente.

O uso dos chatbots também se tornou mais comum. Em 2026, 49% dos adultos norte-americanos disseram utilizar essas ferramentas, ante 33% em 2024. Entre todos os entrevistados, 24% afirmaram usá-las diariamente, segundo pesquisa do próprio Pew.

Uma pesquisa internacional da Ipsos para o Google, feita com cerca de 21 mil adultos, encontrou uso de alguma aplicação de IA por 66% dos entrevistados nos 12 meses anteriores. O Brasil estava entre os 21 países pesquisados. A sondagem foi on-line e, fora dos Estados Unidos, utilizou uma amostra não probabilística, aspecto que deve ser considerado na interpretação. A Ipsos apresenta os resultados e a metodologia.

Ter usado IA torna um texto ruim?

Não necessariamente. A qualidade depende de como a ferramenta foi empregada e, principalmente, da existência de apuração, revisão e responsabilidade humana.

Uma IA pode ajudar a organizar dados ou tornar uma explicação mais clara. O problema aparece quando ela substitui etapas que exigem julgamento: conferir fatos, ouvir pessoas afetadas, analisar documentos, identificar conflitos de interesse e corrigir informações desatualizadas.

Sistemas generativos também podem produzir “alucinações”, nome dado a respostas inventadas que parecem verdadeiras. Citações inexistentes, números incorretos e normas revogadas podem aparecer em um texto bem escrito, o que torna a revisão ainda mais necessária.

Conteúdo em escala pode empobrecer a internet

Se muitos sites publicarem respostas genéricas sobre os mesmos assuntos, a quantidade de páginas aumenta sem que o conhecimento disponível cresça na mesma proporção. O leitor encontra diversas versões de um conteúdo, mas poucas trazem apuração original.

Também existe o risco de um ciclo de reprodução. Um sistema gera um texto com base em materiais existentes; outros sites repetem esse conteúdo; e novas ferramentas passam a utilizar essas páginas como referência. Informações imprecisas podem ganhar aparência de consenso apenas porque foram replicadas muitas vezes.

Como reconhecer um conteúdo confiável

Não existe um sinal isolado capaz de provar que determinado texto foi escrito por IA. Expressões repetitivas, frases excessivamente padronizadas e conclusões genéricas podem levantar suspeitas, mas também aparecem em textos humanos.

Para o leitor, o caminho mais seguro é avaliar a confiabilidade do conteúdo, independentemente da ferramenta usada em sua produção. Vale observar se a página:

  • identifica o autor e informa sua experiência;
  • apresenta data de publicação e de atualização;
  • liga números às fontes originais;
  • diferencia fatos, estimativas e opiniões;
  • explica os limites dos dados;
  • corrige erros de maneira transparente;
  • oferece informações próprias, e não apenas versões de outros textos.

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Em temas de saúde, finanças, direitos, segurança ou políticas públicas, a cautela deve ser maior. A orientação deve ser conferida em órgãos oficiais, documentos técnicos ou profissionais habilitados.

O que muda para jornalistas, empresas e criadores

A adoção de IA não elimina a responsabilidade de quem publica. Se uma empresa divulga uma informação errada gerada por um chatbot, o fato de o erro ter começado na ferramenta não afasta os possíveis danos ao consumidor ou à reputação da marca.

Boas práticas incluem manter revisão humana, registrar as fontes utilizadas, proteger informações pessoais e estabelecer quais tarefas podem ou não ser automatizadas. Conteúdos sensíveis também devem passar por profissionais com conhecimento específico.

No jornalismo, a IA pode auxiliar em transcrições, organização de bases de dados e preparação de rascunhos. A apuração, a confirmação dos fatos e a decisão editorial, entretanto, precisam continuar sob responsabilidade humana.

Para sites que dependem de buscas, publicar milhares de páginas pouco úteis também pode ser uma estratégia frágil. Conteúdo original, experiência prática, clareza de autoria e fontes confiáveis tendem a oferecer valor mais duradouro do que textos produzidos apenas para ocupar resultados de pesquisa.

O que o leitor deve levar deste estudo

O levantamento confirma que a inteligência artificial já participa de uma parcela expressiva da web recente. Ele não prova, porém, que 35% de toda a internet tenha sido escrita integralmente por máquinas.

O dado representa páginas em inglês, públicas, com data detectável e analisadas por um modelo probabilístico. Apesar dessas limitações, a tendência de crescimento aparece de maneira consistente.

Para o leitor, a recomendação prática é não tentar adivinhar apenas pelo estilo se um texto veio de uma IA. O mais importante é verificar autoria, fontes, atualização e evidências. Na internet cada vez mais automatizada, confiança precisa ser demonstrada — não apenas declarada.

Perguntas frequentes

Inteligência artificial
Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

35% de todos os textos da internet foram escritos por IA?

Não. O índice de 35% corresponde às páginas em inglês da amostra de julho de 2026 que tinham data identificável, foram publicadas depois do lançamento do ChatGPT e apresentaram sinais relevantes de autoria ou edição por IA.

Como saber se um texto foi produzido por inteligência artificial?

Não existe um método infalível. Detectores trabalham com probabilidades e podem errar. Para avaliar a confiabilidade, verifique autor, fontes, data, evidências e transparência editorial.

Um texto revisado por IA entra na estatística?

Pode entrar. O estudo considerou páginas provavelmente escritas ou substancialmente editadas por inteligência artificial, e não somente conteúdos integralmente gerados por chatbots.

Detectores de IA são confiáveis?

Eles podem revelar tendências em amostras grandes, mas não devem ser usados isoladamente para acusar uma pessoa de ter utilizado IA. Falsos positivos e falsos negativos continuam possíveis.

O estudo analisou páginas brasileiras?

Não especificamente. A pesquisa examinou páginas em inglês disponíveis no Common Crawl. Seus resultados ajudam a compreender uma tendência internacional, mas não medem diretamente a proporção de textos em português ou publicados no Brasil.

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