O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB), participou neste domingo, 18 de maio de 2025, da missa de início do novo pontificado do papa Leão XIV, no Vaticano.
Após o evento, Alckmin teve um breve encontro com o pontífice, no qual entregou um ofício com convite do presidente Lula para que o papa visite o Brasil e participe da COP-30, marcada para 2025 em Belém (PA).
Além do gesto diplomático, Alckmin conversou com jornalistas brasileiros e comentou temas da política econômica, especialmente a elevação da taxa básica de juros (Selic), atualmente em 14,75% ao ano, e as novas tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos.
Suas declarações repercutem em meio a um cenário de pressão por corte de juros e expectativas de inflação sob controle no segundo semestre de 2025.
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O encontro entre Alckmin e o papa Leão XIV

Diplomacia religiosa e ambiental
Durante a conversa com o papa, Alckmin afirmou ter falado em português e sido respondido por Leão XIV em um misto de português e espanhol.
Segundo o vice-presidente, o papa recebeu com simpatia o convite do governo brasileiro para visitar o país e participar da COP-30, evento ambiental da ONU que será sediado em Belém, no coração da Amazônia.
“Entreguei em mãos o ofício do presidente Lula convidando Sua Santidade para a COP-30. Ele foi muito receptivo e cordial”, relatou Alckmin à imprensa.
A presença do papa em um evento global sobre mudanças climáticas reforçaria a mensagem do Vaticano em defesa da justiça climática, tema caro ao novo pontífice.
Selic em 14,75% preocupa Alckmin: “Não é sustentável para o Brasil”
Críticas à política monetária atual
Alckmin aproveitou o contato com a imprensa para demonstrar preocupação com o atual patamar da taxa Selic, elevada no início de maio pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, em 0,5 ponto percentual, alcançando o maior nível desde 2006.
“Temos uma preocupação este ano com a Selic, mas o Brasil é um fenômeno, porque conseguiu crescer mesmo com uma taxa de juros elevadíssima”, afirmou.
Expectativa de cortes ainda em 2025
O vice-presidente disse acreditar em reduções rápidas da Selic, à medida que a inflação ceda e o dólar continue em queda. Para Alckmin, há fatores que justificam um ciclo de afrouxamento monetário nos próximos trimestres:
- Previsão de safra agrícola robusta em 2025, que tende a segurar os preços dos alimentos;
- Valorização do real, que contribui para a desaceleração da inflação de importados;
- Desaceleração da inflação ao consumidor (IPCA), especialmente nos setores de transporte e vestuário.
“Da mesma forma que foi elevada, ela pode cair. A taxa alta tem dois efeitos muito ruins: um para o PIB e outro para a dívida pública”, concluiu Alckmin.
Selic e o mercado: expectativas divididas

Apesar do otimismo do vice-presidente, o mercado financeiro segue cauteloso. A última edição do Boletim Focus, divulgada pelo Banco Central, manteve a previsão de Selic em 14,75% ao final de 2025. Essa é a segunda semana consecutiva em que a estimativa se mantém inalterada, indicando que analistas ainda não vislumbram um corte imediato.
Entre os principais motivos estão:
- Persistência de núcleos de inflação acima da meta;
- Dúvidas sobre o avanço do ajuste fiscal;
- Riscos externos, como a desaceleração da economia global.
Tarifas dos EUA: “Não é bom para ninguém”, diz Alckmin
Pacote de Trump impõe tarifas de até 25%
Durante a coletiva no Vaticano, Alckmin também comentou as recentes tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos, sob o comando do presidente Donald Trump. O pacote, anunciado em abril, prevê tarifas elevadas sobre uma série de produtos importados, principalmente de origem chinesa. O Brasil ficou na alíquota mais baixa, de 10%, mas Alckmin criticou a medida:
“Embora o Brasil tenha ficado na alíquota mais baixa, isso não é bom para ninguém. O presidente Lula tem defendido o livre comércio e o multilateralismo. O caminho é o diálogo”, afirmou.
A preocupação do governo brasileiro é que a escalada protecionista norte-americana afete o comércio global, principalmente em setores sensíveis como soja, aço e minerais críticos, nos quais o Brasil é fornecedor relevante.
COP-30 em Belém: Brasil aposta em protagonismo ambiental
Convite reforça diplomacia climática
O convite entregue ao papa Leão XIV para comparecer à COP-30, que ocorrerá em novembro de 2025, faz parte da estratégia do governo federal de reforçar o protagonismo brasileiro nas discussões ambientais globais. A realização do evento em Belém é simbólica, pois marca:
- O retorno da COP à América do Sul após mais de uma década;
- A centralidade da Amazônia nos debates sobre mudanças climáticas;
- O esforço do Brasil em equilibrar desenvolvimento econômico e preservação ambiental.
A presença de líderes religiosos, como o papa, pode ampliar o alcance das mensagens da conferência, especialmente em comunidades vulneráveis e de fé cristã.
Repercussão política e econômica das declarações

Apoio ao corte de juros ecoa entre empresários
As declarações de Alckmin sobre a Selic foram bem recebidas por setores produtivos, especialmente indústria e comércio, que há meses pressionam por redução no custo do crédito.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou nota reafirmando que a Selic elevada inibe o investimento, a geração de empregos e o consumo.
Cautela no Palácio do Planalto
Fontes próximas à equipe econômica, porém, indicam que o governo busca evitar confronto direto com o Banco Central, respeitando a autonomia formal da instituição. O presidente Lula tem adotado tom mais reservado nos últimos pronunciamentos sobre juros.
Considerações finais
O encontro de Geraldo Alckmin com o papa Leão XIV vai além de um gesto diplomático simbólico: ele reflete o esforço do governo brasileiro para fortalecer sua agenda ambiental e diplomática em 2025, em paralelo ao enfrentamento dos desafios econômicos internos, como o atual patamar da Selic.
Enquanto o vice-presidente reforça a necessidade de corte nos juros para aliviar o PIB e a dívida pública, o cenário externo impõe obstáculos — seja pelas tarifas protecionistas dos EUA, seja pelas incertezas inflacionárias globais.
No horizonte, a COP-30 em Belém desponta como oportunidade para o Brasil reafirmar seu papel de liderança internacional em sustentabilidade — e talvez, receber o papa como símbolo de união entre fé, ciência e justiça climática.
