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Agronegócio enfrenta pressão nos custos com alta dos preços dos fertilizantes

Avatar de Melissa Barbosa Melissa Barbosa · · 9 min de leitura
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A disparada nos preços dos fertilizantes tem pressionado os custos de produção no campo e reduzido a rentabilidade dos agricultores brasileiros. O aumento, impulsionado pelas tensões no Oriente Médio, encareceu insumos essenciais para culturas como milho, soja e algodão e deteriorou a relação de troca entre os grãos e os fertilizantes.

Segundo Tomás Pernías, analista de inteligência de mercado da StoneX, o Brasil não deve passar ileso pelos efeitos da instabilidade internacional. O impacto já aparece no poder de compra dos produtores e pode comprometer os resultados financeiros das próximas safras, especialmente entre aqueles que adquiriram insumos durante os períodos de preços mais elevados.

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Alta dos fertilizantes reduz o poder de compra dos agricultores

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Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

A escalada dos preços alterou a quantidade de grãos necessária para adquirir fertilizantes. Um dos exemplos mais expressivos envolve o milho e a ureia, um dos principais fertilizantes nitrogenados utilizados na agricultura.

Durante o 9º Seminário StoneX, realizado em 8 de outubro de 2026, Pernías explicou que o produtor de milho precisava de 37 sacas do grão para comprar uma tonelada de ureia. Nos momentos mais críticos do conflito, essa relação chegou a 75 sacas.

Na prática, isso significa que o agricultor passou a precisar de mais que o dobro da quantidade de milho para adquirir o mesmo volume do insumo. A mudança reduz o poder de compra da produção e aumenta a pressão sobre as margens da atividade rural.

A relação de troca é um indicador importante para o planejamento agrícola porque permite avaliar quantas unidades de um produto são necessárias para pagar determinado insumo. Quando essa proporção piora, o produtor precisa vender mais grãos para manter o mesmo nível de investimento na lavoura.

Conflito no Oriente Médio encarece insumos e transporte

A instabilidade geopolítica no Oriente Médio afetou diferentes componentes da cadeia internacional de fertilizantes. Entre eles estão o gás natural, utilizado na fabricação de fertilizantes nitrogenados, o frete marítimo e o transporte rodoviário.

Como o Brasil depende de importações para abastecer parte significativa de sua demanda por fertilizantes, as oscilações internacionais são transmitidas ao mercado doméstico. O impacto pode aparecer tanto no preço de aquisição dos produtos quanto nos custos logísticos envolvidos em sua distribuição.

A ureia registrou alta de 70% nos momentos mais críticos da guerra. No mesmo período, o nitrato subiu 63%, enquanto o sulfato de amônio acumulou elevação de 40%, segundo os dados apresentados pelo analista.

O encarecimento dos insumos também afeta as decisões de compra. Com a relação de troca menos favorável, agricultores podem adiar aquisições, reduzir aplicações ou rever o pacote tecnológico previsto para a safra. Essas escolhas, porém, precisam considerar os riscos de perda de produtividade decorrentes de uma adubação inadequada.

Enxofre acumula alta de 1.800% e pressiona a produção nacional

A pressão sobre os custos não se limita aos fertilizantes nitrogenados. O enxofre, matéria-prima fundamental para a fabricação de fertilizantes fosfatados, acumulou alta de 1.800% entre 2020 e 2026, conforme os números apresentados no seminário.

O avanço dos preços elevou os custos industriais e comprometeu a viabilidade de parte da produção brasileira. De acordo com Pernías, fábricas de superfosfato simples (SSP) chegaram a interromper suas operações por não conseguirem absorver o encarecimento da matéria-prima.

O episódio evidencia como a dependência de insumos importados pode afetar também as empresas que fabricam fertilizantes no Brasil. Mesmo quando a transformação industrial ocorre no país, o custo final continua sujeito às condições de oferta e demanda do mercado internacional.

A interrupção de unidades produtivas pode restringir a disponibilidade de determinados produtos e ampliar a exposição dos agricultores às oscilações externas. Os efeitos dependem, entre outros fatores, da duração das paralisações, dos estoques disponíveis e da capacidade de substituição entre fertilizantes.

Demanda brasileira por nitrogenados perde força

O aumento dos preços também se refletiu no comportamento dos compradores. Segundo os dados apresentados por Pernías, o Brasil iniciou 2026 com importações de nitrogênio inferiores às registradas no mesmo período de 2025.

A retração ocorre em um contexto de deterioração da relação de troca e de maior cautela na aquisição de insumos. Quando o fertilizante consome uma parcela maior da receita esperada com a colheita, o produtor tende a reavaliar o volume e o momento das compras.

Essa reação pode aliviar parte da necessidade imediata de desembolso, mas também cria desafios para o planejamento das lavouras. A decisão de reduzir a adubação sem considerar as necessidades nutricionais da cultura pode comprometer o potencial produtivo e, consequentemente, a receita obtida na colheita.

Por isso, o desafio dos agricultores é equilibrar o custo dos insumos, a produtividade esperada e o preço provável de comercialização dos grãos.

Milho, soja e algodão enfrentam cenários diferentes

A alta dos fertilizantes não afeta todas as culturas da mesma maneira. A rentabilidade depende da estrutura de custos de cada lavoura, do nível tecnológico empregado, da produtividade, dos preços de venda e das condições de comercialização.

Milho tem margens pressionadas

No milho, a situação é particularmente delicada. Considerando uma produtividade média de 110 sacas por hectare em uma lavoura com alto nível tecnológico, Pernías avaliou que a conta praticamente não fecha diante das condições de custos observadas.

O resultado mostra como a combinação entre fertilizantes caros e necessidade de elevados investimentos pode reduzir a margem disponível ao produtor. Mesmo uma produtividade considerada expressiva não garante rentabilidade quando os custos avançam mais rapidamente que a receita.

A situação exige atenção ao planejamento financeiro, sobretudo para quem comprou insumos nos períodos de preços mais elevados e ainda precisa definir a comercialização de parte da produção.

Soja registra melhora moderada

Na soja, a reação recente das cotações trouxe algum alívio para a rentabilidade. A valorização do grão pode melhorar a relação entre receita e custos, embora não elimine os efeitos do encarecimento dos fertilizantes.

O resultado final dependerá do preço efetivamente obtido pelo produtor, da produtividade alcançada e das despesas acumuladas ao longo do ciclo. A recuperação das cotações, portanto, representa uma melhora potencial, e não uma garantia de margens positivas para todas as propriedades.

Algodão apresenta sinais mais favoráveis

O algodão registrou rentabilidade positiva nos dois meses anteriores ao seminário, segundo a avaliação de Pernías. O movimento indica uma condição relativamente mais favorável para a cultura e pode contribuir para melhorar as perspectivas dos produtores.

Ainda assim, a continuidade desse resultado dependerá das condições de mercado e da capacidade de comercialização. Mudanças nas cotações ou nos custos dos insumos podem alterar rapidamente as margens, especialmente em atividades que exigem investimentos elevados por hectare.

Como os produtores podem reduzir os riscos financeiros?

Em um ambiente de custos elevados e incerteza internacional, o acompanhamento da relação de troca se torna uma ferramenta importante para as decisões comerciais. O produtor precisa avaliar não apenas o preço nominal dos fertilizantes, mas também quanto da produção será necessário para pagar cada insumo.

Algumas medidas podem ajudar a organizar o planejamento:

  • Calcular o custo por hectare: reunir despesas com fertilizantes, sementes, defensivos, máquinas, transporte e financiamento para estimar o custo total da lavoura.
  • Revisar a relação de troca: comparar os preços dos grãos com os dos insumos para identificar quanto da produção será comprometido com a adubação.
  • Avaliar o momento de comercialização: analisar as alternativas de venda disponíveis e o preço necessário para cobrir os custos e atingir a margem desejada.
  • Planejar as compras de insumos: comparar fornecedores, condições de pagamento, prazos de entrega e alternativas comerciais antes de fechar novos contratos.
  • Preservar o manejo agronômico: discutir ajustes de adubação com um profissional habilitado, evitando cortes indiscriminados que possam prejudicar a produtividade.

Essas medidas não eliminam a exposição aos preços internacionais, mas podem ajudar a reduzir decisões tomadas sem uma visão completa dos custos e das receitas esperadas.

Perspectivas seguem condicionadas à turbulência internacional

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Imagem: Getty Images/wsfurlan

A evolução dos preços dos fertilizantes continuará ligada ao comportamento do mercado internacional, aos custos de transporte, à disponibilidade de matérias-primas e aos desdobramentos do conflito no Oriente Médio.

Para o produtor brasileiro, a combinação entre insumos caros e oscilações nas cotações agrícolas mantém a rentabilidade sob pressão. O impacto, entretanto, será diferente conforme a cultura, a produtividade obtida e as condições de compra e venda adotadas em cada propriedade.

Ao avaliar o cenário, Pernías ressaltou que não há motivo para assumir uma melhora generalizada nas condições do mercado diante da turbulência internacional. A comercialização dos grãos e o preço efetivamente fixado pelos agricultores serão determinantes para os resultados financeiros.

Diante desse quadro, acompanhar os custos por hectare, revisar a relação de troca e planejar as vendas com base em cenários realistas são medidas essenciais para proteger as margens. Mais do que observar isoladamente o preço dos fertilizantes, o produtor precisa avaliar quanto a lavoura efetivamente poderá gerar de receita depois de pagar todos os custos.

Conclusão

Diante da alta dos fertilizantes e das incertezas no mercado internacional, a rentabilidade do produtor rural brasileiro dependerá cada vez mais do controle dos custos e das estratégias de comercialização. Embora a reação dos preços da soja e o desempenho recente do algodão indiquem algum alívio, o cenário segue desafiador, especialmente para o milho. A evolução do conflito no Oriente Médio e o comportamento das cotações agrícolas serão decisivos para os próximos meses. Nesse contexto, acompanhar a relação de troca, planejar a compra de insumos e avaliar o melhor momento para vender a produção serão medidas fundamentais para reduzir os riscos e preservar as margens das próximas safras.

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