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Endividamento e imagem negativa estão entre desafios que o agro quer ver enfrentados pelo próximo governo

Avatar de Melissa Barbosa Melissa Barbosa · · 12 min de leitura
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O próximo presidente do Brasil terá de lidar com desafios do agronegócio que dificilmente serão resolvidos durante um único mandato. Financiamento, seguro rural, clima extremo, dependência de insumos importados, infraestrutura e acesso a mercados internacionais formam uma agenda de longo prazo para um dos setores mais relevantes da economia brasileira.

A avaliação é compartilhada por especialistas ouvidos pelo g1 e aparece também em uma proposta da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), que defende cinco políticas públicas para atacar problemas estruturais do setor.

Embora parte dessas questões já esteja no radar do governo, os especialistas apontam que ainda existem dificuldades de execução, falta de escala e necessidade de investimentos privados. Em alguns casos, os resultados dependerão de políticas que atravessem diferentes governos.

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Quais são os cinco principais desafios do agronegócio?

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Imagem: Getty Images/wsfurlan

A Abag propõe uma agenda dividida em cinco frentes:

  • financiamento, seguro rural e proteção contra eventos climáticos;
  • fortalecimento das cadeias estratégicas e redução da dependência de insumos importados;
  • infraestrutura e logística;
  • comunicação e valorização da agroindústria;
  • inserção internacional e defesa da competitividade brasileira.

Os problemas estão relacionados. Uma safra prejudicada pelo clima, por exemplo, pode aumentar o endividamento do produtor, reduzir investimentos e dificultar o acesso ao crédito. Ao mesmo tempo, custos logísticos elevados e dependência de insumos importados pressionam as margens do setor.

Crédito rural e seguro ainda são obstáculos para produtores

O custo do financiamento aparece entre as principais preocupações para o agronegócio. Segundo Felippe Serigati, pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro), o aumento do endividamento e dos pedidos de recuperação judicial tem levado instituições financeiras a adotar uma postura mais seletiva na concessão de crédito.

Leandro Gilio, pesquisador do Insper Agro Global, relaciona parte desse problema às perdas acumuladas em safras sucessivas. Eventos climáticos, juros elevados e custos maiores de produção reduziram a capacidade financeira de muitos produtores.

O efeito pode ultrapassar a situação financeira de uma propriedade. Quando o produtor perde capacidade de investimento, também pode reduzir a compra de máquinas, tecnologia, insumos e outros itens necessários para a próxima safra.

Outro ponto crítico é o seguro rural. De acordo com Gilio, apenas cerca de 3% da produção agropecuária brasileira está protegida por esse tipo de cobertura.

Nova lei muda regras do seguro rural

Uma mudança recente pode alterar parte desse cenário. A Lei 15.526/2026, publicada no Diário Oficial da União em 30 de setembro, estabelece um novo marco regulatório para o seguro rural.

A legislação também regulamenta o Fundo de Catástrofe, destinado a situações de perdas provocadas por eventos climáticos, e determina que as despesas relacionadas à subvenção do prêmio do seguro rural tenham caráter obrigatório.

A mudança busca dar maior previsibilidade ao financiamento da proteção contra perdas. Antes, os recursos destinados à subvenção poderiam sofrer contingenciamento orçamentário.

Para os especialistas, porém, a legislação não elimina sozinha os problemas de acesso ao crédito. A recuperação da saúde financeira dos produtores e o reequilíbrio das carteiras das instituições financeiras também serão necessários.

Dependência de fertilizantes deixa o Brasil exposto a crises externas

Outro desafio está na dependência brasileira de insumos produzidos no exterior.

O país importa aproximadamente 80% dos fertilizantes utilizados na produção agrícola. Isso deixa o setor vulnerável a conflitos internacionais, problemas logísticos, oscilações cambiais e interrupções nas cadeias globais de fornecimento.

O problema ganhou ainda mais atenção depois das crises provocadas pela pandemia e pela guerra na Ucrânia, que mostraram como conflitos internacionais podem afetar rapidamente os preços e a disponibilidade de insumos agrícolas.

O Brasil possui o Plano Nacional de Fertilizantes, criado para ampliar a produção nacional e diminuir a vulnerabilidade externa. Os resultados, contudo, dependem de investimentos que podem levar anos para amadurecer.

Carlos Eduardo de Freitas Vian, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), observa que o país possui algumas matérias-primas, mas não dispõe de reservas suficientes para eliminar completamente a necessidade de importações.

Por isso, uma estratégia de longo prazo não significa necessariamente produzir tudo dentro do Brasil. A diversificação dos fornecedores também pode reduzir o risco de interrupções.

Máquinas agrícolas também dependem de componentes estrangeiros

A discussão sobre autonomia não se limita aos fertilizantes.

A Abag também defende o fortalecimento da fabricação de máquinas e equipamentos no Brasil. Vian, porém, pondera que o país já possui uma indústria relevante e exporta máquinas agrícolas.

Na avaliação do professor, uma dependência mais difícil de resolver está nos componentes eletrônicos, como chips. Produzir semicondutores em larga escala no país exigiria investimentos muito elevados e uma demanda interna compatível.

Outro ponto levantado pela Abag é o chamado passivo regulatório, relacionado ao tempo necessário para aprovação de novas tecnologias.

O tema envolve um equilíbrio delicado. A redução da burocracia pode acelerar a chegada de tecnologias ao produtor, mas processos de avaliação também precisam garantir segurança ambiental e proteção à saúde.

Infraestrutura não acompanha o crescimento da produção

O aumento da produção agrícola brasileira também pressiona estradas, ferrovias, portos, armazéns e sistemas de comunicação.

Serigati avalia que a infraestrutura é um dos problemas mais difíceis de solucionar em apenas quatro anos. O crescimento da produção ocorre em ritmo que exige investimentos muito superiores à capacidade de resposta de parte da estrutura logística existente.

Entre os gargalos estão a baixa capacidade de armazenamento e as condições de algumas rodovias. Quando a produção não encontra estrutura suficiente para ser armazenada ou transportada, os custos aumentam e parte da margem do produtor pode ser comprometida.

Ferrovias, hidrovias e armazenagem podem reduzir custos

Uma das alternativas apontadas pelos especialistas é ampliar a integração entre diferentes meios de transporte.

O Brasil ainda depende fortemente das rodovias para movimentar sua produção. A expansão de ferrovias e hidrovias poderia reduzir custos em trajetos de longa distância, especialmente para commodities agrícolas.

A armazenagem é outro ponto estratégico. Uma estrutura insuficiente pode obrigar o produtor a vender a produção em momentos de preços menos favoráveis, além de aumentar o risco de perdas.

O processo de licenciamento de grandes obras também é citado como um entrave quando projetos já estruturados permanecem aguardando autorizações.

Para financiar a expansão da infraestrutura, os especialistas defendem uma combinação de recursos públicos e privados, incluindo concessões, privatizações e parcerias público-privadas.

Internet no campo também virou uma questão de infraestrutura

A infraestrutura necessária para o agronegócio moderno não se limita ao transporte físico.

Máquinas conectadas, sistemas de monitoramento, agricultura de precisão e plataformas digitais dependem de acesso à internet de qualidade.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 1,3 milhão de domicílios rurais não tinham acesso à internet em 2024, o equivalente a cerca de 15% do total.

Para Vian, não basta disponibilizar equipamentos conectados se a infraestrutura de comunicação não permite transmitir os dados produzidos no campo.

O problema exige investimentos que dificilmente seriam concluídos durante um único mandato presidencial. Por isso, os especialistas defendem políticas de Estado que ofereçam segurança jurídica para estimular a participação do setor privado.

Agronegócio também enfrenta um desafio de imagem

A quarta frente proposta pela Abag envolve comunicação e valorização da agroindústria.

O objetivo não seria apenas promover o setor, mas melhorar a compreensão da sociedade sobre sua contribuição para a segurança alimentar, a economia, a inovação e a sustentabilidade.

Vian avalia que o Brasil precisa apresentar melhor suas vantagens competitivas, mas também reconhecer e enfrentar problemas existentes.

Isso inclui questões ambientais e sociais que influenciam a percepção dos consumidores e compradores estrangeiros.

Marca brasileira pode agregar valor aos produtos

Gilio cita o café colombiano como exemplo de produto associado internacionalmente à sua origem.

Para o pesquisador, o Brasil possui produtos agrícolas reconhecidos mundialmente, mas poderia trabalhar mais na construção de uma identidade associada à qualidade e à origem.

A estratégia, contudo, não depende exclusivamente do governo. Associações, empresas, produtores e instituições de pesquisa também precisam participar da construção dessa imagem.

O cumprimento das próprias regras ambientais e de combate ao desmatamento também é apontado como parte da estratégia. A reputação internacional depende não apenas da comunicação, mas da capacidade de demonstrar resultados.

Brasil precisa ampliar e proteger seus mercados no exterior

A quinta frente está relacionada ao comércio internacional.

O Brasil é uma potência agrícola e possui grande presença no mercado global, mas os especialistas avaliam que o país precisa trabalhar para reduzir sua exposição a mudanças repentinas nas regras comerciais.

Tarifas, exigências sanitárias, barreiras não tarifárias e mudanças regulatórias podem dificultar a entrada de produtos brasileiros em determinados mercados.

Para Gilio, a construção de acordos comerciais de longo prazo poderia oferecer maior previsibilidade aos exportadores e também estimular investimentos.

A relação com a China é particularmente relevante por ser um dos principais destinos dos produtos brasileiros.

Antecipação às novas regras pode fazer diferença

Outro problema é a necessidade de acompanhar com antecedência as mudanças regulatórias dos países compradores.

O exemplo citado pelos especialistas envolve restrições da União Europeia à utilização de determinados antimicrobianos na produção animal. A avaliação é que o Brasil precisa antecipar tendências regulatórias, em vez de agir somente depois que uma regra já foi oficialmente implementada.

Isso exige maior integração entre governo, setor produtivo, instituições de pesquisa e entidades representativas.

A concentração das exportações em poucos mercados também representa um risco. Quanto mais dependente de determinados compradores, maior pode ser o impacto de uma mudança comercial, sanitária ou geopolítica.

O que o próximo presidente pode fazer?

Os especialistas não apontam uma única medida capaz de resolver os problemas do agronegócio. A agenda envolve políticas diferentes e, principalmente, continuidade.

Entre as principais medidas estão:

  • ampliar e dar previsibilidade ao seguro rural;
  • melhorar o acesso ao crédito;
  • fortalecer mecanismos de proteção contra eventos climáticos;
  • diversificar fornecedores de fertilizantes e outros insumos;
  • estimular investimentos na produção nacional de componentes estratégicos;
  • ampliar ferrovias, hidrovias e capacidade de armazenagem;
  • melhorar a conectividade nas áreas rurais;
  • acelerar processos administrativos sem comprometer a segurança ambiental;
  • fortalecer a presença brasileira nas negociações internacionais;
  • diversificar os mercados de exportação;
  • melhorar a comunicação sobre os produtos brasileiros;
  • estimular investimentos privados em infraestrutura.

A dificuldade está justamente na duração dessas políticas. Obras de infraestrutura, desenvolvimento de novas fontes de fertilizantes, expansão da conectividade e abertura de mercados não produzem resultados imediatos.

Por que esses problemas não serão resolvidos em quatro anos?

O agronegócio depende de uma cadeia extensa, que começa antes do plantio e termina no mercado consumidor. Crédito, máquinas, fertilizantes, energia, transporte, armazenamento, tecnologia e comércio exterior estão interligados.

Por isso, mudanças de governo não interrompem apenas um projeto específico: podem afetar investimentos planejados para períodos muito mais longos.

A infraestrutura é um exemplo evidente. Uma ferrovia, uma hidrovia ou um grande terminal de armazenagem pode exigir anos entre planejamento, licenciamento, financiamento, construção e operação.

O mesmo ocorre com a indústria de fertilizantes. Mesmo quando existem recursos e projetos, novas unidades industriais dependem de estudos, licenças, investimentos e disponibilidade de matéria-prima.

A questão climática adiciona outra camada de complexidade. Eventos extremos podem ocorrer em qualquer safra e aumentar simultaneamente a necessidade de seguro, crédito e políticas de recuperação.

O que está em jogo para o produtor e para o consumidor?

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Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

A capacidade do Brasil de solucionar esses gargalos influencia diretamente a competitividade do produtor.

Quando o transporte fica mais caro, o custo chega à cadeia produtiva. Quando o fertilizante sobe de preço, a margem do agricultor é pressionada. Quando uma seca ou enchente destrói uma safra sem cobertura adequada, o produtor pode enfrentar dificuldades financeiras durante anos.

Para o consumidor, os efeitos podem aparecer nos preços dos alimentos e na oferta de determinados produtos.

Ao mesmo tempo, um agronegócio mais produtivo e competitivo pode ampliar as exportações, gerar investimentos e contribuir para a atividade econômica.

O desafio do próximo governo, portanto, não será apenas aumentar a produção. Será criar condições para que o setor consiga crescer com mais previsibilidade, infraestrutura, proteção financeira, diversificação de mercados e capacidade de enfrentar eventos climáticos e crises internacionais.

Conclusão

O próximo presidente encontrará um agronegócio forte e estratégico para a economia brasileira, mas também diante de problemas que exigem planejamento para além de um mandato. Melhorar o acesso ao crédito, ampliar o seguro rural, reduzir vulnerabilidades na importação de insumos, modernizar a infraestrutura e fortalecer a presença do Brasil no mercado internacional são medidas que dependem de continuidade e investimentos.

Mais do que criar novas iniciativas, o desafio será transformar políticas pontuais em estratégias de Estado, com participação do poder público e da iniciativa privada. A capacidade de avançar nessas áreas terá impacto não apenas sobre a competitividade dos produtores, mas também sobre os preços dos alimentos, as exportações e o crescimento econômico do país nos próximos anos.

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