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”Taxa Selic: argumentos contra alta na próxima reunião do Banco Central

Alta da Selic não resolve expectativas desancoradas, diz análise que contesta argumento de Nilson Teixeira sobre credibilidade do Banco Central.

Melissa BarbosaPor Melissa Barbosa6 min de leitura
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O debate sobre a condução da política monetária no Brasil voltou a ganhar força após o economista Nilson Teixeira publicar no X (antigo Twitter) a opinião de que o Banco Central deveria aumentar a taxa Selic nas próximas reuniões. Segundo ele, a desancoragem das expectativas de inflação em todos os prazos atesta a perda de credibilidade da autoridade monetária, exigindo um aperto monetário para corrigir essa percepção de mercado.

Contudo, a proposta de elevar os juros novamente encontra resistência. Entre os críticos está um economista que respondeu ao post de Teixeira diretamente, argumentando que esse diagnóstico está equivocado. Em vez de atacar o problema por meio da política monetária, ele defende que a raiz da desancoragem está nas fragilidades fiscais do país — e não em uma eventual falta de compromisso do Banco Central com suas metas.

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O que é desancoragem das expectativas?

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Imagem: Rafastockbr/Shutterstock

A desancoragem das expectativas ocorre quando os agentes econômicos deixam de acreditar que a inflação ficará dentro da meta no futuro. Em uma estrutura ideal, quando há um choque inflacionário, espera-se que a inflação de curto prazo suba, mas que, com a ação do Banco Central, a inflação futura convirja de volta à meta.

Porém, se as expectativas de médio e longo prazo permanecem elevadas, isso sinaliza ao mercado que os mecanismos de controle — como os juros — não estão sendo eficazes. É esse o pano de fundo da argumentação de Teixeira: se o mercado não acredita que a inflação retornará à meta, então o BC precisa ser mais agressivo.

Mas por que isso pode ser um erro?

A crítica a essa linha de pensamento não nega o problema da desancoragem. O que está em jogo é a sua causa — e, por consequência, a melhor forma de resposta.

Segundo o economista que contestou Teixeira, a estrutura a termo das expectativas de inflação reflete não apenas a ação presente ou futura do Banco Central, mas também o contexto fiscal. Ou seja, mesmo que o BC aja corretamente, se o mercado acreditar que o governo não conseguirá equilibrar as contas públicas, as expectativas de inflação continuarão desancoradas.

Três caminhos para resolver o problema fiscal

Ajuste fiscal genuíno

A primeira solução — e mais ortodoxa — seria realizar um ajuste fiscal. Isso exige corte de gastos e/ou aumento de receitas suficientes para gerar superávits primários robustos e duradouros. Essa solução criaria uma trajetória crível para a dívida pública, o que ajudaria a ancorar expectativas.

O problema é que, atualmente, o Brasil parece longe desse cenário. O arcabouço fiscal aprovado não teve sustentação política para ser implementado com rigor. E com um governo impopular prestes a enfrentar eleições, as chances de cortes estruturais de gastos ou aumento de tributos são mínimas.

Repressão financeira

A segunda via é a repressão financeira. Nessa estratégia, o governo força os investidores a aceitarem financiar a dívida a taxas mais baixas, muitas vezes por meio de regulações ou impostos. Essa política exige controle de capitais para evitar fuga de recursos.

Embora tenha havido indícios de tentativas nessa direção — como o aumento do IOF sobre investimentos no exterior —, a reação negativa do Congresso e da sociedade civil indica que esse caminho é politicamente inviável no Brasil atual.

Alta inflacionária não precificada

Por fim, resta a saída inflacionária. Se o mercado perder totalmente a esperança de um ajuste fiscal, a inflação pode ser usada como ferramenta (ainda que indesejada) para reduzir a razão dívida/PIB. Isso acontece quando o crescimento nominal da economia supera o crescimento da dívida — como ocorreu durante a pandemia.

Nesse cenário, a inflação sobe, reduz o valor real da dívida, e ajuda a gerar superávits primários “artificiais”. O Banco Central pode reagir a isso, mas muitas vezes com atraso, como se viu entre 2020 e 2021.

E qual o papel do Banco Central diante disso?

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Imagem: Jo Galvao / shutterstock.com

Política monetária tem limites

É fundamental entender que o Banco Central, ainda que independente, tem seus limites. Ele não pode, por si só, corrigir desequilíbrios fiscais. Tampouco pode criar confiança onde há descrédito da política fiscal. Aumentar a Selic nessas condições pode, inclusive, ser contraproducente.

Recessão agravaria problema fiscal

Ao subir os juros, o Banco Central esfria a atividade econômica, reduz o consumo e o investimento — o que prejudica a arrecadação do governo. Isso pode agravar o déficit fiscal e piorar, em vez de melhorar, as expectativas de inflação.

Dominância fiscal: conceito relevante, mas gradual

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Embora o Brasil não esteja em plena dominância fiscal — situação na qual a política monetária perde sua eficácia —, o país pode estar caminhando nessa direção. A dominância fiscal não é um ponto fixo, e sim um contínuo. Quanto mais instável o ambiente fiscal, menor a potência da política monetária.

Expectativas e assimetria inflacionária

A desconfiança com o futuro fiscal gera um viés assimétrico nas expectativas inflacionárias. Em outras palavras, o mercado vê maior probabilidade de a inflação explodir do que de cair abaixo da meta.

Esse viés desloca a média esperada da inflação para cima — mesmo que o cenário-base ainda seja de controle. Não se trata de simples falta de credibilidade do BC, mas de um risco fiscal que afeta toda a estrutura de preços da economia.

E o que deve fazer o Copom?

Política monetária não é panaceia

O Comitê de Política Monetária (Copom) enfrenta um dilema difícil. De um lado, há a pressão para sinalizar compromisso com o controle da inflação. De outro, está o risco de comprometer a recuperação econômica e piorar ainda mais o desequilíbrio fiscal.

O aumento da Selic, como defendido por Nilson Teixeira, pode até sinalizar força. Mas sem um plano fiscal crível, essa força será inócua. E o risco de jogar a economia em recessão — algo que também desancora expectativas, porém por outro motivo — é real.

Cenário até 2026: turbulência à frente

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Imagem: Freepik e Canva

A dificuldade de tomar decisões de política monetária nesse ambiente de incerteza fiscal coloca os membros do Copom em uma posição extremamente delicada. Até pelo menos o fim de 2026, o Brasil enfrentará um cenário de altos “trade-offs” econômicos. Não há solução fácil, e insistir em instrumentos monetários como panaceia para problemas fiscais pode agravar a instabilidade.

Conclusão

A desancoragem das expectativas de inflação no Brasil não é, necessariamente, reflexo da ineficiência do Banco Central ou da falta de credibilidade de sua atuação. Em vez disso, ela parece espelhar uma percepção generalizada de que o país não conseguirá, no curto prazo, realizar o ajuste fiscal necessário.

Ignorar esse pano de fundo e responder com aumento da Selic pode ser um erro grave. O real desafio está no campo fiscal, e é lá que reside a chave para restaurar a confiança e ancorar novamente as expectativas do mercado.

Melissa Barbosa

Autor

Melissa Barbosa

Melissa Barbosa é Redatora SEO e Designer no portal Seu Crédito Digital. Estudante de Jornalismo, possui sólida experiência em Marketing de Conteúdo, com foco em estratégias de SEO, comunicação digital e identidade visual. Apaixonada pelo universo da informação e da criatividade, une técnica e sensibilidade para transformar dados e tendências em conteúdos relevantes, que ajudam o público a entender melhor o cenário econômico, os benefícios sociais e os serviços digitais que impactam o dia a dia do brasileiro.

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