A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) entra em uma nova fase de regulação do setor de internet no Brasil. A partir de 30, a autarquia passa a fiscalizar provedores de internet (ISPs) que não solicitaram a outorga do Serviço de Comunicação Multimídia (SCM). A medida marca o fim da tolerância com a informalidade no setor e coloca mais de 5 mil empresas em situação de risco.
5,3 mil provedores irregulares: Anatel dá ultimato e pode tirar sua internet do ar
Anatel passa a fiscalizar provedores sem outorga do SCM a partir de 30/10. Mais de 5 mil ISPs correm risco de multas e bloqueio de serviços.
O movimento decorre do encerramento definitivo da política de dispensa de outorga — mecanismo que, desde 2017, permitia que pequenas operadoras com menos de 5 mil clientes prestassem o serviço mediante simples cadastro na Anatel. Agora, todas as empresas devem obter autorização formal para continuar operando legalmente.
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O que muda com a nova exigência da Anatel?
A partir de agora, qualquer provedor de internet — independentemente do porte — deve possuir autorização formal de SCM junto à Anatel. Aquelas que não fizerem a solicitação serão tratadas como clandestinas, o que pode levar a:
- Multas elevadas;
- Interrupção da prestação do serviço;
- Bloqueio de acesso à infraestrutura de atacado (backhaul e links);
- Risco de responsabilização criminal, uma vez que a prestação não autorizada é considerada crime segundo a legislação vigente.
Segundo a superintendente de fiscalização da Anatel, Gesiléa Teles, a partir de 30 de outubro o sistema Mosaico da agência excluirá automaticamente os cadastros que estavam sob dispensa. Isso significa que, no dia seguinte ao fim do prazo (29/10), quem não iniciou o processo já estará em situação irregular.
Números da regularização: mais de 5 mil ISPs em risco
O processo de regularização começou em junho de 2025, e desde então a Anatel tem feito um esforço junto ao setor para ampliar a base de autorizadas. Segundo dados divulgados em evento da Abrint (Associação Brasileira de Provedores de Internet e Telecomunicações), o cenário é o seguinte:
- 16.000 ISPs já estão devidamente outorgados;
- 1.500 pedidos estão em análise;
- 5.357 empresas ainda não deram entrada no pedido de outorga até o dia 28 de outubro.
Essas últimas correm o risco de ser enquadradas como prestadoras clandestinas, o que pode comprometer tanto a operação quanto a imagem junto a parceiros e consumidores.
Por que a Anatel está exigindo a outorga de todos os ISPs?
Fim da dispensa e avanço na formalização do setor
A mudança faz parte da atualização do regulamento do SCM, que extinguiu a dispensa para pequenas operadoras. A Anatel alega que, apesar de importante para estimular o crescimento do setor, a política de dispensa criou uma lacuna de controle e fiscalização, dificultando:
- Mapeamento da cobertura de banda larga no país;
- Planejamento de políticas públicas de conectividade;
- Coleta de dados sobre acessos e investimentos;
- Combate à informalidade, evasão de tributos e prestação irregular do serviço.
“Não estamos fazendo caça às bruxas. Defendemos a competição e a presença de pequenos operadores, mas é preciso que todos estejam dentro das regras”, disse Gesiléa Teles.
O que acontece com quem não se regularizar?

A Anatel adotará medidas imediatas contra os provedores que não entrarem com o pedido até 29 de outubro:
1. Exclusão automática do cadastro
A partir de 30/10, o sistema Mosaico removerá as empresas que estavam operando com dispensa e não deram entrada na solicitação.
2. Enquadramento como prestador clandestino
Segundo o artigo 183 da Lei Geral de Telecomunicações (LGT), prestar serviços de telecomunicações sem autorização é crime, sujeito a detenção de 2 a 4 anos, além de multa.
3. Fiscalização presencial
Equipes da Anatel iniciarão ações de campo para identificar prestadores ativos sem outorga, com aplicação de sanções administrativas e medidas de bloqueio.
4. Notificação a atacadistas
As operadoras que fornecem infraestrutura de rede (backhaul, links dedicados) serão proibidas de manter contratos com ISPs clandestinos.
Efeitos para o consumidor final
Caso os ISPs irregulares tenham seus serviços interrompidos, os consumidores correm o risco de ficar sem acesso à internet, especialmente em regiões onde pequenos provedores são os únicos operadores locais.
Para evitar esse cenário, a Abrint e a Anatel orientam os clientes a:
- Verificar se o provedor está regularizado;
- Cobrar transparência dos contratos de prestação de serviço;
- Denunciar empresas que operam sem CNPJ ou sem número de SCM válido.
Declaração de dados e combate à informalidade
Além da outorga, os provedores precisam enviar regularmente dados sobre sua atuação à Anatel, como:
- Número de assinantes por município;
- Infraestrutura de rede instalada;
- Capacidade de tráfego.
Por que isso é importante?
Esses dados são usados para:
- Formular políticas públicas de inclusão digital;
- Planejar leilões de frequências e programas como o Wi-Fi Brasil;
- Evitar sobreposição de investimentos com recursos públicos.
O problema, segundo a superintendente da Anatel, é que:
“Mais de 41% das empresas outorgadas e mais de 55% das dispensadas não estavam enviando os dados obrigatórios.”
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A ausência dessas informações pode levar o governo a considerar determinada região como carente de conectividade, o que atrai concorrência financiada com recursos públicos, prejudicando os operadores locais.
Risco de descontinuidade e sanções
Gabriel Santos, analista da Abrint, alertou:
“Empresas que não pedirem a outorga, além de ilegais, estarão sujeitas à suspensão dos serviços, multas e perda da base de clientes. O risco é real.”
Ele destaca que muitas dessas empresas estavam despreparadas para a nova regra, seja por desinformação ou por dificuldades técnicas em lidar com o sistema Mosaico.
Como regularizar sua empresa junto à Anatel
1. Acesso ao sistema Mosaico
A solicitação de outorga deve ser feita no portal mosaico.anatel.gov.br. O processo exige:
- Cadastro da empresa;
- Envio de documentos (contrato social, CNPJ, certidões);
- Indicação da área de atuação;
- Pagamento da Taxa de Fiscalização de Instalação (TFI).
2. Prazo para aprovação
O prazo médio de análise varia de 15 a 60 dias, dependendo da documentação apresentada. Após a aprovação, o provedor recebe um número de autorização SCM, obrigatório para operar legalmente.
3. Atualização cadastral periódica
Após a obtenção da outorga, a empresa deve manter seus dados atualizados e enviar relatórios regulares à Anatel.
Reação do setor e próximos passos

A Abrint, principal entidade representativa dos pequenos provedores, considera a medida positiva para o amadurecimento do setor.
“Queremos que todos estejam conscientes de suas obrigações. Isso profissionaliza o mercado e dá mais segurança jurídica às empresas sérias”, disse Basílio Perez, conselheiro da associação.
A Anatel promete:
- Continuar apoiando os ISPs que iniciarem o processo;
- Fornecer suporte técnico e orientações através dos seus canais oficiais;
- Aplicar sanções graduais, privilegiando empresas que demonstrarem intenção de se regularizar.
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital
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