A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) causou estranheza no setor de tecnologia nesta semana ao se manifestar publicamente contra a oferta de internet via satélite diretamente em celulares por parte da Starlink, braço da SpaceX de Elon Musk. A declaração veio mesmo sem que haja qualquer pedido formal de autorização ou processo regulatório em curso no Brasil para o serviço conhecido como direct-to-device (D2D).
Anatel se antecipa e bloqueia serviço de internet ainda não disponível no país
Anatel nega autorização para serviço de internet da Starlink direto em celulares no Brasil, mesmo sem processo em análise.
O pronunciamento gerou questionamentos entre especialistas, que consideraram a postura da Anatel precipitada e desalinhada com o ambiente de inovação tecnológica. Isso porque o serviço ainda está em fase de testes em outros países e sequer chegou a ser oficialmente anunciado ou solicitado no Brasil. Nos bastidores, a leitura é de que a agência agiu para frear rumores nas redes sociais e evitar expectativas infundadas sobre uma eventual liberação.
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O que é o serviço direct-to-device da Starlink?
Conectividade direta sem torres
A tecnologia direct-to-device permite que celulares convencionais se conectem diretamente a satélites em órbita, dispensando a necessidade de torres terrestres de transmissão de sinal. A proposta é ampliar a cobertura para zonas rurais, regiões remotas e áreas de difícil acesso, onde a infraestrutura tradicional de telecomunicações é limitada ou inexistente.
O serviço começou a ser testado em países como Estados Unidos e Nova Zelândia, em parceria com operadoras locais, como T-Mobile e Spark. A promessa é levar conectividade básica — como mensagens de texto e chamadas — para qualquer lugar do mundo com visão do céu aberto.
Como funcionaria no Brasil
No Brasil, um serviço como esse poderia ser particularmente útil em locais como:
- Regiões da Amazônia Legal
- Terras indígenas e comunidades ribeirinhas
- Pantanal e sertões nordestinos
- Áreas de fronteira com baixa densidade populacional
Apesar de seu potencial inclusivo e estratégico, o modelo ainda enfrenta obstáculos regulatórios e técnicos, como:
- Definição de espectro e faixas de frequência
- Licenciamento das operadoras parceiras
- Regras de qualidade e interoperabilidade
A declaração da Anatel e o efeito imediato
O que a agência disse
Na terça-feira (20), a Anatel divulgou uma nota oficial esclarecendo que a Starlink não está autorizada a oferecer internet direta em celulares no país. O comunicado cita que “não há qualquer autorização vigente, tampouco solicitação em análise que vise a prestação desse serviço”.
A agência também reforçou que qualquer modelo de conexão direta com satélite em dispositivos móveis depende de uma série de avaliações técnicas e regulatórias, incluindo atribuição de espectro, interferência com serviços existentes e parcerias com operadoras licenciadas.
Repercussão no setor
Para especialistas, a manifestação da Anatel foi vista como uma tentativa de controlar a narrativa antes que a expectativa sobre o serviço gerasse pressões políticas ou populares. Contudo, a ação também foi criticada por parecer hostil à inovação e por transmitir uma imagem de barreira regulatória antecipada, em vez de abertura para o diálogo.
“A agência poderia ter apenas reafirmado que todo serviço novo passa por regulação. O que surpreende é a forma como se antecipou para descartar algo que nem sequer está em pauta formalmente”, comenta um analista do setor de telecomunicações.
O ambiente regulatório da Anatel para novas tecnologias

Ambiente de testes está aberto
Curiosamente, a própria Anatel mantém aberto desde 2022 um ambiente regulatório experimental que permite a realização de testes com novas tecnologias de conectividade, incluindo internet via satélite.
Esse ambiente, conhecido como sandbox regulatório, foi desenhado para promover inovações sob supervisão técnica, reduzindo entraves burocráticos e acelerando o processo de análise de tecnologias emergentes.
A Starlink, inclusive, já opera regularmente no Brasil para fornecer internet residencial via satélite em áreas urbanas e rurais, utilizando terminais fixos e com licenciamento em vigor.
Contradição no discurso?
A manifestação recente da Anatel parece contradizer a lógica do sandbox. Ao descartar publicamente um serviço ainda não regulamentado, a agência pode ter enfraquecido a confiança de startups e empresas estrangeiras que analisam o Brasil como mercado promissor para soluções inovadoras em telecomunicações.
“Ao tratar a Starlink como um risco a conter, e não como uma oportunidade a regulamentar, a Anatel passa um recado confuso ao mercado”, afirma um advogado especialista em direito digital.
Potencial da internet satelital para inclusão digital
Um passo além do 5G
Enquanto a implementação do 5G no Brasil ainda enfrenta desafios logísticos, a internet via satélite representa uma solução de cobertura complementar e com potencial disruptivo.
A conexão direta por satélite permite que mesmo regiões não atendidas por fibra óptica ou redes móveis recebam sinal de internet mínima, o que pode transformar realidades em:
- Educação a distância
- Monitoramento ambiental
- Saúde digital
- Segurança em áreas de fronteira
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Starlink e o Brasil
A Starlink já atende dezenas de milhares de clientes no país e tem crescido entre comunidades rurais, produtores agrícolas e escolas em áreas remotas. Com o avanço da tecnologia D2D, a empresa poderia levar conectividade até mesmo a usuários sem estrutura local, usando apenas seus celulares.
No entanto, a falta de regulamentação clara e de abertura institucional pode atrasar ou desincentivar a chegada dessa nova modalidade.
Expectativas, rumores e impacto nas redes sociais
A origem da confusão
A manifestação da Anatel ocorreu após rumores nas redes sociais apontarem que o serviço direct-to-device já estaria ativo no Brasil, o que não é verdade. A própria Starlink não confirmou qualquer oferta desse tipo no território nacional.
Contudo, a rápida disseminação da informação, sem verificação, motivou uma reação antecipada da agência.
Comunicação ou controle?
Para muitos, a Anatel perdeu a chance de usar o episódio para educar o público sobre o funcionamento da regulação e sobre os processos necessários para novas tecnologias entrarem no país.
A abordagem — centrada em negação e contenção — passa uma imagem de engessamento, quando poderia ter reforçado seu papel como promotora do avanço tecnológico com responsabilidade.
O que pode acontecer a partir de agora

Cenários possíveis
- Starlink formaliza pedido para testar o D2D no Brasil
- Isso forçaria a Anatel a abrir o processo e definir critérios claros
- A agência reavalia sua postura pública
- Pode emitir nova nota com viés mais técnico e informativo
- Pressão política e social por conectividade rural
- Parlamentares e estados podem começar a cobrar abertura regulatória
- Concorrentes da Starlink se manifestam
- Outras empresas satelitais podem aproveitar o vácuo para testar soluções similares
O que dizem os especialistas
A recomendação quase unânime entre especialistas é de que a Anatel adote uma postura de regulação responsiva, ou seja, capaz de acompanhar os avanços sem travar o mercado.
“O Brasil não pode ficar na contramão da inovação. Serviços como o D2D não devem ser proibidos por antecipação, mas testados, avaliados e, se viáveis, regulamentados com responsabilidade”, conclui um consultor de políticas públicas de tecnologia.
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital
