A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) divulgou na quarta-feira (2) o novo Plano Estrutural de Redes de Telecomunicações (PERT) 2025, trazendo à tona um dado alarmante: 1.207 municípios brasileiros ainda não contam com backhaul de fibra óptica, uma estrutura básica para garantir banda larga de alta velocidade. O número, embora inferior ao de 2024, ainda representa 21,7% das cidades do país, e evidencia a persistente desigualdade digital regional, especialmente nas regiões Norte, Nordeste e no norte de Minas Gerais.
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O que é o backhaul de fibra óptica e por que ele é crucial?
O backhaul de fibra óptica é a rede de transporte que liga os principais centros urbanos às redes de acesso que chegam até o usuário final. Em termos simples, é a “espinha dorsal” da internet, responsável por levar a alta capacidade de dados dos grandes troncos até os pequenos provedores ou torres de distribuição.
Sem essa infraestrutura, as cidades ficam dependentes de soluções alternativas e mais limitadas, como rádio ponto a ponto ou satélite, que geralmente oferecem menor velocidade, estabilidade e capacidade de expansão.
Mapa da exclusão digital: quem ainda está fora da banda larga de qualidade
Regiões mais afetadas
- Norte e Nordeste: Alta concentração de municípios sem fibra óptica, muitos com população pequena e dispersa.
- Minas Gerais (norte): Parte do estado ainda enfrenta desafios estruturais para conectividade de qualidade.
Regiões com melhor desempenho
- Sul e Sudeste: Lideram o acesso à fibra óptica e à banda larga de alta velocidade.
- Santa Catarina: Destaque nacional com maior densidade de acessos fixos — 35,7 acessos por 100 habitantes.
- Alagoas: Pior desempenho, com apenas 10 acessos por 100 habitantes.
Velocidade média contratada no Brasil: realidade desigual
Apesar de o Brasil ter registrado uma média nacional de 447 Mbps de velocidade contratada na banda larga fixa em 2024, o cenário é bastante desigual. O levantamento da Anatel mostra que:
- 1.150 municípios apresentavam velocidade média abaixo de 100 Mbps.
- 4.420 municípios superavam esse patamar, beneficiando-se em sua maioria da infraestrutura de fibra.
Fibra óptica impacta diretamente na qualidade
Entre os municípios com backhaul de fibra óptica:
- Apenas 14,6% têm velocidade média inferior a 100 Mbps.
Já entre os 1.207 municípios sem essa infraestrutura:
- Esse número salta para 42,5%, revelando a forte correlação entre presença de fibra e qualidade de conexão.
Banda larga fixa ainda é concentrada onde há fibra

Segundo o PERT 2025, os municípios que já contam com backhaul de fibra óptica concentram 98,2% dos acessos de banda larga fixa (SCM). Isso demonstra que, onde há infraestrutura, há demanda e oferta mais amplas de serviços.
Esse dado reforça a tese defendida pela Anatel de que é preciso fomentar a implantação de infraestrutura onde não há atratividade econômica para o setor privado, especialmente em localidades com baixa densidade populacional.
Brasil avança no ranking global de velocidade de internet
O relatório da Anatel também apresentou dados do Speedtest Global Index, ferramenta internacional que mede velocidades médias de internet com base em testes reais.
Internet fixa
- Velocidade média (maio/2025): 194,48 Mbps
- Média global: 102,5 Mbps
Internet móvel
- Velocidade média (maio/2025): 222,02 Mbps
- Média global: 92,8 Mbps
- Posição no ranking: 6ª colocação mundial, à frente de potências como China, Coreia do Sul e Dinamarca.
Crescimento notável em 1 ano
A velocidade móvel no Brasil cresceu impressionantes 272,95% entre abril de 2024 e maio de 2025, impulsionada por:
- Expansão da cobertura 4G em áreas antes sem acesso;
- Início da consolidação do 5G, que já está disponível em 812 municípios brasileiros.
Desigualdade digital: além da infraestrutura, a questão social
O problema da exclusão digital não é apenas técnico — é também social e econômico. Cidades menores e menos povoadas apresentam baixo retorno financeiro para investimentos em redes de fibra óptica, o que explica a pouca presença da iniciativa privada nesses locais.
O dilema do mercado
- Alta demanda concentrada em regiões mais ricas
- Baixa viabilidade financeira em áreas remotas
Dessa forma, a desigualdade digital se aprofunda e impacta:
- Educação: alunos sem acesso adequado à internet têm menor aproveitamento escolar.
- Saúde: ausência de internet prejudica telemedicina e agilidade nos atendimentos.
- Emprego e renda: populações excluídas digitalmente perdem oportunidades de trabalho remoto e qualificação.
Propostas do PERT 2025 para reduzir o abismo digital

A Anatel propõe sete projetos estruturantes para enfrentar o problema. Entre os principais destaques estão:
1. Implantação de fibra óptica nos 1.207 municípios
Meta central do plano. A ideia é criar um fundo público-privado ou usar recursos do FUST (Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações) para viabilizar a expansão.
2. Uso de tecnologias alternativas
Quando a fibra não for viável tecnicamente ou economicamente, o plano prevê o uso de:
- Satélite geoestacionário
- Rádio IP
- Redes mesh
3. Expansão da rede móvel em áreas rurais
Iniciativas específicas para ampliar o sinal 4G e 5G em comunidades rurais, assentamentos e rodovias federais.
4. Apoio ao provedor local
Estimular provedores regionais com incentivos técnicos e financeiros para operarem em áreas hoje desassistidas.
5. Compartilhamento de infraestrutura
Criar um ambiente regulatório favorável ao compartilhamento de postes, torres e dutos entre operadoras, reduzindo custos e prazos.
6. Mapeamento em tempo real
Criação de uma plataforma digital que permitirá mapear as lacunas de conectividade em tempo real, subsidiando decisões políticas e investimentos.
7. Integração ao Plano Plurianual (PPA)
Todas as metas do PERT estão alinhadas ao PPA 2024–2027, que estabelece como meta ampliar o número de domicílios com acesso à banda larga de 65,4 milhões (2021) para 91,7 milhões até 2027.
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