A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) vive sua pior crise financeira em duas décadas, segundo o superintendente Luciano Lobo.
Durante o seminário Energia 360 Alagoas, realizado na última quinta-feira (17) em Maceió, o servidor anunciou que a agência passará a fechar as portas três vezes por semana, como medida emergencial para economizar recursos e manter as atividades básicas até o final do ano.
O anúncio causou preocupação no setor energético e nas associações presentes ao evento, que foram convocadas por Lobo a apoiar a recuperação da agência. A situação decorre de cortes orçamentários que atingem não só a ANP, mas diversas outras agências reguladoras brasileiras.
Leia mais:
Brasil pode deixar de ser autossuficiente em petróleo até 2035, segundo Shell
“Vai apagar as luzes”, diz superintendente

ANP enfrenta crise sem precedentes
Luciano Lobo foi direto ao expor o cenário preocupante enfrentado pela ANP:
“A ANP está passando pela pior crise dos últimos 20 anos. Sou concursado há 20 anos e nunca vi uma crise tão grave. Ontem [16/7], a ANP comunicou que vai fechar as portas por três dias na semana para economizar recursos, para tentar chegar ao final do ano. Vai apagar as luzes.”
A declaração foi feita na abertura do terceiro dia do seminário, promovido pela Origem Energia, e rapidamente repercutiu entre empresários e especialistas do setor.
Cortes de R$ 35 milhões no orçamento
Orçamento da agência caiu de R$ 140 milhões para R$ 105 milhões
A ANP sofreu um corte de R$ 35 milhões em seu orçamento aprovado para 2025. O valor inicial de R$ 140 milhões foi reduzido para R$ 105 milhões, afetando diretamente áreas críticas da agência, como:
- Fiscalização de combustíveis
- Atendimento ao público
- Monitoramento de preços
- Programas de controle da qualidade
Com a verba reduzida, a agência tem enfrentado dificuldades para manter contratos e serviços essenciais, inclusive com fornecedores de tecnologia, limpeza e atendimento telefônico.
Fiscalizações e pesquisas de preços estão suspensas
Programa de Monitoramento da Qualidade foi interrompido
Entre as atividades afetadas pelo corte orçamentário está o Programa de Monitoramento da Qualidade dos Combustíveis (PMQC), que teve sua operação temporariamente suspensa. Esse programa é responsável por fiscalizar a qualidade da gasolina, etanol e diesel vendidos nos postos brasileiros.
Além disso, a ANP reduziu a frequência de suas pesquisas semanais de preços nos postos, que servem como único indicador oficial dos valores cobrados no país. Com isso, o consumidor, o governo e o mercado passam a dispor de menos dados para tomada de decisão.
Atendimento ao público também foi reduzido

Telefone 0800 foi desativado por falta de contrato
Desde o dia 15 de julho, o canal de atendimento telefônico da ANP — número 0800 — está fora do ar. A suspensão ocorreu por falta de contrato com a prestadora de serviço, evidenciando o colapso na capacidade operacional da agência.
Outras medidas também foram adotadas para conter despesas, como:
- Redução no horário de funcionamento do protocolo no escritório central do Rio de Janeiro, que passará a operar das 8h às 17h, a partir de 28 de julho;
- Fechamento físico de unidades três dias por semana, com revezamento de equipes e expediente limitado;
- Suspensão de visitas técnicas e auditorias de rotina.
Impacto no setor energético e no consumidor
Falta de fiscalização pode comprometer qualidade dos combustíveis
A crise da ANP afeta diretamente todas as esferas do mercado de energia, especialmente o setor de distribuição e revenda de combustíveis. Sem fiscalização ativa e sem monitoramento da qualidade, aumentam os riscos de fraudes, adulterações e irregularidades nos postos de abastecimento.
Empresas do setor alertam que a ausência da ANP pode:
- Incentivar o comércio de combustíveis fora das especificações técnicas;
- Reduzir a competitividade entre distribuidoras sérias;
- Prejudicar a confiança do consumidor nos produtos ofertados.
Além disso, sem pesquisas oficiais de preços, o mercado perde uma importante referência para tomada de decisão e planejamento de políticas públicas.
Reações do setor e pedidos de apoio
Superintendente pede socorro a associações
Durante o evento em Maceió, o superintendente Luciano Lobo pediu o apoio institucional das associações e entidades do setor energético para pressionar o governo federal por recomposição orçamentária.
“Peço ajuda de todos para evitar que a ANP pare. Estamos fazendo o possível, mas o cenário é grave e pode se agravar ainda mais nos próximos meses.”
Associações como a ABEGÁS, Sindicom, IBP e Associação Brasileira de Energia Renovável manifestaram preocupação e prometeram buscar diálogo com o Ministério de Minas e Energia (MME) e com o Ministério da Economia.
Por que a ANP é essencial?
Função reguladora, fiscalizadora e informativa
A ANP é responsável por:
- Regular o setor de petróleo, gás natural e biocombustíveis;
- Fiscalizar a atuação das empresas do setor;
- Garantir a qualidade dos combustíveis e lubrificantes;
- Publicar dados sobre preços, produção e consumo de derivados;
- Emitir autorizações e fiscalizar segurança em instalações.
A interrupção parcial de suas atividades compromete diretamente a governança energética do país, num momento em que se discute transição energética, biocombustíveis e a abertura de novos campos de exploração.
Histórico de crises em agências reguladoras

Situação se repete em outros órgãos
A ANP não é a única agência reguladora a enfrentar cortes severos. A Anatel, a Aneel e a Anvisa também passaram por restrições orçamentárias nos últimos anos, o que levou à redução de quadros, atraso em análises técnicas e paralisação temporária de atividades.
Especialistas apontam que há uma desvalorização crescente das agências reguladoras, que passam a operar com orçamentos aquém das suas responsabilidades constitucionais.
O que pode acontecer se a crise continuar?
Riscos de colapso institucional
Caso a crise financeira da ANP não seja revertida, os riscos incluem:
- Paralisação total de serviços essenciais;
- Inoperância da fiscalização de qualidade e segurança;
- Desinformação sobre preços e estoques estratégicos;
- Aumento do mercado irregular de combustíveis;
- Fragilidade nas decisões de política energética nacional.
O cenário exige ação urgente do governo federal para recompor o orçamento da agência e garantir sua operação até o fim do ano.
Considerações finais
A crise que atinge a Agência Nacional do Petróleo (ANP) é um alerta sobre o desmonte da capacidade regulatória do Estado em áreas estratégicas. Com corte de R$ 35 milhões no orçamento, a agência se vê obrigada a fechar suas portas três vezes por semana e suspender serviços fundamentais, como fiscalização da qualidade dos combustíveis e pesquisas de preços.
A insegurança provocada pela ausência da ANP afeta desde o consumidor comum até grandes players do setor de energia, comprometendo a transparência, a qualidade e a confiança no mercado brasileiro de combustíveis.
A recomposição orçamentária da agência é urgente e estratégica. Sem ela, o Brasil corre o risco de entrar em colapso regulatório em um dos setores mais sensíveis da economia.
