A Apple concordou em pagar US$ 250 milhões para encerrar uma ação coletiva movida por consumidores dos Estados Unidos após a empresa não entregar, dentro do prazo esperado, a nova versão da Siri baseada em inteligência artificial. O processo envolve usuários dos modelos iPhone 15 Pro e iPhone 16, vendidos com a promessa de integração avançada ao chamado “Apple Intelligence”.
O caso ganhou repercussão internacional porque envolve um dos pilares da estratégia recente da Apple: a corrida pela inteligência artificial generativa. Durante a WWDC 2024, conferência anual da empresa voltada para desenvolvedores, a gigante de Cupertino apresentou uma Siri completamente reformulada, prometendo uma assistente mais contextual, inteligente e integrada aos aplicativos do sistema. Na prática, porém, os recursos mais ambiciosos nunca chegaram aos aparelhos vendidos ao consumidor.
O acordo ainda depende da aprovação da Justiça americana, mas já representa um dos maiores desgastes recentes da Apple envolvendo publicidade e expectativas criadas em torno de novos produtos.
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O que a Apple prometeu sobre a nova Siri
Durante a apresentação do Apple Intelligence, a Apple afirmou que a nova Siri seria capaz de compreender informações pessoais armazenadas no dispositivo e executar ações complexas entre aplicativos.
Entre as funções prometidas estavam:
Entendimento contextual do usuário
A assistente teria capacidade de interpretar mensagens, e-mails, calendário, fotos e outros dados do iPhone para responder perguntas mais naturais.
Exemplo citado pela própria Apple:
“Qual foi o podcast que João me recomendou semanas atrás?”
A Siri seria capaz de localizar a informação automaticamente em mensagens ou e-mails.
Execução de tarefas dentro de aplicativos
Outro grande diferencial seria a integração profunda com apps do sistema e de terceiros.
A Apple mostrou demonstrações em que a Siri poderia:
- Editar fotos por comando de voz
- Mover arquivos entre aplicativos
- Enviar conteúdos específicos encontrados no aparelho
- Resumir informações automaticamente
- Realizar ações encadeadas sem intervenção manual
Maior personalização
A empresa também prometeu uma experiência mais pessoal, adaptada ao comportamento do usuário, algo considerado essencial para competir com ferramentas como o Gemini, do Google, e o ChatGPT, da OpenAI.
O que realmente foi entregue aos usuários
Embora parte do Apple Intelligence tenha sido liberada gradualmente entre 2024 e 2025, os recursos mais avançados da Siri nunca chegaram oficialmente aos aparelhos.
A Apple lançou funcionalidades como:
- Ferramentas de escrita inteligente
- Resumos automáticos
- Geração de imagens
- Integração com ChatGPT
- Recursos de organização de notificações
Porém, a Siri reformulada apresentada na WWDC continuou ausente.
O problema se agravou porque os modelos iPhone 15 Pro e iPhone 16 foram comercializados destacando compatibilidade com a nova era de IA da empresa.
Consumidores alegaram que compraram os aparelhos acreditando que receberiam funcionalidades específicas que nunca ficaram disponíveis.
Por que a Apple foi processada
A ação coletiva nos Estados Unidos acusa a Apple de publicidade enganosa e indução ao consumo baseada em funcionalidades inexistentes ou indisponíveis no momento da venda.
Segundo os autores do processo, a empresa:
- Criou expectativa exagerada sobre recursos de IA
- Utilizou a nova Siri como argumento comercial
- Não informou claramente os atrasos
- Continuou promovendo funções indisponíveis durante meses
A Apple só reconheceu oficialmente o atraso em março de 2025, vários meses após o lançamento do iPhone 16.
Depois disso, a companhia removeu anúncios publicitários que mostravam as capacidades avançadas da nova Siri.
Apple não admitiu culpa no acordo
Apesar do acordo bilionário, a Apple não reconheceu qualquer irregularidade.
Esse tipo de cláusula é comum em ações coletivas nos Estados Unidos porque permite que empresas encerrem disputas judiciais sem assumir responsabilidade formal.
Ainda assim, o impacto reputacional existe.
Especialistas em tecnologia apontam que o episódio pode abalar a imagem da Apple como empresa conhecida por lançar produtos apenas quando considerados prontos para o mercado.
A pressão da corrida da inteligência artificial
O caso também evidencia como a disputa pela liderança em inteligência artificial mudou a dinâmica das grandes empresas de tecnologia.
Nos últimos anos, gigantes como Google, Microsoft e OpenAI aceleraram o desenvolvimento de ferramentas generativas, pressionando concorrentes a responder rapidamente.
A Apple entrou mais tarde nessa corrida.
Enquanto empresas rivais já ofereciam chatbots avançados e assistentes inteligentes robustos, a fabricante do iPhone ainda trabalhava na reformulação da Siri, frequentemente criticada por limitações técnicas em comparação com Alexa, Google Assistente e ChatGPT.
Parceria com o Google pode salvar a nova Siri
Para finalmente entregar os recursos prometidos, a Apple decidiu recorrer ao Google.
A empresa fechou uma parceria envolvendo os modelos Gemini, plataforma de inteligência artificial generativa do Google.
A expectativa é que parte das capacidades avançadas da nova Siri utilize diretamente a infraestrutura do Gemini para processamento de linguagem natural e entendimento contextual.
O que deve mudar no iOS 27
Segundo informações divulgadas pela imprensa internacional, o iOS 27 deve trazer:
Integração mais profunda com IA generativa
A Siri poderá interpretar solicitações mais complexas e responder de forma contextualizada.
Automação avançada
Usuários poderão executar tarefas completas por voz, incluindo comandos entre aplicativos.
Assistência personalizada
O sistema deve compreender hábitos, rotinas e conteúdos armazenados para oferecer respostas mais inteligentes.
Uso híbrido de IA
Parte das funções será processada no próprio aparelho e outra parte em nuvem, utilizando modelos externos como o Gemini.
O impacto para consumidores brasileiros
Embora o processo envolva consumidores americanos, o caso levanta discussões importantes também no Brasil.
O Código de Defesa do Consumidor brasileiro prevê proteção contra publicidade enganosa e promessas não cumpridas.
Segundo o artigo 37 do CDC, é proibida qualquer publicidade que possa induzir o consumidor ao erro sobre características, funcionalidades ou benefícios de produtos.
Na prática, se um caso semelhante ocorresse no Brasil, consumidores poderiam recorrer ao:
- Procon
- Ministério Público
- Juizados Especiais Cíveis
- Plataformas de reclamação
- Ações coletivas
Publicidade de tecnologia entra em nova fase
O episódio envolvendo a Apple mostra um movimento crescente no mercado: empresas passaram a anunciar recursos de inteligência artificial antes mesmo da conclusão total do desenvolvimento.
Isso ocorre porque a IA virou fator decisivo na venda de celulares, computadores e serviços digitais.
Fabricantes disputam atenção prometendo:
- Assistentes mais inteligentes
- Automação pessoal
- Recursos de produtividade
- Criação automática de conteúdo
- Experiências personalizadas
O problema surge quando o marketing avança mais rápido do que a tecnologia consegue acompanhar.
Apple ainda mantém força no mercado
Apesar da polêmica, analistas avaliam que o impacto financeiro para a Apple tende a ser limitado.
A empresa continua sendo uma das marcas mais valiosas do mundo, com forte fidelização de consumidores e liderança no segmento premium.
Ainda assim, o caso pode aumentar a pressão sobre futuros anúncios envolvendo inteligência artificial.
Investidores, usuários e órgãos reguladores passaram a observar com mais atenção o intervalo entre promessas tecnológicas e entregas reais.
O que o caso da Siri ensina ao mercado
A situação envolvendo a Apple deixa três grandes lições para o setor de tecnologia:
IA virou ferramenta de marketing central
Hoje, inteligência artificial vende aparelhos, serviços e assinaturas.
Consumidores estão mais atentos
Usuários passaram a cobrar mais transparência sobre prazos e disponibilidade real dos recursos.
Promessas exageradas podem gerar processos
Mesmo gigantes consolidadas podem enfrentar ações judiciais quando expectativas comerciais não são cumpridas.
A disputa entre Apple e Google ganhou um novo capítulo
O aspecto mais simbólico do caso talvez seja justamente a necessidade de a Apple recorrer ao Google para tentar salvar a nova Siri.
Historicamente rivais em sistemas operacionais, buscas e smartphones, as duas empresas agora se aproximam justamente no setor mais estratégico da tecnologia atual: a inteligência artificial.
Isso mostra como a corrida da IA redefiniu alianças, prioridades e estratégias dentro do Vale do Silício.
E também reforça uma realidade importante: mesmo as maiores empresas do mundo não estão imunes a atrasos, falhas de execução e pressão do mercado quando o assunto é inteligência artificial.
Conclusão
O caso da Apple envolvendo a nova Siri mostra como a corrida pela inteligência artificial elevou a pressão sobre as gigantes da tecnologia. Ao anunciar recursos ainda não finalizados, a empresa criou expectativas que acabaram gerando frustração entre consumidores e consequências jurídicas relevantes. Mesmo mantendo sua força no mercado, a Apple agora enfrenta o desafio de recuperar a confiança dos usuários e provar que conseguirá entregar a experiência de IA prometida. O episódio também serve de alerta para todo o setor: em um mercado cada vez mais competitivo, prometer demais pode custar caro.
