Um movimento nacionalista crescente está transformando o comportamento dos consumidores chineses e afetando diretamente as grandes marcas estrangeiras, especialmente no setor de eletrônicos. Dados da China Academy of Information and Communications Technology (CAICT), divulgados pela Reuters, mostram que as remessas de celulares de marcas estrangeiras caíram quase 50% em março de 2025, em comparação com o mesmo período do ano anterior. A Apple, que recentemente liderava o mercado, caiu para a quinta posição, com apenas 14,1% de participação. Essa mudança evidencia uma preferência cada vez maior por marcas nacionais, impulsionadas por incentivos do governo e um forte sentimento de apoio à indústria local.
Como as tarifas de Trump ajudaram marcas chinesas a desafiar a Apple
Apple e Samsung perdem espaço na China, enquanto Huawei e Xiaomi crescem impulsionadas pelo nacionalismo e subsídios locais. Entenda os motivos.
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Enquanto isso, marcas nacionais como Huawei, Xiaomi, Oppo e Vivo têm avançado com força. Com crescimentos de dois dígitos, essas empresas conquistam tanto o segmento de entrada quanto o de alto padrão, que antes era quase exclusivo da Apple.
O ressurgimento da Huawei
O caso mais emblemático é o da Huawei. Após sofrer duras sanções dos Estados Unidos, a empresa se reinventou, apostando em soluções domésticas e investindo em um ecossistema independente. A estratégia da Huawei se encaixa perfeitamente na doutrina de autossuficiência tecnológica promovida por Xi Jinping, que vem ganhando força dentro e fora do setor privado chinês.
Samsung: de gigante a coadjuvante
De 20% a menos de 1%
O declínio da Samsung no mercado chinês é ainda mais drástico que o da Apple. Em 2013, a marca sul-coreana detinha quase 20% do mercado local, um número alinhado à sua presença global. Dez anos depois, em 2023, essa participação caiu para 0,8%. Hoje, a marca é considerada uma presença quase simbólica no país.
O peso do sistema antimísseis
Esse declínio também tem raízes políticas. A instalação do sistema antimísseis THAAD na Coreia do Sul em 2015 gerou uma onda de sentimento anti-coreano na China, o que impactou fortemente as vendas da Samsung. A tentativa de retorno com a linha Galaxy C, voltada especificamente para o público chinês, tem enfrentado grandes desafios.
Apple tenta resistir, mas com dificuldades
A política inédita de descontos
Mesmo sem ser alvo direto do boicote político como a Samsung, a Apple sente os impactos do nacionalismo econômico. Para tentar conter a queda nas vendas, a empresa americana adotou uma tática inédita: começou a oferecer descontos antecipados em seus modelos de iPhone, ainda dentro do primeiro ano de lançamento. Essa medida, incomum em sua estratégia comercial, é um sinal claro do momento desafiador que vive na China.
Perda de status e mudança no consumo
Mais do que preço e performance, o fenômeno que afeta a Apple está enraizado em uma mudança cultural profunda. Os consumidores chineses estão cada vez mais inclinados a valorizar produtos nacionais. Comprar um iPhone, que antes era um símbolo de status, agora é visto por muitos como uma escolha menos patriótica.
Subsídios impulsionam marcas locais

Programa do governo favorece empresas chinesas
Em 2022, o Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação da China lançou um programa de subsídios para smartphones vendidos por até 6.000 yuans (cerca de 830 euros). Isso criou um incentivo estrutural para que fabricantes locais ajustassem seus preços estrategicamente para se beneficiar da política.
Com essa medida, empresas como Xiaomi e Vivo conseguiram competir com qualidade e preço, atingindo consumidores que antes optavam por modelos mais caros da Apple.
A guerra comercial e seus reflexos
O impacto das tarifas dos EUA
As tarifas impostas pelo governo Trump durante a guerra comercial entre EUA e China continuam a produzir efeitos. O viés nacionalista se intensificou, e produtos estrangeiros passaram a ser vistos como menos desejáveis. Além disso, o bloqueio tecnológico imposto por Washington fortaleceu o discurso de independência da China, especialmente no setor de tecnologia.
Nova mentalidade do consumidor chinês
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O consumidor chinês atual está mais consciente de seu papel na economia nacional. Essa transformação foi acelerada por tensões políticas internacionais e por uma série de campanhas do governo que reforçam a importância do consumo interno. Com isso, marcas estrangeiras enfrentam uma barreira cultural que vai muito além de ajustes de preços ou qualidade técnica.
Desafios e perspectivas para as marcas estrangeiras
Uma nova proposta de valor será necessária
Para Apple e Samsung, o desafio na China vai além de recuperar a participação de mercado perdida. Elas precisam encontrar uma proposta de valor que ressoe com o novo consumidor chinês, que valoriza não só o produto, mas também sua origem.
Alianças, customizações e ecossistemas locais
As empresas estrangeiras que quiserem permanecer relevantes na China terão que investir em:
- Parcerias com operadoras locais;
- Adaptações de software e funcionalidades alinhadas às preferências do consumidor chinês;
- Preços mais competitivos;
- Campanhas de marketing culturalmente sensíveis.
Além disso, criar ecossistemas integrados, como tem feito a Huawei, pode ser uma forma de manter o engajamento e a fidelidade do cliente chinês.
O cenário global ainda é favorável

No restante do mundo, Apple e Samsung seguem no topo. Segundo os dados mais recentes, ambas detêm cerca de 20% do mercado global cada, com a Apple ligeiramente atrás da rival sul-coreana. Xiaomi, Oppo e Vivo completam o ranking global, com participações expressivas, mas ainda distantes das líderes.
Conclusão
A queda de Apple e Samsung no mercado chinês é reflexo de um fenômeno maior: o ressurgimento do nacionalismo econômico na segunda maior economia do mundo. Mais do que desempenho técnico ou preço, as decisões de compra na China estão sendo guiadas por fatores culturais, políticos e estratégicos. Para reverter esse cenário, as gigantes estrangeiras terão que repensar suas estratégias de inserção local — e talvez até sua filosofia global de atuação.
