No universo dos motoristas que atuam em plataformas como Uber, 99 e InDrive, uma nova tecnologia vem transformando a maneira de trabalhar: ferramentas que indicam quais corridas são mais rentáveis em tempo real. No Rio de Janeiro, por exemplo, motoristas já conseguem faturar em média R$ 3.500 por mês usando esses recursos, segundo dados da startup GigU — que cria soluções para maximizar ganhos e controlar custos desses profissionais.
Contudo, a adoção desses aplicativos auxiliares também levanta controvérsias. A Uber questiona judicialmente algumas funcionalidades que ajudam a recusar automaticamente corridas pouco lucrativas, alegando concorrência desleal e interferência no funcionamento do serviço.
Este artigo explora como funcionam essas ferramentas, os impactos para motoristas, passageiros e as respostas do mercado, apresentando um panorama completo dessa inovação que mexe com o cotidiano do transporte por aplicativos no Brasil.
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GigU: inteligência de dados para aumentar a renda do motorista

A GigU, antiga StopClub, utiliza dados extraídos diretamente da tela dos apps de transporte para mostrar ao motorista quanto realmente está ganhando com cada corrida — descontados custos como combustível e aluguel do carro. O sistema foi usado por cerca de 210 mil motoristas, com 93 mil participantes ativos entre novembro de 2023 e maio de 2024.
De acordo com Paolo Kostenbader, líder de Inteligência de Dados da empresa:
“Para ele aumentar a performance, indicamos quais corridas têm mais chance de trazer um retorno maior.”
No Rio, onde 20,7 mil motoristas utilizam a plataforma, os gastos mensais com combustível giram em torno de R$ 2.228,57. Outros 24% alugam veículos, o que aumenta as despesas. No total, um condutor desembolsa cerca de R$ 50 mil por ano para manter o trabalho ativo.
Como funciona o “semáforo inteligente” e os critérios do motorista
O diferencial da GigU é seu “semáforo inteligente”. Quando surge uma oferta de corrida, o app avalia, em 0,6 segundo, se o trajeto vale a pena conforme parâmetros definidos pelo motorista, como valor mínimo por quilômetro ou por minuto. Com base nessa análise, a corrida recebe uma cor:
- Verde: corrida lucrativa;
- Amarelo: apenas cobre custos;
- Vermelho: traz prejuízo.
Além disso, o aplicativo permite que o motorista monitore seu histórico de ganhos por distância e tempo, ajudando a controlar o desempenho financeiro.
Maycon Kanaan, motorista que adotou a ferramenta, relata a transformação em sua renda:
“Agora, consigo selecionar melhor e passei a ganhar R$ 800 com a mesma quilometragem, antes era cerca de R$ 450.”
Debate judicial: Uber e a disputa com apps auxiliares
Apesar dos ganhos relatados pelos motoristas, a Uber moveu ação judicial contra a GigU, alegando concorrência desleal. O foco são duas funcionalidades:
- “Cálculo de ganhos”, que mostra a rentabilidade das corridas;
- “Recusa automática”, que rejeita corridas fora dos parâmetros do motorista sem necessidade de ação manual.
A empresa argumenta que esses recursos acessam dados de sua plataforma indevidamente e comprometem o funcionamento do serviço.
Uma liminar chegou a suspender essas funções, mas foi derrubada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo por falta de provas técnicas. Bruna Kusumoto, especialista em Direito Digital, analisa:
“A Justiça reconheceu que não se pode interditar uma tecnologia sem perícia… proteger o poder de escolha dos motoristas e garantir a inovação é essencial.”
A GigU também denunciou a Uber no Cade, alegando abuso de poder econômico.
Rebu: outra alternativa que orienta motoristas a escolher viagens
Além da GigU, o app Rebu — que funciona em todo o Brasil — oferece ferramenta similar. Usado por motoristas como Rogério da Silva, de 49 anos, ele permite definir valores mínimos para aceitar corridas, exibindo na tela informações rápidas sobre preço, distância e tempo, acompanhadas do código de cores.
Segundo a Rebu, o cálculo é feito com dados compartilhados pelos próprios motoristas, sem acesso direto à plataforma da Uber.
Outro motorista, Paulo Henrique, que usou apps assim por 1,5 ano, afirma:
“Antes eu não tinha noção de como calcular o valor das corridas; hoje, faço isso mentalmente, mas o app oferece o valor exato.”
Efeitos colaterais: aumento da recusa e impacto para passageiros
Especialista em TI da Firjan Senai, Fabricio Curvello Gomes, explica que esses apps usam recursos de acessibilidade para acessar dados na tela do celular do motorista, processando localmente as informações. Ele alerta para possíveis riscos à privacidade:
“Podem acessar dados sensíveis como senhas e localização, se não tiverem boas práticas de segurança.”
Além disso, o especialista destaca que a recusa automática pode aumentar a taxa de cancelamentos e ativar a tarifa dinâmica por causa da rejeição simultânea de corridas.
Wellington Melo, morador da zona Oeste do Rio, sofre para conseguir corridas pelo app 99 e enfrenta esperas maiores e cancelamentos frequentes:
“Preciso mandar mensagem para o motorista não cancelar.”
A advogada Amanda Cunha reforça o direito do consumidor a reparação em caso de falha no serviço e ressalta que as plataformas são responsáveis pela qualidade do atendimento.
Funcionalidades extras para motoristas e segurança
Além do cálculo de ganhos, GigU e Rebu oferecem diversas ferramentas para aumentar a segurança e o conforto do motorista:
- Câmera secreta para registrar ocorrências;
- Botão SOS ou pânico, que enviam alerta a contatos ou outros motoristas;
- Aviso de sinal de internet fraca para evitar perda de chamadas;
- Alertas de área de risco e rede de apoio contra furtos;
- Classificados para compra e aluguel de veículos;
- Corrida particular com “uberímetro” próprio;
- Consulta colaborativa a postos de GNV.
Esses recursos mostram como o ecossistema de apps para motoristas está se sofisticando, indo além do básico para oferecer suporte completo.
O que dizem as empresas e o futuro das ferramentas

Em resposta, a Uber afirma que o uso de apps auxiliares viola seus termos, pois o motorista já recebe todas as informações relevantes para aceitar corridas. A 99 destaca que remunera os motoristas levando em conta diversos fatores e permite recusa sem punições em áreas de risco. A InDrive não se manifestou.
A GigU cobra uma assinatura mensal de R$ 12,90, enquanto a Rebu vende o acesso vitalício por R$ 117.
O futuro dessas ferramentas deve passar pela regulamentação, um equilíbrio entre inovação, direitos dos motoristas e proteção dos consumidores — garantindo que a tecnologia seja aliada do trabalho, e não fonte de conflito.
Com informações de: EXTRA
