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Investigação mapeia influenciadores que defendem restrições ao voto feminino no Brasil

Discursos que questionam o direito do voto feminino voltaram a ganhar espaço em comunidades digitais brasileiras e passaram a provocar uma discussão mais ampla sobre democracia, igualdade política e desinformação. O fenômeno foi analisado em uma investigação da BBC News Brasil, que acompanhou durante três meses conteúdos publicados por influenciadores, podcasts e grupos associados à […]

Avatar de Vitória Monckes Vitória Monckes · · 7 min de leitura
voto feminino

Discursos que questionam o direito do voto feminino voltaram a ganhar espaço em comunidades digitais brasileiras e passaram a provocar uma discussão mais ampla sobre democracia, igualdade política e desinformação. O fenômeno foi analisado em uma investigação da BBC News Brasil, que acompanhou durante três meses conteúdos publicados por influenciadores, podcasts e grupos associados à chamada machosfera e à cultura red pill.

O levantamento encontrou mensagens que atribuem ao sufrágio feminino parte dos problemas sociais enfrentados pelos homens e defendem modelos nos quais decisões políticas ou familiares teriam maior influência masculina. Algumas publicações chegam a apresentar o voto das mulheres como um suposto erro histórico da democracia.

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Como o discurso contra o voto feminino ganhou visibilidade

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Imagem: Jeso Carneiro / Flickr

A discussão ganhou repercussão nacional após declarações do influenciador Paulo Figueiredo, que questionou a qualidade do voto feminino e fez uma associação específica com mulheres solteiras. A fala gerou críticas inclusive entre pessoas identificadas com setores políticos próximos ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

O episódio, porém, não surgiu isoladamente. De acordo com a investigação jornalística, ideias semelhantes já circulavam em vídeos, podcasts e redes sociais, muitas vezes inseridas em discussões sobre papéis tradicionais de gênero, autoridade dentro da família e críticas ao Estado moderno.

Um dos argumentos recorrentes é o de que a participação feminina nas eleições teria contribuído para mudanças consideradas negativas por determinados grupos. Em outras publicações, o trabalho e a independência financeira das mulheres são apresentados como fatores responsáveis por uma suposta perda de autoridade masculina.

Influenciadores e podcasts ampliam a discussão

Entre os nomes identificados no levantamento está Renato Amoedo, conhecido como Renato 38ão. Em conteúdos publicados na internet, ele questionou o voto de mulheres que não são casadas e criticou a priorização de estudos e carreira pelas mulheres.

Outro núcleo citado é o Redcast, podcast apresentado por Junior Masters. Em um episódio de janeiro de 2026, a pré-candidata a deputada federal Ana Hering reproduziu uma afirmação segundo a qual o mundo teria começado a piorar quando as mulheres passaram a expressar suas opiniões.

Posteriormente, Hering afirmou à BBC News Brasil que a declaração tinha caráter humorístico. Masters, por sua vez, disse não ser especificamente contrário ao voto feminino, mas ao voto de maneira geral.

O debate também envolve argumentos sobre supostas diferenças cognitivas entre homens e mulheres. A ideia de que homens teriam uma capacidade mais racional ou sistemática para analisar política e mulheres seriam predominantemente guiadas pela empatia, contudo, não permite estabelecer uma regra geral sobre capacidade de decisão política. A neurocientista Suzana Herculano-Houzel contestou esse tipo de interpretação simplificada sobre diferenças entre os sexos.

Mulheres também participam dos questionamentos

A discussão não é protagonizada exclusivamente por homens. A investigação identificou mulheres que passaram a questionar publicamente a importância do sufrágio ou afirmaram que abririam mão do direito de votar.

Fernanda Guardian, por exemplo, publicou conteúdo no qual argumentou que votar não seria responsável por torná-la mais rica ou bem-sucedida. Pietra Bertolazzi também declarou oposição ao voto feminino, embora tenha associado sua posição principalmente à rejeição ao Estado moderno e à defesa da monarquia, e não a uma proposta específica de retirada do direito das mulheres.

Esse aspecto ajuda a explicar a complexidade do fenômeno. A contestação ao sufrágio aparece ligada a diferentes correntes ideológicas e nem sempre significa que todos os participantes defendam exatamente a mesma proposta política.

O que é o chamado voto familiar

Uma das ideias que entraram no debate é o chamado voto familiar. Nesse modelo, a família poderia ser tratada como unidade política, em vez de cada cidadão exercer individualmente seu direito eleitoral.

A discussão apareceu em um fascículo do chamado Livro Amarelo, associado ao partido Missão. A legenda, entretanto, afirmou que o material possui caráter ensaístico e não representa seu programa partidário. Renan Santos, candidato do partido à Presidência, também declarou que o voto familiar não faz parte de seu programa.

A proposta ganhou atenção porque altera um princípio fundamental do sistema eleitoral brasileiro: o voto é exercido individualmente pelo cidadão. A Constituição estabelece o sufrágio universal e o voto direto e secreto, dentro das regras democráticas previstas no país.

O voto feminino pode ser retirado no Brasil?

A possibilidade de simplesmente eliminar o direito de voto das mulheres não encontra respaldo no atual ordenamento constitucional brasileiro.

A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, afirmou à BBC News Brasil que uma medida desse tipo seria incompatível com a Constituição. O sufrágio feminino está inserido no sistema de direitos políticos e na estrutura democrática protegida pelo texto constitucional.

No Brasil, a conquista do voto feminino ocorreu em 1932, durante o governo de Getúlio Vargas, e posteriormente foi consolidada no processo de ampliação dos direitos políticos. Desde então, a participação das mulheres nas eleições tornou-se parte integrante da democracia brasileira.

Mais do que uma discussão histórica, portanto, o debate atual envolve a própria concepção de cidadania. Retirar o direito político de uma parcela da população significaria modificar profundamente o princípio de igualdade de participação nas decisões públicas.

Por que esse discurso preocupa especialistas?

Para pesquisadores da democracia, a repetição de mensagens que apresentam determinado grupo como incapaz de participar das decisões políticas pode contribuir para sua deslegitimação.

A historiadora e cientista política Tatiana Vargas-Maia avaliou que atacar especificamente o voto feminino também representa uma forma de questionar a democracia como sistema baseado na participação política ampla.

O alcance das redes sociais aumenta a importância do fenômeno. Conteúdos longos podem ser transformados em cortes de poucos segundos, retirados do contexto e compartilhados sucessivamente. Uma afirmação originalmente restrita a um grupo pode, dessa maneira, alcançar públicos muito maiores.

Desinformação também entra no debate

O episódio foi acompanhado por iniciativas de monitoramento e checagem. Um levantamento do Instituto Democracia em Xeque registrou mais de 23 mil menções relacionadas ao tema em apenas uma semana.

Também circulou um suposto mapa que tentava indicar como mulheres teriam votado em diferentes estados brasileiros. A informação foi desmentida pela AFP, já que o voto é secreto e não existe base pública capaz de identificar individualmente como determinado grupo de mulheres votou.

Esse ponto é especialmente importante durante períodos eleitorais: dados sobre intenção de voto, pesquisas e resultados oficiais não permitem descobrir o voto individual de uma pessoa.

O que está em jogo para as eleições brasileiras

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Imagem: rafapress / shutterstock.com

A controvérsia mostra como antigas discussões sobre direitos políticos podem reaparecer em novos ambientes digitais. Ao mesmo tempo, evidencia a necessidade de diferenciar opinião política, provocação, proposta institucional e informação falsa.

O direito ao voto feminino permanece assegurado pelo ordenamento brasileiro, enquanto discursos que defendem sua restrição fazem parte de uma disputa política e cultural que ganhou visibilidade nas redes.

Para o eleitor, acompanhar esse tipo de debate com base em informações verificáveis é essencial. Em um sistema no qual o voto é secreto e individual, afirmações que atribuem decisões eleitorais a categorias inteiras da população precisam ser analisadas com cautela, especialmente quando não apresentam evidências verificáveis.

A discussão sobre quem deve participar da democracia, portanto, vai além das redes sociais. Ela envolve direitos constitucionais, igualdade política e os próprios fundamentos do sistema eleitoral brasileiro.

Foto: AquiVale/Imagens

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