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Atmos propõe carros elétricos e gás como pilares da transição energética no Brasil

A Atmos Capital analisa a transição energética no Brasil, destacando a importância do gás natural, a sustentabilidade dos carros elétricos e híbridos a etanol.

Bruna MachadoPor Bruna Machado7 min de leitura
Carros

A transição energética é tema central no debate sobre o futuro do setor elétrico e da matriz energética brasileira. Em meio a narrativas divergentes e versões muitas vezes absolutas, a gestora de recursos Atmos Capital, sediada no Leblon, apresenta uma análise diferenciada que confronta algumas crenças estabelecidas, aponta o gás natural como o principal vencedor desse processo e defende os carros elétricos (EVs) e híbridos movidos a etanol como as alternativas mais adequadas para o Brasil.

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Narrativas e fatos na transição energética brasileira

Carros elétricos sendo abastecidos
Isenção total ou parcial é realidade em vários estados | Reprodução/DepositPhotos

A Atmos Capital publicou recentemente uma carta para seus investidores que encerra uma trilogia sobre a transformação do setor de energia. Nela, a gestora expressa sua crítica à narrativa do “Brasil potência verde” e destaca os principais vetores que realmente impulsionam a mudança: a revolução tecnológica dos semicondutores e a evolução das baterias de lítio.

Revolução dos semicondutores e queda dos custos solares

A queda expressiva nos preços dos painéis solares fotovoltaicos, impulsionada pela inovação em semicondutores, junto à vontade política para incentivar a geração distribuída (GD), resultou no crescimento acelerado dessa modalidade no país. Isso significa que cada vez mais consumidores podem produzir sua própria energia, reduzindo a dependência das distribuidoras tradicionais.

Evolução das baterias e avanço dos veículos elétricos

Outra transformação fundamental vem do avanço das baterias de lítio, que melhoraram em custo e performance, tornando os carros elétricos cada vez mais viáveis. A Atmos destaca que o EV, mesmo alimentado por eletricidade gerada em termelétricas fósseis, é mais eficiente que veículos a combustão — uma vantagem que se amplia no Brasil, cuja matriz elétrica possui alta penetração de fontes renováveis.

Carros elétricos e híbridos a etanol: o futuro da mobilidade sustentável no Brasil

A análise da Atmos aponta para um futuro no qual a maior parte dos quilômetros rodados será elétrica, considerando tanto EVs puros quanto híbridos, que combinam motores elétricos e motores a combustão, geralmente movidos a etanol, combustível renovável e abundante no país.

Eficiência e queda de custos dos EVs

Além dos ganhos ambientais e de eficiência, o custo dos veículos elétricos segue caindo, favorecendo a adoção em larga escala. No segmento de locação de veículos, onde a Atmos é acionista relevante da Localiza, essa dinâmica de concentração de poder e oferta já estruturada deve permanecer, mesmo com a entrada de novos fabricantes que podem ajudar a expandir o mercado.

O risco dos carros autônomos

Embora os veículos autônomos representem um risco disruptivo para o setor de locação, sua adoção no Brasil ainda parece distante, diferentemente de alguns mercados internacionais que já experimentam testes e avanços nessa tecnologia.

Impactos da transição no mercado de distribuição de combustíveis

Um dos setores mais diretamente afetados pela crescente eletrificação do transporte é o da distribuição de combustíveis fósseis. A receita dessas empresas depende majoritariamente da comercialização de combustíveis para carros leves em postos urbanos — segmento em que os EVs têm sua primeira linha de ataque.

O oligopólio das distribuidoras e os riscos do futuro

A carta da Atmos alerta que o equilíbrio atual, fruto da privatização da última estatal do setor, pode ser ameaçado pela mudança estrutural na demanda por combustíveis. A gestora destaca que investimentos no setor devem considerar esse risco, já que a rentabilidade futura pode se assemelhar a um retorno de renda fixa com risco de venture capital — ou seja, incerta e volátil.

Concorrência da geração distribuída

Apesar do crescimento da geração distribuída ser uma “concorrência inesperada” para as distribuidoras, seus impactos financeiros têm sido limitados até o momento devido ao modelo regulatório, que remunera as companhias com base em taxa de retorno sobre ativos regulatórios. Porém, a complexidade e instabilidade regulatória preocupam a gestora.

Desafios regulatórios e o futuro do setor elétrico brasileiro

Imagem de uma pessoa carregando um carro elétrico Carros elétricos condomínio
Imagem: mpohodzhay/Shutterstock.com

A Atmos aponta que o setor enfrenta um ambiente de “confusão setorial”, com tarifas crescentes e falta de sinais claros para direcionar investimentos. Problemas como distorções regulatórias, preços pouco transparentes e obrigações legais que dificultam a flexibilidade aumentam o risco para todos os agentes do mercado.

O consumidor residencial e a fuga do grid tradicional

Nesse contexto, já é economicamente viável para consumidores residenciais abandonarem a rede tradicional das distribuidoras, adotando sistemas próprios de geração — um movimento que deve ser acompanhado com atenção, pois pode comprometer o equilíbrio financeiro dos contratos de concessão das distribuidoras.

Necessidade de redesenho regulatório

A carta defende um esforço coordenado para o redesenho regulatório e aperfeiçoamento dos mercados, visando ajustar incentivos e direcionar investimentos para aprimorar a produtividade econômica do Brasil. Essa reforma é vista como fundamental para reduzir a desordem e garantir um setor energético mais sustentável e eficiente.

Gás natural: o grande vencedor da transição energética no Brasil

A análise da Atmos destaca o crescimento do mercado de gás natural como um dos principais fatos da transição energética, influenciando diretamente grandes empresas como Eneva e Compass, esta última pertencente ao grupo Cosan.

De monopólio fragmentado a mercado dinâmico

Até pouco tempo atrás, o mercado de gás no Brasil era um monopólio disperso sob diferentes gerências da Petrobras. Com os desinvestimentos na produção, transporte e distribuição, surgiu um mercado jovem e dinâmico, com potencial de crescimento acelerado.

Dilemas na oferta e demanda de gás

Um dos desafios centrais reside na falta de infraestrutura para escoamento e ausência de um mercado suficientemente amplo para absorver o gás natural, especialmente o associado ao petróleo. Isso cria um clássico dilema microeconômico: sem oferta adequada, a demanda não se desenvolve; e sem demanda forte, não há estímulo econômico para ampliar a oferta.

Estratégias da Eneva e Compass na monetização do gás natural

byd carro elétrico mercado automotivo
Imagem: Freepik

A Eneva tem inovado ao integrar produção de gás com geração termelétrica próxima aos campos, convertendo gás em eletricidade e ampliando suas alternativas comerciais, incluindo a substituição de óleo combustível e diesel em setores industriais e de transporte rodoviário.

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Vantagens estruturais da Eneva

A gestora considera que essas características posicionam a Eneva como agente competitivo para ofertar potência e flexibilidade ao sistema elétrico brasileiro, atributos valiosos em um cenário de crescente volatilidade e demanda por fontes controláveis.

A estratégia integrada da Compass

Inspirado pelo modelo da Eneva, o grupo Cosan implementou na Compass um projeto de regaseificação de gás natural liquefeito (GNL) para quebrar o monopólio da Petrobras e estimular novas fontes de demanda e oferta. Isso gerou um ciclo virtuoso de geração de valor para a empresa e para o setor.

O impacto do mercado global de GNL

A gestora aponta que o mercado global de GNL funciona como vasos comunicantes entre matrizes energéticas antes isoladas, ampliando as oportunidades de monetização para os detentores da molécula, o que é positivo para players com acesso à infraestrutura.

Novas dinâmicas de preço no setor elétrico brasileiro

Modelagens tradicionais tratavam o preço de energia como variável estática, mas a nova dinâmica valoriza as fontes controláveis capazes de suprir a demanda em momentos críticos, o que fortalece a posição competitiva dessas fontes.

A posição da Eletrobras

Por contingência histórica, a Eletrobras detém grande volume de energia hidrelétrica descontratada, podendo se beneficiar dessa nova configuração, o que realça o papel estratégico da estatal em um setor em transformação.

Perspectivas para o futuro

A Atmos Capital ressalta que, diante da crescente entropia do setor, manter uma estrutura de capital conservadora é prudente e alinhado com os interesses de longo prazo dos investidores e da própria sustentabilidade das companhias.

Considerações finais

A transição energética no Brasil é complexa e marcada por tensões entre narrativas e realidades. A Atmos Capital desafia o discurso simplista do “Brasil potência verde” ao destacar a importância do gás natural, os avanços dos veículos elétricos e híbridos a etanol, e os desafios regulatórios que permeiam o setor elétrico.

A evolução tecnológica, especialmente na geração distribuída e nas baterias, cria novas oportunidades, mas também impõe a necessidade urgente de reformas regulatórias para garantir o equilíbrio do sistema.

Enquanto isso, o gás natural desponta como combustível de transição fundamental, com empresas como Eneva e Compass liderando um mercado dinâmico e promissor.

Com uma visão crítica e fundamentada, a Atmos Capital oferece uma leitura que convida investidores, gestores e formuladores de políticas a olhar além das narrativas, compreendendo os fatos que moldarão o futuro energético do Brasil.

Bruna Machado

Autor

Bruna Machado

Bruna Cassana é gaúcha, natural de Pelotas, e atua como redatora no Seu Crédito Digital. Curiosa por natureza, está sempre conectada às tendências da web e às principais novidades sobre finanças, benefícios sociais e tecnologia. Com olhar atento às transformações digitais e linguagem acessível, Bruna contribui para informar e orientar leitores em decisões do cotidiano.

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