O Banco do Brasil tem enfrentado um dos períodos mais desafiadores dos últimos anos devido ao aumento da inadimplência no agronegócio. Embora a instituição já tenha revisado suas projeções financeiras e reconhecido os impactos da deterioração da carteira rural, analistas do Itaú BBA acreditam que os maiores desafios ainda estão por vir.
Itaú BBA mantém cautela com BBAS3 por riscos no agronegócio
Itaú BBA vê mais riscos para o Banco do Brasil em 2026, com alta das provisões, lucro pressionado e impacto da inadimplência no agronegócio.
Em relatório divulgado recentemente, o banco de investimentos revisou suas estimativas para as ações do Banco do Brasil (BBAS3), reduziu o preço-alvo dos papéis e manteve recomendação neutra. A principal preocupação continua sendo a evolução da inadimplência entre produtores rurais, especialmente em um cenário de juros elevados, custos operacionais maiores e margens comprimidas no campo.
A avaliação reforça a cautela do mercado em relação à capacidade do banco de recuperar sua rentabilidade nos próximos trimestres.
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Por que o agronegócio preocupa tanto o Banco do Brasil?

O Banco do Brasil possui uma posição histórica de liderança no crédito rural brasileiro. A instituição concentra uma parcela significativa dos financiamentos destinados ao agronegócio, segmento que representa um dos pilares da economia nacional.
Essa forte exposição, que durante anos impulsionou os resultados da instituição, passou a representar um risco relevante diante da deterioração financeira de parte dos produtores rurais.
Nos últimos anos, diversos fatores afetaram o setor:
Aumento dos custos de produção
Os produtores enfrentaram uma combinação de fatores que pressionaram suas margens:
- Fertilizantes mais caros;
- Elevação dos custos logísticos;
- Aumento do preço dos combustíveis;
- Juros elevados para financiamento da atividade;
- Oscilações nos preços internacionais de commodities.
Com custos maiores e receitas nem sempre acompanhando esse crescimento, muitos produtores passaram a apresentar dificuldades para honrar compromissos financeiros.
Vencimento de operações de crédito
Segundo a análise do Itaú BBA, parte importante da carteira de crédito rural do Banco do Brasil ainda não atingiu seu vencimento.
Isso significa que os impactos mais relevantes da inadimplência podem surgir justamente nos próximos meses, à medida que essas operações forem chegando ao prazo de pagamento.
Para os analistas, esse movimento tende a aumentar a necessidade de reconhecimento de perdas pelo banco.
Provisões devem continuar crescendo
Um dos principais pontos de atenção para investidores é a evolução das provisões para devedores duvidosos.
As provisões representam recursos reservados pelos bancos para cobrir possíveis perdas com clientes que deixam de pagar suas dívidas. Quanto maior o risco de inadimplência, maior tende a ser a necessidade de provisionamento.
O que o Itaú BBA espera
A instituição acredita que o Banco do Brasil precisará continuar elevando as provisões ligadas à carteira agrícola pelo menos até o terceiro trimestre de 2026.
A expectativa é que o custo de risco apenas comece a mostrar melhora no segundo semestre, quando novas operações concedidas sob critérios mais rigorosos de garantias passem a ganhar participação na carteira.
Essa visão levou os analistas a revisarem suas projeções.
Enquanto o guidance oficial do Banco do Brasil prevê despesas com crédito entre R$ 65 bilhões e R$ 70 bilhões em 2026, o Itaú BBA trabalha com uma estimativa mais pessimista.
Projeção de provisões acima do guidance
Pelos cálculos do banco de investimentos, as despesas podem alcançar aproximadamente R$ 73,6 bilhões.
Caso essa projeção se confirme, o Banco do Brasil terá dificuldades para cumprir sua própria meta de custo de crédito.
Lucro do Banco do Brasil deve ficar perto do piso das estimativas
A piora da qualidade da carteira agrícola também afeta diretamente a lucratividade.
O Banco do Brasil já registrou forte deterioração dos resultados recentemente. O lucro líquido caiu de forma expressiva ao longo de 2025 e continuou pressionado no primeiro trimestre de 2026.
Diante desse cenário, o Itaú BBA revisou suas estimativas para os próximos períodos.
Lucro projetado para 2026
A projeção anterior apontava lucro líquido de R$ 21,2 bilhões.
Agora, os analistas estimam um resultado de aproximadamente R$ 18,4 bilhões.
O valor fica muito próximo do piso da faixa projetada pelo próprio Banco do Brasil, que prevê lucro entre R$ 18 bilhões e R$ 22 bilhões em 2026.
A revisão demonstra que o mercado ainda enxerga riscos relevantes para a recuperação da rentabilidade da instituição.
ROE também deve continuar pressionado
Outro indicador acompanhado de perto pelos investidores é o ROE (Return on Equity), ou retorno sobre patrimônio líquido.
Esse índice mede a capacidade da empresa de gerar lucro utilizando os recursos dos acionistas.
Queda na rentabilidade
O Itaú BBA reduziu sua projeção de ROE para 2026 de 10,6% para 9,3%.
O problema é que esse percentual permanece abaixo do custo de capital estimado pelo mercado.
Na prática, isso significa que o banco gera retorno considerado insuficiente para compensar os riscos assumidos pelos investidores.
Segundo os analistas, essa situação reduz significativamente as chances de valorização expressiva das ações no curto prazo.
Falta de catalisadores
Além da pressão operacional, o mercado também observa ausência de fatores que possam impulsionar uma reavaliação positiva dos papéis.
Entre os desafios estão:
- Revisões negativas de lucro;
- Incerteza sobre a inadimplência rural;
- Crescimento econômico moderado;
- Juros elevados afetando diversos setores.
Esse conjunto de fatores explica a manutenção da recomendação neutra para BBAS3.
Juros altos ajudam a compensar parte das perdas
Nem tudo, porém, é negativo na análise.
A manutenção da taxa Selic em níveis elevados gera benefícios importantes para os grandes bancos brasileiros.
Ganhos financeiros maiores
Quando os juros permanecem altos por mais tempo, instituições financeiras conseguem ampliar receitas em diversas frentes.
Entre elas:
- Tesouraria;
- Gestão de ativos;
- Aplicações financeiras;
- Operações vinculadas a títulos públicos.
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Para o Banco do Brasil, esse efeito positivo contribui para fortalecer a margem financeira.
Revisão da margem financeira
O Itaú BBA elevou sua projeção para a margem financeira bruta anual.
A estimativa passou de R$ 108,5 bilhões para R$ 113,4 bilhões.
O número está alinhado à expectativa do próprio Banco do Brasil de crescimento entre 7% e 11% nesse indicador.
Ainda assim, os analistas destacam que o benefício proporcionado pelos juros elevados não é suficiente para compensar totalmente o aumento das provisões relacionadas ao agronegócio.
Dividendos continuam relativamente protegidos
Uma das principais dúvidas dos investidores envolve a distribuição de dividendos.
O Banco do Brasil é tradicionalmente visto como uma das empresas pagadoras de dividendos mais relevantes da bolsa brasileira.
Nos últimos anos, muitos acionistas utilizaram o papel justamente como fonte de geração de renda passiva.
Payout deve ser mantido
Apesar da piora dos lucros, o Itaú BBA não acredita que o banco precise realizar novos cortes na política de distribuição.
A instituição trabalha atualmente com uma meta de payout de 30% do lucro líquido.
Segundo os analistas, a posição de capital continua confortável o suficiente para sustentar esse percentual.
Isso reduz o risco de mudanças significativas na remuneração dos acionistas no curto prazo.
Comparação com anos anteriores
Antes da crise enfrentada pelo agronegócio, o Banco do Brasil adotava uma postura mais agressiva.
Em 2024, por exemplo, a meta de distribuição era de 45% do lucro líquido e o percentual efetivamente distribuído chegou a superar esse patamar.
A redução para 30% reflete uma estratégia mais conservadora diante das incertezas atuais.
O que esperar das ações BBAS3?

Para os investidores, o principal fator de monitoramento continua sendo a evolução da carteira de crédito rural.
Caso a inadimplência avance além do esperado, novas revisões negativas podem surgir ao longo de 2026.
Por outro lado, se o banco conseguir controlar as perdas e aproveitar os benefícios dos juros elevados, parte das preocupações poderá ser reduzida.
No momento, o mercado parece adotar uma postura de espera.
A combinação entre provisões elevadas, lucro pressionado e rentabilidade menor limita o potencial de valorização das ações no curto prazo. Ainda assim, a manutenção dos dividendos e a forte posição de capital do Banco do Brasil impedem uma deterioração mais severa da percepção dos investidores.
Conclusão
O Banco do Brasil segue enfrentando um período delicado, marcado principalmente pelos desafios do agronegócio. A avaliação do Itaú BBA mostra que o mercado ainda não considera encerrado o ciclo de deterioração da carteira rural, o que deve exigir provisões maiores e continuar pressionando os resultados ao longo de 2026.
Embora a manutenção de juros elevados ofereça algum alívio para as receitas financeiras e os dividendos permaneçam relativamente protegidos, a expectativa é de lucro mais baixo e rentabilidade inferior ao histórico recente.
Para investidores e acionistas, os próximos trimestres serão decisivos para entender se o banco conseguirá atravessar a turbulência do setor agrícola sem comprometer sua capacidade de geração de valor no longo prazo.
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