O Banco do Brasil encerrou 2025 com lucro líquido de R$ 20,7 bilhões, um resultado expressivo mesmo diante de um cenário de juros elevados e crédito mais seletivo no país. No entanto, o desempenho positivo veio acompanhado de um sinal de alerta: a inadimplência atingiu o maior nível entre os grandes bancos tradicionais.
Banco do Brasil monitora inadimplência após impacto no agro
Banco do Brasil lucra R$ 20,7 bi em 2025, mas alta da inadimplência e crise no agro pressionam resultados e acendem alerta no mercado.
O mercado passou a observar o banco com mais cautela após a divulgação de um calote de R$ 3,6 bilhões no quarto trimestre, envolvendo uma única empresa. Embora o caso tenha sido posteriormente regularizado e cedido a terceiros, o episódio evidenciou um problema estrutural mais amplo: o aumento dos atrasos no pagamento de empréstimos em um ambiente de crédito caro e economia pressionada.
Leia mais:
Serviços bancários no Carnaval: veja o que fecha e como se organizar
Lucro robusto, mas pressão crescente no crédito
Segundo o balanço divulgado ao mercado, o índice de inadimplência acima de 90 dias do Banco do Brasil subiu para 5,17% no quarto trimestre de 2025. No trimestre anterior, estava em 4,51%. Um ano antes, era de 3,16%.
Mesmo desconsiderando o impacto do calote bilionário, a taxa teria ficado em 4,88%, ainda assim acima dos períodos anteriores.
Na prática, isso significa que aumentou o número de clientes que estão há mais de três meses sem pagar suas dívidas. Para um banco, esse indicador é crucial porque influencia diretamente:
- O risco de prejuízo futuro
- A necessidade de aumentar provisões
- O custo do crédito
- A percepção de risco por investidores
O Banco do Brasil terminou 2025 com a maior inadimplência entre os grandes bancos tradicionais:
- Banco do Brasil: 5,2%
- Itaú Unibanco: 2,4%
- Santander Brasil: 3,7%
- Bradesco: 4,1%
- Nubank: 6,6% (2º trimestre)
Embora o Nubank apresente percentual maior, trata-se de um modelo de negócio diferente, com foco relevante em crédito ao consumidor pessoa física.
O peso do agronegócio na deterioração
Banco do Brasil é o maior financiador do agro
O principal fator por trás da alta da inadimplência é o agronegócio. Historicamente, o Banco do Brasil é o maior financiador do setor no país, respondendo por quase metade do crédito rural concedido no Brasil.
Em dezembro de 2025, a carteira agro somava R$ 406,1 bilhões, equivalente a 31,3% da carteira total do banco. Apenas no Plano Safra 2025/2026, entre julho e dezembro, foram desembolsados mais de R$ 116 bilhões.
Essa forte exposição traz vantagens estratégicas, mas também aumenta o risco quando o setor enfrenta dificuldades.
Inadimplência rural sobe para 6,1%
No quarto trimestre, a inadimplência do segmento agro chegou a 6,1%, com deterioração expressiva em relação ao ano anterior.
Entre os principais fatores estão:
- Eventos climáticos extremos, como secas prolongadas e enchentes
- Queda nos preços de algumas commodities em períodos específicos
- Aumento do endividamento dos produtores
- Juros elevados
- Crédito mais restrito
O efeito combinado pressionou especialmente produtores de médio porte e micro, pequenas e médias empresas ligadas ao campo.
Recuperações judiciais batem recorde no país
A deterioração do agro não é um fenômeno isolado do Banco do Brasil. Dados da consultoria RGF mostram que o Brasil atingiu recorde de empresas em recuperação judicial no quarto trimestre de 2025: 5.680 companhias.
Embora comércio e serviços concentrem mais casos em números absolutos, o agronegócio lidera proporcionalmente.
O índice do setor chegou a 13,53 empresas em recuperação judicial a cada mil ativas, muito acima da média nacional de 2,13.
Dentro do agro, o cultivo de soja concentra 217 empresas em recuperação judicial, figurando entre os segmentos com maior número de pedidos no país.
Esse cenário ajuda a explicar por que a carteira rural do Banco do Brasil passou a apresentar deterioração mais acelerada.
Provisões sobem e pressionam resultado
Diante do aumento do risco, o banco elevou as provisões para perdas. Somente no agronegócio, as reservas chegaram a R$ 10,5 bilhões no quarto trimestre.
As provisões são recursos que o banco separa para cobrir possíveis calotes futuros. Quando aumentam, indicam maior cautela e postura conservadora.
Por um lado, isso reduz o lucro no curto prazo. Por outro, fortalece a solidez da instituição e evita riscos sistêmicos.
Especialistas destacam que a elevação das provisões demonstra responsabilidade na gestão de risco, especialmente em um contexto de Selic elevada e economia desacelerada.
O impacto do calote de R$ 3,6 bilhões
O caso que ganhou maior repercussão foi o atraso de R$ 3,6 bilhões envolvendo uma única empresa. Segundo o banco, a operação entrou em atraso no fim de 2025 durante uma negociação, foi regularizada em janeiro de 2026 e depois cedida a terceiros.
Embora o impacto contábil já estivesse previsto, o episódio trouxe três lições importantes para o mercado:
1. Concentração de crédito aumenta vulnerabilidade
Quando grandes valores estão concentrados em poucos clientes, um único evento pode distorcer indicadores relevantes.
2. Reservas robustas evitam crise de confiança
Manter provisões adequadas é essencial para preservar a credibilidade e a estabilidade do sistema financeiro.
3. O mercado de crédito ainda não normalizou
Após anos de forte expansão e posterior aperto monetário, o crédito no Brasil ainda passa por um processo de ajuste.
Reação do mercado e comportamento das ações
Após a divulgação do resultado, as ações do Banco do Brasil chegaram a subir mais de 8% na bolsa, refletindo a percepção de que o lucro permaneceu sólido.
No entanto, dias depois, os papéis passaram a operar em queda de 3,38%, cotados a R$ 15,15, mostrando volatilidade e cautela dos investidores diante do cenário de crédito pressionado.
Medidas adotadas pelo banco
Gostou? Siga o Seu Crédito Digital no Google e receba notícias de benefícios, INSS e crédito em primeira mão.
+311 mil seguidores
Para conter o avanço dos atrasos no agro, o banco lançou o programa BB Regulariza Dívidas Agro.
A iniciativa permite renegociar:
- Débitos de custeio
- Investimentos
- Cédulas de Produto Rural
Os prazos podem chegar a até nove anos. Até dezembro, R$ 22,6 bilhões haviam sido renegociados com mais de 15 mil produtores.
A estratégia busca preservar relacionamento com clientes e evitar que dificuldades momentâneas se transformem em perdas definitivas.
O que esperar para 2026
Analistas avaliam que a normalização da inadimplência no agronegócio deve ocorrer de forma gradual, especialmente se houver:
- Queda consistente da taxa Selic
- Recuperação de preços das commodities
- Melhora nas condições climáticas
- Alongamento de dívidas
O próprio banco projeta crescimento modesto da carteira agro em 2026, entre -2% e +2%, sinalizando postura mais conservadora.
Há risco sistêmico?
Especialistas em reestruturação empresarial avaliam que o episódio não representa risco generalizado ao sistema financeiro brasileiro.
O que se observa é um ambiente de maior seletividade no crédito, com bancos reforçando critérios de concessão e aumentando reservas.
O sistema financeiro nacional é regulado e supervisionado pelo Banco Central do Brasil, que exige níveis mínimos de capital e provisões adequadas para garantir estabilidade.
Portanto, o momento é de atenção redobrada, mas não de pânico.
O que isso significa para o cliente comum
Para quem é cliente ou investidor, os principais impactos são:
- Crédito mais criterioso
- Possível aumento nas taxas para perfis considerados mais arriscados
- Maior exigência de garantias
- Renegociações como alternativa para evitar inadimplência
Em um cenário de juros ainda elevados, planejamento financeiro e controle de endividamento continuam sendo fundamentais.
Conclusão
O Banco do Brasil demonstrou resiliência ao fechar 2025 com lucro bilionário. No entanto, a alta da inadimplência, especialmente no agronegócio, revela que o ciclo de crédito no Brasil ainda está sob pressão.
O calote de R$ 3,6 bilhões não representa ameaça sistêmica, mas reforça a necessidade de gestão rigorosa de risco e atenção à qualidade dos empréstimos.
Para investidores, o momento exige análise cuidadosa. Para empresas e produtores, disciplina financeira é ainda mais essencial. E para o sistema financeiro, o recado é claro: a normalização será gradual.
Não perca nenhuma oportunidade de crédito e pagamento: acesse agora nossas últimas notícias no Seu Crédito Digital.
INFORMAÇÕES ATUALIZADAS 2026:
Informacoes Atualizadas 2026:
