Seu Crédito Digital
Seu Crédito Digital

“Precisamos excluir a data”: PF aponta fabricação de documentos falsos no Banco Master

A investigação sobre o Banco Master ganhou novos elementos com a divulgação de detalhes da perícia realizada pela Polícia Federal (PF). Segundo o material analisado pelos investigadores, documentos relacionados a operações de crédito consignado atribuídas à Tirreno Consultoria teriam sido produzidos e modificados por meio de uma estrutura digital organizada. O mecanismo combinava informações reais […]

Avatar de Vitória Monckes Vitória Monckes · · 6 min de leitura
IMG 1884

A investigação sobre o Banco Master ganhou novos elementos com a divulgação de detalhes da perícia realizada pela Polícia Federal (PF). Segundo o material analisado pelos investigadores, documentos relacionados a operações de crédito consignado atribuídas à Tirreno Consultoria teriam sido produzidos e modificados por meio de uma estrutura digital organizada.

O mecanismo combinava informações reais de clientes, ferramentas do Microsoft Office, consultas a bancos de dados, programação, certificados digitais e edição de arquivos PDF. A finalidade, de acordo com a investigação, era criar conjuntos documentais que apresentassem aparência de legitimidade para operações posteriormente relacionadas ao Banco de Brasília (BRB).

O caso chama atenção porque a suposta fraude não dependia simplesmente da criação manual de documentos. A tecnologia teria permitido reproduzir peças em grande escala, reaproveitar elementos de arquivos antigos e modificar informações capazes de revelar quando e como os documentos haviam sido produzidos.

Leia mais:

INSS investiga Banco Master e Credcesta: Veja se seu empréstimo é irregular agora

Como funcionava a estrutura identificada pela PF

concurso Policia-Federal pf suspeitos saque fraude
Reprodução: Seu Crédito Digital / Freepik

A perícia descreve um fluxo dividido em diferentes etapas. Primeiro, informações de clientes que já haviam realizado operações eram extraídas dos sistemas internos. Depois, esses dados eram organizados para alimentar novos documentos.

Em seguida, ferramentas automatizadas eram utilizadas para produzir procurações e outras peças em quantidade elevada. A investigação também encontrou indícios de tratamento separado das páginas que continham assinaturas, além da utilização de certificados digitais para assinar lotes de Cédulas de Crédito Bancário.

Os documentos posteriormente eram reunidos em arquivos PDF, formando conjuntos que poderiam ser apresentados como comprovação das operações.

A PF identificou ainda procedimentos destinados a retirar datas, horários e outras informações que poderiam indicar que determinados documentos eram antigos ou haviam sido produzidos em período diferente daquele apresentado no conteúdo.

Dados verdadeiros teriam sido usados como base

Um dos aspectos mais relevantes da investigação é a utilização de informações reais.

Segundo a perícia divulgada, dados cadastrais de pessoas que já tinham relacionamento com produtos de crédito foram extraídos de sistemas internos e organizados em planilhas. Essas informações poderiam então ser utilizadas para preencher automaticamente novos documentos.

Esse método aumenta a aparência de autenticidade de uma documentação porque os arquivos não necessariamente começam com nomes ou dados inventados. Eles podem conter informações verdadeiras, mas ser utilizados em um contexto diferente daquele em que foram originalmente registrados.

A investigação também identificou discussões internas sobre inconsistências nas bases utilizadas, indicando que integrantes da estrutura teriam percebido que determinados registros não correspondiam ao perfil esperado para a carteira que estava sendo montada.

Milhares de documentos produzidos em lote

A chamada mala direta do Word aparece como um dos instrumentos empregados na produção documental.

A tecnologia permite conectar uma planilha a um modelo de documento e gerar automaticamente uma versão individualizada para cada registro. Dessa forma, nomes, CPFs e outras informações podem ser inseridos em centenas ou milhares de arquivos sem que cada documento precise ser elaborado manualmente.

De acordo com a perícia, esse recurso teria sido utilizado para gerar cerca de 2.700 procurações relacionadas à demanda envolvendo a Tirreno.

O ponto central não é a ferramenta utilizada, que é comum em empresas e possui aplicações legítimas, mas a finalidade que a investigação atribui ao seu uso naquele contexto.

Assinaturas digitais também deixaram vestígios

Outro elemento importante foi a utilização de assinaturas digitais.

Segundo os investigadores, páginas de assinatura de documentos antigos teriam sido separadas por meio de programas desenvolvidos internamente. A perícia encontrou arquivos contendo páginas isoladas de documentos, incluindo termos de consentimento.

As Cédulas de Crédito Bancário também foram organizadas em lotes para assinatura.

O procedimento, porém, teria criado uma inconsistência difícil de eliminar: a data indicada no corpo de determinado documento poderia ser muito anterior ao momento em que sua assinatura digital foi efetivamente registrada.

Essa diferença é particularmente relevante em uma investigação de natureza documental porque a assinatura digital pode conter informações técnicas capazes de ajudar a estabelecer a cronologia de um arquivo.

A tentativa de retirar datas dos arquivos

A perícia também identificou documentos nos quais informações de data e horário foram removidas.

Um dos exemplos citados envolve um Termo de Consentimento que originalmente continha uma data de 2023 e posteriormente teve essa informação retirada. A alteração teria ocorrido em 2025, durante a preparação dos documentos.

A remoção visual, entretanto, não necessariamente elimina todos os vestígios digitais. Metadados, registros de assinatura, propriedades dos arquivos e outros elementos técnicos podem permitir que peritos reconstruam parte da história de um documento.

Foi justamente a comparação entre diferentes registros que ajudou a investigação a identificar divergências cronológicas.

Os documentos eram transformados em dossiês

Depois de preparados individualmente, os arquivos precisavam formar uma documentação coerente.

A investigação aponta que CCBs, procurações, termos e outros documentos eram reunidos em PDFs únicos. Assim, peças produzidas ou modificadas separadamente passavam a integrar um mesmo conjunto documental.

Essa etapa era importante porque uma carteira de crédito não é analisada apenas a partir de uma informação isolada. A documentação de suporte é utilizada para demonstrar a existência, origem e características dos contratos.

Segundo a PF, era justamente essa aparência de conjunto documental que ajudaria a sustentar as operações atribuídas à Tirreno.

Por que a perícia digital é importante no caso Master

O caso demonstra uma característica cada vez mais relevante das investigações financeiras: documentos digitais podem ser alterados, mas frequentemente deixam rastros.

Uma alteração feita em um PDF pode não aparecer para quem abre o arquivo normalmente. Isso não significa, porém, que a modificação seja impossível de detectar por uma perícia especializada.

Assinaturas digitais, horários de criação e modificação, estruturas internas de arquivos, registros de sistemas, mensagens corporativas e versões armazenadas podem ser confrontados para estabelecer uma sequência temporal.

Foi esse cruzamento que permitiu à PF apontar diferenças entre informações apresentadas nos documentos e registros técnicos relacionados à sua produção.

O que a investigação aponta sobre a Tirreno e o BRB

brb 1
Imagem: Reprodução

A Tirreno aparece no centro da apuração porque, segundo os investigadores, a empresa teria sido utilizada para formalizar uma carteira de créditos consignados que posteriormente esteve relacionada às operações com o BRB.

O material divulgado pela investigação trata de R$ 7,15 bilhões em créditos atribuídos à Tirreno, dentro de um conjunto maior de operações analisadas pela PF. A apuração busca determinar a origem dos ativos, a existência dos contratos e a participação dos diferentes envolvidos.

É importante destacar que as conclusões apresentadas pela Polícia Federal fazem parte de uma investigação. A atribuição definitiva de responsabilidade criminal depende do avanço do processo e das decisões judiciais.

Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

Compartilhar
Seu Crédito Digital

Descubra tudo que você tem direito

Benefícios, crédito e dinheiro esquecido: veja as ofertas e ferramentas que separamos para o seu perfil.