As apostas esportivas e os jogos de quota fixa, conhecidos popularmente como bets, deixaram de ser apenas uma questão de entretenimento e passaram a fazer parte do debate econômico brasileiro. Além dos efeitos sobre endividamento e comportamento de apostadores, estudos recentes tentam medir quanto dinheiro das famílias é direcionado às plataformas e quais seriam as consequências dessa movimentação para o consumo, o PIB, a arrecadação e a desigualdade.
Um estudo elaborado pelo economista Guilherme Klein, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Made-USP, estima que as apostas tenham reduzido a atividade econômica brasileira em R$ 120 bilhões a R$ 141 bilhões em 2025, equivalente a aproximadamente 0,9% a 1,1% do PIB daquele ano.
O número, porém, não representa uma perda diretamente observada nas contas nacionais. Trata-se de uma estimativa baseada em cenários e hipóteses econômicas, ponto que é contestado por entidades que representam o setor de apostas.
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Como as bets podem afetar a economia
A lógica do estudo parte de um conceito relativamente simples: o dinheiro utilizado nas apostas deixa de estar disponível para outras formas de consumo.
O economista considera a diferença entre o total colocado pelas famílias nas plataformas e o valor que retorna aos apostadores na forma de prêmios. Com base em dados do Banco Central, o Comsefaz estimou essa transferência líquida de recursos em R$ 62,5 bilhões em 2025.
Na prática, imagine uma família que destina R$ 500 a apostas durante determinado período e recebe R$ 300 de volta. Os R$ 200 restantes representam recursos que poderiam ter sido utilizados em alimentação, roupas, serviços, lazer ou outros produtos.
O impacto econômico depende justamente do que aconteceria com esse dinheiro em um cenário sem apostas.
Por que a renda das famílias é importante
O efeito não é necessariamente igual para todas as pessoas. Famílias de renda mais baixa tendem a comprometer uma parcela maior do orçamento com despesas de consumo.
Por isso, o estudo trabalha com diferentes hipóteses sobre a distribuição dos gastos com apostas entre as faixas de renda. Depois, aplica multiplicadores econômicos para estimar como uma redução no dinheiro disponível das famílias poderia afetar o consumo agregado.
A partir desses cenários, chega-se à estimativa de até R$ 141 bilhões de impacto negativo sobre a atividade econômica.
É importante destacar que esse cálculo não significa que R$ 141 bilhões tenham desaparecido da economia. O valor representa uma estimativa do consumo e da atividade econômica que poderiam deixar de ocorrer em função da transferência de recursos para as apostas.
Efeito sobre o comércio e o consumo
Outro levantamento reforça a preocupação com o impacto das apostas sobre o orçamento doméstico. A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) estimou que o avanço da inadimplência severa associado, entre outros fatores, aos gastos com bets teria contribuído para retirar R$ 144 bilhões das vendas do comércio entre 2024 e 2025.
A relação, entretanto, precisa ser interpretada com cuidado. Endividamento e inadimplência possuem múltiplas causas, como desemprego, juros, inflação e redução da renda disponível.
Ainda assim, quando uma parcela significativa do orçamento é direcionada a apostas, o espaço para despesas consideradas essenciais ou para o consumo tradicional pode diminuir.
Para o comércio, isso significa menos dinheiro circulando em segmentos como vestuário, alimentação, eletrodomésticos, lazer e serviços.
Bets aumentam ou reduzem a arrecadação?
A tributação das plataformas de apostas criou uma nova fonte de receita para o governo. Porém, o estudo de Klein questiona se a arrecadação direta é suficiente para compensar uma eventual redução da atividade econômica.
O raciocínio considera que uma economia menor tende a gerar menos tributos sobre o consumo. Impostos incidentes sobre bens e serviços, como ICMS, ISS e IPI, estão diretamente relacionados à movimentação econômica.
Com a implementação da reforma tributária, a estrutura também passa por mudanças, com a substituição gradual de tributos atuais pelo IBS e pela CBS.
Considerando uma carga tributária de aproximadamente 32,4% do PIB em 2025, o estudo estima uma perda líquida de arrecadação entre R$ 22 bilhões e R$ 46 bilhões, já descontados os impostos diretamente arrecadados sobre as bets.
Essa conclusão, contudo, depende das premissas utilizadas para calcular o impacto sobre o PIB.
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Qual pode ser o efeito sobre a desigualdade?
A desigualdade é outro ponto analisado pelo levantamento.
Segundo o estudo, se os recursos transferidos para as apostas estiverem concentrados principalmente entre famílias de menor renda e uma parcela significativa do dinheiro acabar beneficiando grupos mais ricos, poderá ocorrer aumento da concentração de renda.
Nos cenários apresentados pelo pesquisador, o aumento da concentração no topo da distribuição poderia variar de 0,5% a 2,1%.
Esse resultado também deve ser visto como uma simulação, e não como uma medição direta de que a desigualdade brasileira tenha aumentado exatamente nesses percentuais por causa das bets.
Setor de apostas contesta metodologia

As associações que representam as empresas de apostas questionam as conclusões do estudo.
A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) afirma que os resultados dependem fortemente das hipóteses adotadas e não constituem uma estimativa causal do efeito das bets sobre o PIB. A entidade também questiona o multiplicador econômico utilizado e argumenta que parte dos gastos com apostas poderia substituir outras formas de entretenimento, em vez de representar uma perda integral de consumo.
O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) também ressalta que o estudo utiliza uma estimativa contrafactual de R$ 62,5 bilhões, e não um valor de perdas efetivamente registrado pelas operadoras.
O instituto afirma ainda que uma avaliação completa deveria considerar geração de empregos, fornecedores, tecnologia, publicidade, patrocínios, investimentos e arrecadação proporcionados pelo setor regulado.
Essas ressalvas são importantes porque mostram que não existe consenso de que as bets tenham retirado exatamente R$ 120 bilhões a R$ 141 bilhões do PIB. O número é uma projeção econômica construída a partir de determinadas premissas.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital



