A dificuldade das famílias brasileiras para manter o orçamento pode produzir efeitos que vão muito além das contas atrasadas. Um estudo inédito do Ibevar-FIA Business School identificou uma relação entre perda de poder de compra, endividamento, redução do consumo e desaceleração da geração de empregos no varejo.
A pesquisa utilizou um modelo econométrico de Vetores de Correção de Erros (VECM) para avaliar nove indicadores ligados a renda, crédito e consumo. Segundo os resultados, a deterioração do orçamento doméstico pode chegar ao mercado de trabalho com uma defasagem de até 12 meses.
O diagnóstico ganha relevância diante do cenário atual do crédito. Dados do Banco Central mostram que o endividamento das famílias chegou a 49,8% da renda acumulada em 12 meses em maio de 2026. O comprometimento da renda com dívidas também permanecia elevado.
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Como o aperto financeiro chega ao emprego
O estudo do Ibevar-FIA aponta que o processo não começa necessariamente quando o consumidor contrata um novo empréstimo. O primeiro movimento pode ser a redução de despesas e a tentativa de preservar o consumo essencial.
Quando a renda deixa de acompanhar o custo de vida, famílias podem recorrer ao crédito para manter despesas básicas. Nesse cenário, supermercado, farmácia, vestuário e outros gastos cotidianos passam a disputar espaço com prestações e contas já existentes.
De acordo com o levantamento, depois de 12 meses, a queda do rendimento real e a necessidade de preservar o consumo básico respondem por 22,3% da variação do endividamento das famílias.
Na prática, isso significa que o crédito pode funcionar inicialmente como uma espécie de amortecedor. O problema aparece quando o recurso deixa de complementar a renda e passa a ser necessário para pagar despesas recorrentes.
A dívida tende a se alimentar da própria dívida
Nos primeiros períodos analisados, o endividamento apresenta forte persistência. Segundo o modelo, no primeiro mês, 94,5% da dinâmica da dívida está relacionada à própria inércia do endividamento.
Com o passar do tempo, essa influência diminui. Depois de um ano, a participação cai para 59,1%, enquanto fatores relacionados à renda e ao consumo ganham maior peso.
Esse mecanismo ajuda a explicar por que uma família pode entrar em dificuldade mesmo sem realizar grandes compras. Um orçamento pressionado pode levar ao parcelamento de despesas essenciais, seguido por novos empréstimos para cobrir parcelas anteriores.
Inadimplência agrava o problema
O aumento das dívidas também pode elevar a probabilidade de atraso. O Banco Central registrou, em junho de 2026, inadimplência de 5,6% na carteira de crédito das pessoas físicas. No crédito livre, o índice das famílias chegou a 7,6%.
Os juros também continuam sendo um obstáculo para quem depende de crédito. A taxa média do crédito livre para pessoas físicas alcançou 64% ao ano em junho, segundo dados do Banco Central.
Isso ajuda a entender o chamado efeito bola de neve. Uma dívida assumida para cobrir uma despesa pontual pode ficar mais cara quando é refinanciada ou transferida para modalidades com juros elevados.
A inadimplência, por sua vez, pode reduzir o acesso a novas linhas de crédito e aumentar o custo de financiamento para consumidores considerados mais arriscados.
Por que o varejo sente primeiro?
O varejo depende diretamente da capacidade de consumo das famílias. Quando o orçamento aperta, os consumidores tendem a priorizar itens essenciais e adiar compras consideradas menos urgentes.
Esse comportamento afeta principalmente segmentos que dependem de maior frequência de compras ou de decisões de consumo que podem ser adiadas. Com vendas mais fracas, empresas podem reduzir investimentos, horas trabalhadas e novas contratações.
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O estudo do Ibevar-FIA estima que as vendas do varejo restrito respondem por 21,8% das oscilações do nível de ocupação ao final de 12 meses.
O impacto, portanto, não ocorre necessariamente de forma imediata. A empresa pode inicialmente absorver a queda nas vendas. Se o enfraquecimento persistir, entretanto, a pressão sobre custos e margens pode limitar a abertura de novas vagas.
O emprego funciona como uma espécie de amortecedor
Segundo o levantamento, o mercado de trabalho consegue suportar durante alguns meses os efeitos do endividamento e dos atrasos das famílias. A deterioração tende a aparecer gradualmente.
Isso é importante porque impede uma interpretação simplista de causa e efeito. Uma queda no consumo hoje não significa necessariamente demissões imediatas. O estudo aponta uma janela de aproximadamente seis a 12 meses para que os efeitos acumulados apareçam com maior intensidade.
Endividamento das famílias já é um ponto de atenção

Outros indicadores mostram que o problema merece acompanhamento. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da CNC, apontou que 82% das famílias estavam endividadas em julho de 2026, maior nível da série pelo sexto mês consecutivo. A parcela com dívidas atrasadas, entretanto, recuou para 29,8%.
Os dados mostram que estar endividado não significa necessariamente estar inadimplente. Uma família pode possuir financiamento ou parcelamento em dia. A situação se torna mais preocupante quando a renda disponível não é suficiente para cumprir os compromissos assumidos.
Por isso, a combinação entre endividamento elevado, crédito caro e perda de poder de compra merece atenção especial.
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital



