As big techs americanas intensificaram sua ofensiva contra decisões recentes do Supremo Tribunal Federal (STF) e da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). As críticas foram enviadas ao USTR (Representante Comercial dos Estados Unidos) no âmbito da investigação 301, que apura se o Brasil estaria adotando práticas comerciais ilegais e restritivas ao setor de tecnologia.
STF e Anatel enfrentam críticas de big techs em investigação dos EUA
Big techs criticam STF e Anatel em investigação dos EUA. Empresas alegam censura, insegurança jurídica e barreiras comerciais no Brasil.
Os pontos centrais de insatisfação são a reinterpretação do artigo 19 do Marco Civil da Internet, que ampliou a responsabilização das plataformas digitais por conteúdos de terceiros, e a resolução 780/2025 da Anatel, que revisou regras sobre data centers e redes de telecomunicações.
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Decisão do STF no alvo das big techs
Alteração do artigo 19 do Marco Civil da Internet
Em junho de 2025, o STF decidiu reinterpretar o artigo 19 do Marco Civil da Internet, que até então limitava a responsabilização das plataformas à falta de resposta a ordens judiciais de remoção de conteúdo.
A nova leitura aumenta a responsabilidade civil das redes sociais e provedores de serviços digitais, mesmo sem notificação prévia, caso se entenda que houve falha em remover conteúdos considerados ilegais.
CCIA: insegurança jurídica e risco à liberdade de expressão
A Computer & Communications Industry Association (CCIA) afirmou ao USTR que a decisão do STF trouxe “significativa incerteza jurídica” e ameaça prejudicar empresas americanas:
“A decisão expõe provedores a padrões elevados e potencialmente subjetivos de responsabilidade civil, mesmo na ausência de notificação prévia”, destacou a entidade.
A CCIA alertou ainda para riscos à liberdade de expressão, uma vez que as plataformas, para evitar penalidades, podem optar por remoções preventivas em excesso, limitando o debate público.
ITI: tratamento desigual em relação a outros meios
O Conselho da Indústria de Tecnologia da Informação (ITI) reforçou a crítica, apontando que o novo regime cria obrigações mais severas para plataformas digitais do que para meios tradicionais como TV e rádio.
Segundo o ITI, as empresas podem ser consideradas responsáveis por anúncios ilegais, salvo se provarem que agiram de forma “diligente” em um “prazo razoável”, termos que a entidade considera vagos e de difícil aplicação.
Anatel e a polêmica sobre data centers
Resolução 780/2025
Outro ponto de atrito é a resolução 780/2025 da Anatel, publicada em 1º de agosto, que revisou o Regulamento de Avaliação da Conformidade e Homologação de Produtos para Telecomunicações (RACPT).
A norma ampliou as obrigações regulatórias para data centers que integram redes de telecomunicações, exigindo certificações adicionais e impondo novas taxas.
Acusações de barreira comercial
Para a CCIA, a medida cria uma barreira ao comércio digital:
“Tais medidas correm o risco de operar como uma prática onerosa que prejudica o acesso ao mercado para empresas americanas e impede serviços digitais transfronteiriços.”
As entidades argumentam que os custos recairão desproporcionalmente sobre as big techs americanas, forçando-as, na prática, a subsidiar concorrentes locais.
NetChoice: STF como “instrumento de supressão política”

Ordens imediatas de remoção
A associação NetChoice, que reúne empresas do setor online, foi ainda mais dura em sua manifestação ao USTR. A entidade acusou o STF de ter se concedido “autoridade sem precedentes para emitir ordens imediatas de remoção de conteúdo sem autorização legislativa”, o que criaria um ambiente de insegurança regulatória.
Segundo a NetChoice, isso permite ações imprevisíveis baseadas em preferências políticas individuais de juízes, afetando diretamente empresas estrangeiras.
Cotas de remoção e eleições
A entidade denunciou ainda a existência de “sistemas informais de cotas de remoção de conteúdo” durante períodos eleitorais, pressionando plataformas a adotar políticas de censura excessiva para evitar punições.
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Caso do X como exemplo extremo
A NetChoice citou como exemplo a decisão de 30 de agosto de 2024, que determinou o banimento temporário da plataforma X (ex-Twitter) no Brasil.
Segundo a associação, a medida foi um caso de “extorsão”, já que a empresa foi multada em até US$ 1 milhão por dia por não bloquear o acesso via VPN, algo tecnicamente impossível. No fim, foi obrigada a pagar US$ 5 milhões em multas para retomar as operações.
Argumentos sobre “falha sistêmica”
Responsabilidade ampliada
Outro ponto destacado pelas associações é a possibilidade de responsabilização por “falha sistêmica”. Isso significa que, ainda que não sejam culpadas por casos isolados, plataformas podem ser punidas por não adotar medidas suficientes para prevenir e remover conteúdos considerados ilegais, como:
- pornografia infantil;
- tráfico de pessoas;
- terrorismo;
- discurso de ódio.
Segundo o ITI, o conceito é vago e subjetivo, o que aumenta a insegurança jurídica para empresas estrangeiras.
Consequências para a relação Brasil-EUA

Impacto na investigação 301
As críticas chegam ao USTR em momento decisivo da investigação 301, mecanismo usado pelos EUA para analisar práticas comerciais consideradas injustas ou discriminatórias. O resultado pode levar à aplicação de sanções comerciais contra o Brasil, incluindo tarifas e restrições a empresas brasileiras no mercado norte-americano.
Alinhamento com empresas brasileiras
Curiosamente, as posições das big techs americanas se alinham às de empresas brasileiras de tecnologia, que também vêm criticando decisões recentes do STF e da Anatel, alegando excesso de regulação e custos elevados.
Imagem: Fellip Agner /Shutterstock.com
