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Big techs enfrentam crise: demissões em massa questionam modelos de gestão

Big techs vivem reestruturação profunda com mais de 650 mil demissões desde 2022. Especialistas apontam falhas de gestão, limites da IA e mais.

Bruna MachadoPor Bruna Machado6 min de leitura
Big Techs

O setor de tecnologia, há pouco tempo símbolo de inovação e crescimento sem precedentes, enfrenta uma das maiores ondas de demissões da história. Desde 2022, mais de 650 mil profissionais foram desligados globalmente, segundo dados do Layoffs.fyi, em um movimento que começou nas gigantes do Vale do Silício e hoje se espalha por empresas do mundo todo, incluindo o Brasil.

O que parecia ser uma reorganização temporária após o pico da pandemia, consolidou-se em uma reconfiguração estrutural, impulsionada por cortes de custos, automação acelerada, mudanças nas fontes de financiamento e um mercado cada vez mais exigente em relação à eficiência.

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Imagem: Ascannio / Shutterstock.com

Microsoft: foco na inteligência artificial

A Microsoft anunciou o desligamento de 3% de sua força global de trabalho em 2025 — o equivalente a cerca de 6.800 funcionários. A justificativa oficial foi a de um realinhamento estratégico, com foco em áreas de maior crescimento, sobretudo inteligência artificial.

Essa nova rodada de cortes ocorre menos de um ano após a empresa ter eliminado 10 mil postos de trabalho, sinalizando que a busca por eficiência virou uma constante nas big techs, mesmo entre aquelas que continuam lucrativas.

IBM: substituição por IA expõe riscos

No caso da IBM, a situação foi ainda mais simbólica. A empresa demitiu cerca de 8 mil funcionários com o objetivo de substituí-los por sistemas de IA. Contudo, a expectativa de ganhos de produtividade não se concretizou como esperado e parte dos profissionais precisou ser recontratada.

Essa reviravolta revelou os limites atuais da automação e o perigo de subestimar o conhecimento tácito e contextual acumulado pelos profissionais humanos.

Facebook, Amazon, Google e mais: reestruturação global em marcha

O impacto das demissões se estende por outras gigantes:

  • Meta (Facebook): demissão de 3.600 funcionários em 2025, cerca de 5% da força de trabalho;
  • Amazon: cortou 27 mil postos em 2023, principalmente em logística e operações digitais;
  • Google, Dell, Spotify e Salesforce: também implementaram cortes expressivos, atingindo equipes antes consideradas estratégicas, como desenvolvimento de produto e engenharia.

Embora esses movimentos tenham sido bem recebidos pelo mercado financeiro, com valorização imediata das ações, os impactos humanos são severos.

O custo humano da eficiência: estresse e burnout em alta

Um levantamento da McKinsey & Company revelou que mais de 60% dos profissionais de tecnologia relataram aumento nos níveis de estresse e insegurança desde o início das demissões em massa.

Casos de burnout, instabilidade emocional e incerteza profissional vêm crescendo, especialmente entre trabalhadores que atuavam em áreas promissoras e hoje enfrentam um mercado retraído e seletivo.

Inteligência artificial: solução ou vilã?

O dilema da substituição total

O caso da IBM representa uma tendência emergente: usar a IA como justificativa para cortes profundos, antes mesmo de validar sua capacidade real de substituir o trabalho humano em escala.

Segundo Sylvestre Mergulhão, CEO da Impulso, empresa especializada em produtividade e reestruturação de equipes, o problema está na pressa das empresas em economizar, sem planejamento:

“As empresas estão descobrindo da maneira mais difícil que a IA ainda não é uma substituição direta para o conhecimento humano acumulado, especialmente em funções que exigem tomada de decisão complexa e experiência contextual”, afirma.

Brasil: startups e scale-ups sentem o impacto

Fim dos aportes fartos

Em 2025, startups e scale-ups brasileiras também entraram na onda de cortes. Com queda acentuada nos aportes de venture capital, pressão por eficiência operacional e um ambiente macroeconômico instável, muitas empresas foram forçadas a reduzir equipes e enxugar estruturas.

Mergulhão aponta que o modelo de gestão das big techs foi importado para o ecossistema nacional de forma acelerada e superficial:

“Crescer a qualquer custo virou um atalho para a ineficiência. Muitos negócios inflaram times sem ter uma estratégia de sustentabilidade. Quando o mercado apertou, cortaram na carne — mas sem estratégia, como quem limpa a planilha e não reorganiza o negócio.”

Um novo modelo de gestão: squads, dados e agilidade

Adeus ao RH tradicional

Para Mergulhão, a saída não está apenas em demitir menos, mas em construir estruturas organizacionais mais inteligentes:

  • Squads sob demanda: equipes temporárias e multidisciplinares que atuam por projetos;
  • Formações contínuas: foco no upskilling e reskilling de talentos internos;
  • Gestão baseada em dados: decisões orientadas por métricas reais de produtividade e impacto.

“Quem insistir no modelo de RH tradicional, centrado em organogramas rígidos e metas lineares, vai continuar demitindo. É hora de evoluir para um modelo dinâmico e resiliente”, alerta o executivo.

Demissões como métrica de performance?

Um dos aspectos mais controversos da atual onda de cortes é o fato de que as demissões em massa passaram a ser vistas como um sinal positivo pelo mercado, e não como sintoma de desequilíbrio interno.

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Para Mergulhão, isso representa uma desumanização preocupante:

“Pessoas não são números. Cada demissão representa uma falha estrutural. Transformar corte de pessoal em KPI é uma perversão da gestão moderna.”

O que esperar para o segundo semestre de 2025?

Especialistas avaliam que as demissões devem continuar ao longo de 2025, embora em ritmo mais seletivo. Empresas que já fizeram reestruturações profundas agora buscam manter equipes mais enxutas e focadas em resultados concretos, com menos apostas arriscadas e mais controle de métricas operacionais.

As áreas de maior risco continuam sendo:

  • Marketing e vendas B2C;
  • Produto e inovação;
  • Desenvolvimento back-end tradicional;
  • Suporte técnico não automatizado.

Por outro lado, ganham espaço:

  • Profissionais com experiência em IA generativa e engenharia de prompt;
  • Gestores de dados e cientistas com foco em produtividade;
  • Analistas de mercado com visão estratégica de transformação digital.

Caminhos para trabalhadores e empresas

token digital big techs
Imagem: Freepik e Canva

Para os profissionais

  • Invista em reskilling e novas certificações;
  • Busque experiências com projetos interdisciplinares e squads ágeis;
  • Valorize empresas com políticas claras de cultura, saúde mental e transparência;
  • Construa uma rede profissional sólida para enfrentar períodos de transição.

Para as empresas

  • Evite contratações por impulso e crescimentos desordenados;
  • Crie modelos flexíveis de equipe, ajustáveis por demanda;
  • Use a IA como aliada, e não substituta indiscriminada;
  • Priorize liderança humana, com visão de longo prazo e responsabilidade social.

Considerações finais

A onda de demissões em massa no setor de tecnologia é mais do que um reflexo da automação ou da retração econômica: trata-se de uma crise de modelo de gestão, que colocou crescimento acima de sustentabilidade e eficiência acima da empatia.

Com mais de 650 mil desligamentos desde 2022, o setor está sendo forçado a rever seus fundamentos. O desafio agora é reconstruir sobre bases sólidas: organizações enxutas, lideranças conscientes e estruturas adaptáveis à nova realidade do trabalho digital e da inteligência artificial.

O futuro do trabalho em tecnologia não será menos humano — será mais inteligente, empático e estratégico. Mas só se as empresas escolherem trilhar esse caminho.

Bruna Machado

Autor

Bruna Machado

Bruna Cassana é gaúcha, natural de Pelotas, e atua como redatora no Seu Crédito Digital. Curiosa por natureza, está sempre conectada às tendências da web e às principais novidades sobre finanças, benefícios sociais e tecnologia. Com olhar atento às transformações digitais e linguagem acessível, Bruna contribui para informar e orientar leitores em decisões do cotidiano.

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