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Crise nos EUA impulsiona Bitcoin: investidores buscam refúgio fora do dólar

Com a crescente desconfiança em relação à economia dos EUA, o Bitcoin se destaca como refúgio para investidores. Entenda como as tarifárias de Trump influenciam

Tainara FerreiraPor Tainara Ferreira6 min de leitura
Bitcoin

Com o cenário geopolítico se deteriorando e os fundamentos da economia norte-americana sendo colocados em xeque por medidas protecionistas, o Bitcoin volta a ocupar o centro das atenções como um dos principais ativos de proteção para investidores globais.

A criptomoeda, frequentemente criticada por sua volatilidade, tem sido apontada como alternativa viável diante da queda de confiança no dólar, nos títulos do Tesouro americano e nas ações das grandes empresas dos EUA.

A recente escalada nas tensões comerciais provocada pelas políticas do presidente Donald Trump reacendeu debates sobre a real força dos Estados Unidos no cenário global. Esse reposicionamento estratégico de investidores está diretamente relacionado ao desempenho do Bitcoin nas últimas semanas.

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Desempenho do Bitcoin em meio à turbulência: números que impressionam

Desde o anúncio das tarifas de importação feitas por Trump em 2 de abril, o Bitcoin iniciou uma trajetória de valorização consistente, ganhando mais de 33% desde o seu ponto mais baixo naquele mês. Só em abril, a moeda digital valorizou-se 15%, encostando novamente no patamar de US$ 100 mil — nível não visto há mais de três meses.

Em contrapartida, os principais índices do mercado acionário norte-americano tiveram um desempenho bem mais tímido ou negativo: o S&P 500 recuou 0,8%, o Nasdaq avançou modestos 0,8% e o índice do dólar caiu mais de 4% no mesmo período.

Descolamento dos ativos tradicionais é sintomático

Segundo a empresa de análise Block Scholes, o Bitcoin superou o desempenho do mercado de ações em 10 das 17 sessões após o início das tarifas de importação. Os analistas destacam que esse comportamento reforça a percepção de que a criptomoeda deixou de ser tratada como apenas mais um ativo de risco.

“O movimento de preços mais recente pode estar validando a visão de que o Bitcoin não é apenas a 501ª empresa listada no índice S&P 500”, afirmaram os especialistas da Block Scholes.

Mudança estrutural: correlações e percepção de risco em transformação

Historicamente, o Bitcoin demonstrou uma relação estreita com ativos de risco, especialmente ações de tecnologia. Contudo, essa dinâmica parece estar mudando. A Block Scholes aponta que a correlação entre o Bitcoin e a inclinação da curva de rendimentos dos Treasuries está agora mais inversa do que nos últimos dois anos.

Isso indica uma crescente percepção do Bitcoin como ativo contracíclico, algo comparável ao ouro em tempos de crise.

Ben McMillan, CIO da IDX Advisors, destaca que o comportamento do mercado mostra um aumento do interesse pela criptomoeda como instrumento de diversificação de carteiras.

“Os investidores estão começando a enxergar o Bitcoin como um possível diversificador real”, afirmou McMillan.

Volatilidade em queda sugere maturação do ativo

Outro dado relevante vem das métricas de volatilidade. As medidas de expectativa de oscilação futura do preço do Bitcoin recuaram para os menores níveis dos últimos 18 meses, de acordo com a Block Scholes.

Para um ativo historicamente volátil, essa redução de incerteza sugere maior estabilidade e atratividade institucional.

Bitcoin supera o ouro e atrai fluxo bilionário de capital

investir em ouro
Imagem: Freepik

Desde 2 de abril, o ouro — tradicional refúgio em tempos de crise — acumulou alta de 11%. Embora impressionante, esse desempenho ficou abaixo dos 15% de valorização do Bitcoin no mesmo intervalo. A mudança de comportamento dos investidores é sutil, mas significativa.

Martin Leinweber, diretor de pesquisa da MarketVector Indexes, aponta que há uma migração estratégica por parte dos grandes alocadores de capital.

“O dano à confiança nos ativos americanos já está feito, e embora não se possa mudar toda uma carteira da noite para o dia, o Bitcoin surge como uma das poucas alternativas neutras disponíveis.”

Fundos cripto recebem bilhões em aportes

Dados da CoinShares revelam um fluxo expressivo de recursos para fundos de investimento em ativos digitais: cerca de US$ 5,5 bilhões nas últimas três semanas. Desses, impressionantes US$ 1,8 bilhão foram direcionados exclusivamente para produtos baseados em Bitcoin na semana encerrada em 3 de maio.

Esses números confirmam que a atratividade institucional da principal criptomoeda está longe de ser apenas uma especulação passageira.

Tensões comerciais dos EUA como catalisador do movimento

A escalada tarifária impulsionada por Donald Trump visa conter a entrada de produtos estrangeiros e fortalecer a indústria local. No entanto, esse tipo de abordagem tem gerado desconfiança entre investidores estrangeiros, que veem os EUA como um ambiente cada vez mais instável para seus ativos.

Essa insegurança acaba alimentando uma fuga gradual de capitais e uma busca por ativos que não estejam diretamente atrelados à política monetária e fiscal dos EUA — o que fortalece o apelo do Bitcoin.

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Bitcoin pode alcançar US$ 120 mil ainda neste trimestre

Geoff Kendrick, chefe global de pesquisa de ativos digitais do Standard Chartered Bank, acredita que a atual conjuntura pode empurrar o Bitcoin a novos patamares.

Em nota enviada a clientes, Kendrick projetou que a criptomoeda pode atingir cerca de US$ 120 mil no segundo trimestre de 2025, à medida que mais investidores realocam recursos para longe dos ativos americanos.

Mas será que o descolamento é definitivo?

Apesar da euforia recente, analistas recomendam cautela. Segundo dados da LSEG, a correlação de 30 dias entre o Bitcoin e o S&P 500 caiu para 0,45 no início de abril, mas voltou a subir para 0,87 — valor que indica forte sincronismo entre os ativos.

Em janeiro, essa correlação chegou ao seu pico histórico, sugerindo que o Bitcoin ainda pode se comportar como ativo de risco em determinadas circunstâncias.

“Inevitavelmente, veremos períodos futuros em que a correlação do Bitcoin com ativos de risco voltará a subir”, ponderou Ben McMillan. “Mas o ponto chave é que ele está começando a assumir suas próprias características de negociação.”

A consolidação do Bitcoin como ativo estratégico

À medida que a volatilidade do Bitcoin diminui e seu desempenho em períodos de estresse se consolida, mais investidores institucionais começam a incluir o ativo em suas carteiras como parte de uma estratégia de longo prazo.

A transformação da percepção do Bitcoin — de uma moeda digital experimental para um instrumento legítimo de diversificação — está em andamento.

Futuro promissor, mas ainda incerto

Embora os sinais de maturidade sejam promissores, o Bitcoin ainda enfrenta desafios significativos, como regulamentações, hacks, e flutuações de mercado associadas à baixa liquidez em determinados momentos.

Além disso, a eventual recuperação da economia dos EUA ou uma mudança na política fiscal pode reverter parte dos fluxos atuais.

Conclusão: Bitcoin deixa de ser sombra do mercado para se tornar protagonista

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Imagem: Vladimka Production / Shutterstock.com

O ressurgimento do Bitcoin em um momento de fragilidade da economia norte-americana evidencia sua força como ativo alternativo em tempos de incerteza. O desempenho superior em relação ao ouro, o aumento de fluxos institucionais e a queda na volatilidade indicam uma nova fase para a criptomoeda.

Se as tensões comerciais e a desconfiança no dólar persistirem, o Bitcoin pode não apenas consolidar-se como refúgio seguro, mas também inaugurar uma era em que os ativos digitais deixam de ser coadjuvantes para liderar a transformação do sistema financeiro global.

Tainara Ferreira

Autor

Tainara Ferreira

Tainara Ferreira atua como redatora no portal Seu Crédito Digital, contribuindo com pautas que facilitam o entendimento de políticas públicas, programas sociais, economia do dia a dia e direitos dos cidadãos. Com olhar atento aos temas que impactam diretamente a vida da população brasileira, tem como missão traduzir informações complexas em conteúdos claros, úteis e acessíveis.

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