O BNDES liberou R$ 4,95 bilhões em financiamentos emergenciais no primeiro mês de operação da nova linha voltada a empresas afetadas pelo tarifaço dos Estados Unidos. O valor representa pouco mais de 10% do total de R$ 40 bilhões disponibilizados pelo programa, criado para mitigar os impactos da sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros, em vigor desde 6 de agosto.
BNDES aprova quase R$ 5 bi em crédito emergencial para empresas atingidas pelo tarifaço americano
BNDES libera quase R$ 5 bilhões em crédito emergencial a empresas afetadas pelo tarifaço dos EUA. Veja setores beneficiados.
Apesar da agilidade do BNDES, setores produtivos afirmam ainda enfrentar barreiras de acesso ao crédito, sobretudo pela falta de garantias federais — um obstáculo que depende da aprovação do Congresso Nacional.
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Linha emergencial visa preservar empregos e exportações

A nova linha do BNDES faz parte do pacote de medidas do governo federal para proteger as exportações brasileiras diante da escalada tarifária promovida pela gestão Donald Trump. Segundo dados da instituição, 357 operações já foram aprovadas, de um total de 448 pedidos analisados, somando R$ 7,9 bilhões em solicitações — o que significa que cerca de 63% dos valores requisitados já chegaram aos exportadores.
O presidente do banco, Aloizio Mercadante, reforçou o foco da política de crédito:
“A determinação do presidente Lula é preservar os empregos e fomentar o desenvolvimento de novos mercados para as exportações prejudicadas.”
O programa conta com R$ 30 bilhões do Fundo Garantidor de Exportações (FGE) e mais R$ 10 bilhões de recursos próprios do BNDES. Podem solicitar crédito as empresas que comprovarem que ao menos 5% de seu faturamento bruto total venha de exportações para os Estados Unidos.
Indústria da transformação concentra maior volume de crédito
A indústria de transformação foi o principal destino dos recursos, com R$ 4,18 bilhões em financiamentos. A agropecuária recebeu R$ 336 milhões, enquanto o comércio e serviços obtiveram R$ 308 milhões. Já a indústria extrativa captou R$ 127 milhões.
O levantamento do BNDES mostra ainda que 38,2% do montante aprovado foi direcionado a micro, pequenas e médias empresas, e 61,8% a grandes corporações.
Os dez estados com maiores volumes de crédito são:
- São Paulo – R$ 1,115 bilhão
- Rio Grande do Sul – R$ 800 milhões
- Paraná – R$ 658 milhões
- Santa Catarina – R$ 553 milhões
- Goiás – R$ 330 milhões
- Minas Gerais – R$ 298 milhões
- Espírito Santo – R$ 291 milhões
- Ceará – R$ 178 milhões
- Pará – R$ 137 milhões
- Bahia – R$ 100 milhões
De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, 35,9% das exportações brasileiras destinadas aos EUA foram impactadas pela medida americana — atingindo fortemente setores de café, carnes e pescados.
Empresários relatam entraves no acesso ao crédito
Apesar do volume expressivo de recursos, parte das empresas afirma que o crédito ainda não chega na ponta. O presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Pescado (Abipesca), Eduardo Lobo, criticou a falta de garantias da União:
“Sem garantias, virou uma operação de crédito normal. A linha de crédito não consegue atender o objetivo. Os bancos parceiros estão exigindo contrapartidas absurdas.”
Segundo ele, apenas uma pequena parcela das empresas associadas à entidade conseguiu financiamento. A Medida Provisória (MP) que criou a linha está em tramitação no Congresso, e o amplo acesso aos recursos depende da aprovação de uma lei complementar que libere fundos garantidores para respaldar as operações.
O governo prevê aportes adicionais de:
- R$ 1,5 bilhão no Fundo Garantidor do Comércio Exterior (FGCE);
- R$ 2 bilhões no Fundo Garantidor para Investimentos (FGI), administrado pelo BNDES;
- R$ 1 bilhão no Fundo de Garantia de Operações (FGO).
Casos de dificuldade: “Virou um cabo de guerra”
A Cais do Atlântico, empresa catarinense associada à Abipesca, é um exemplo das dificuldades enfrentadas. O sócio-diretor Jean Gonçalves relatou que buscou crédito em oito instituições financeiras diferentes, sem sucesso direto junto ao BNDES.
“Estão tentando nos forçar a comprar os produtos deles. A operação em si, que era para ser um alento, está virando um cabo de guerra. Uma empresa sem dinheiro, que está passando por essa situação, não deveria estar passando por isso.”
Gonçalves afirmou que 30% da produção da empresa era destinada aos EUA, e que as vendas caíram 90% desde o início do tarifaço.
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“O capital de giro viria como um alento, porque permitiria pensar com mais calma o redirecionamento para outros países”, explicou o executivo, que teme ter de reduzir o quadro de 270 funcionários se a situação persistir.
Setores têxtil e calçadista adotam cautela
O diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Fernando Pimentel, reconheceu que o BNDES tem dado prioridade às empresas elegíveis, mas ressaltou o tempo necessário para tramitação:
“Essas coisas têm um trâmite; não é tão imediato. É preciso elaborar projetos, comprovar a capacidade de pagamento; há toda uma burocracia. Não é um recurso que as pessoas obtenham sem uma análise de risco.”
No setor calçadista, o presidente-executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira, afirmou que a maioria das empresas optou por não contrair novas dívidas diante das incertezas nas relações comerciais com os Estados Unidos:
“Assumir dívidas, mesmo com juros abaixo dos praticados no mercado, não tem sido uma das soluções, ainda mais levando em consideração as contrapartidas colocadas pelo governo.”
Ferreira também destacou que a reaproximação entre os governos Lula e Trump, com reunião marcada na Malásia, pode oferecer uma esperança de solução diplomática, reduzindo a necessidade de recorrer ao crédito emergencial do BNDES.
Perspectivas e próximos passos

O BNDES avalia que o ritmo de aprovação deve crescer nos próximos meses, especialmente após a aprovação das garantias no Congresso. As instituições financeiras parceiras estimam uma demanda potencial de até R$ 14,5 bilhões, o que indicaria espaço para mais de 1.000 novas operações.
No cenário político, a equipe econômica aposta na diplomacia bilateral como instrumento complementar à política de crédito, enquanto empresas pressionam por redução de exigências e agilidade nos repasses.
Com o câmbio oscilando e as exportações sob pressão, o BNDES se mantém como peça central na estratégia de defesa industrial do governo — ainda que o desafio de levar o crédito a todas as empresas afetadas siga longe do ideal.
Com informações de: O GLOBO
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