O mercado financeiro brasileiro conta com um indicador que passa despercebido pela maioria dos investidores individuais, mas que funciona como um verdadeiro termômetro oculto da Bolsa: o aluguel de ações, conhecido tecnicamente como BTC (Banco de Títulos CBLC). Em setembro de 2025, esse instrumento ganhou destaque ao revelar um cenário de forte pessimismo em relação a algumas das maiores companhias listadas na B3.
Banco do Brasil (bbas3) no topo das apostas contra bancos; entenda o cenário
Volume de aluguel de ações atinge níveis históricos em setembro de 2025, sinalizando apostas em queda na Bolsa.
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O que é o BTC e por que ele importa?
O BTC é um mecanismo que permite que investidores que possuem ações em carteira (os cedentes) emprestem esses papéis a outros participantes (os tomadores), geralmente com o objetivo de venda no mercado à vista. O tomador vende o papel e aposta que poderá recomprá-lo mais barato depois, devolvendo-o ao cedente e lucrando com a diferença. A operação, portanto, é um indicativo clássico de estratégia de venda a descoberto (short selling).
Quanto maior o volume alugado e a taxa cobrada sobre esse aluguel, maior a percepção de risco ou a aposta em queda dos preços daquele ativo. Ao observar esses dados, é possível ter uma visão mais clara sobre o humor do mercado — algo que nem sempre transparece apenas pelos preços de negociação ou balanços financeiros.
Setores mais pressionados: bancos, petróleo e energia na mira
Em levantamento da Elos Ayta datado de 28 de setembro de 2025, o setor bancário aparece como o mais pressionado, com quatro ações entre as 20 mais alugadas:
- Banco do Brasil (BBAS3)
- Itaú Unibanco (ITUB4)
- Bradesco (BBDC4)
- BTG Pactual (BPAC11)
O setor de petróleo também se destaca, com Petrobras (PETR4) e PetroRio (PRIO3). A área de energia elétrica vem logo atrás, com Eletrobras (ELET3) e Equatorial (EQTL3).
Essa concentração revela preocupações setoriais específicas, como:
- Incertezas regulatórias no setor bancário;
- Preço internacional do petróleo e política de combustíveis;
- Pressão sobre as elétricas diante da bandeira tarifária vermelha em outubro e riscos hidrológicos.
Ações com recordes de aluguel: Marfrig lidera
Entre as ações com maior proporção de ações alugadas em relação ao free float, destacam-se:
- Marfrig (MRFG3): 36,92% do free float alugado
- Banco do Brasil (BBAS3): 14,96%
- PetroRio (PRIO3): 13,53%
Essa métrica mostra o grau de exposição das ações a operações de venda com expectativa de queda. Quanto mais próximo do limite histórico de aluguel, maior a concentração de apostas contrárias ao ativo.
Destaques em relação ao máximo dos últimos 12 meses
- Banco do Brasil (BBAS3): 97,77% do recorde de aluguel
- BTG Pactual (BPAC11): 94,21%
- Bradesco (BBDC4): 93,17%
- Embraer (EMBR3): 91,00%
- Itaú Unibanco (ITUB4): 91,24%
- Marfrig (MRFG3): 84,29%
Tabela com os 20 ativos mais alugados

Abaixo, os principais dados do levantamento da Elos Ayta:
| Empresa | Código | Setor | Estoque Alugado (R$ mi) | % do Máximo (12M) | % Free Float Alugado | Taxa Média de Aluguel (%) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Itaú Unibanco | ITUB4 | Bancos | 9.559 | 91,24 | 4,68 | 0,13 |
| Vale | VALE3 | Minerais metálicos | 9.525 | 62,05 | 3,91 | 0,05 |
| Banco do Brasil | BBAS3 | Bancos | 9.365 | 97,77 | 14,96 | 0,13 |
| Petrobras | PETR4 | Petróleo | 7.583 | 62,31 | 5,38 | 0,05 |
| Bradesco | BBDC4 | Bancos | 5.837 | 93,17 | 2,11 | 0,03 |
| Ambev | ABEV3 | Bebidas | 4.016 | 86,07 | 1,53 | 0,15 |
| PetroRio | PRIO3 | Petróleo | 3.971 | 88,87 | 13,53 | 0,13 |
| Localiza | RENT3 | Aluguel de carros | 3.744 | 78,89 | 7,14 | 0,23 |
| Eletrobras | ELET3 | Energia elétrica | 2.807 | 46,30 | 1,84 | 0,09 |
| Embraer | EMBR3 | Aeronáutica | 2.551 | 91,00 | 8,43 | 0,23 |
| Marfrig | MRFG3 | Alimentos | 2.332 | 84,29 | 36,92 | 29,06 |
| BTG Pactual | BPAC11 | Bancos | 2.113 | 80,21 | 4,88 | 0,03 |
Taxa de aluguel como outro termômetro do mercado
Outro dado que chama atenção é a taxa média anual de aluguel de ações, que pode indicar:
- Forte expectativa de queda (alta procura);
- Escassez de papéis disponíveis (baixa oferta).
As maiores taxas
- Marfrig (MRFG3): 29,06% ao ano
- Ambev (ABEV3): 5,09%
- Rede D’Or (RDOR3): 1,16%
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Nos demais papéis, a taxa média ficou abaixo de 1%, sinalizando maior equilíbrio entre oferta e demanda.
Volume consolidado atinge 75% do recorde histórico
Em 28 de setembro de 2025:
- O estoque consolidado das 20 ações mais alugadas somou R$ 80,6 bilhões, equivalente a 75,35% do recorde dos últimos 12 meses.
- No mercado total, o volume alugado foi de R$ 103,1 bilhões, o que representa 74,81% do pico registrado no ano.
Esses dados mostram que, mesmo sendo uma prática comum, o aluguel de ações atingiu níveis que podem antecipar movimentos relevantes no mercado à vista.
Janela para o comportamento do investidor: o que os dados sinalizam?

A leitura do mercado de BTC não é apenas técnica. Ela revela o sentimento coletivo do mercado, especialmente de grandes players como fundos de investimento, gestoras e traders institucionais.
- Altos volumes alugados indicam desconfiança em relação ao desempenho futuro das ações.
- Altas taxas de aluguel sugerem pressão de venda forte ou risco de escassez de papéis.
- Concentração em setores específicos aponta possíveis problemas estruturais ou temores regulatórios.
Pode haver risco de short squeeze?
Sim. Quando muitos investidores apostam na queda de um papel alugado, mas o ativo começa a subir de forma inesperada, pode ocorrer o chamado short squeeze. Isso obriga os vendedores a descoberto a recomprar as ações rapidamente para limitar perdas, elevando ainda mais os preços.
Papel como Marfrig, com quase 37% do free float alugado e alta taxa, é um dos candidatos potenciais a esse tipo de movimento, caso haja alguma notícia positiva ou reversão de expectativas.
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital
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