A concessão de assistência social a estrangeiros no Japão, especialmente brasileiros idosos, voltou a acirrar os ânimos políticos e sociais em 2025. Chamado de Seikatsu Hogo, o benefício é comparado por muitos ao Bolsa Família brasileiro.
“Bolsa Família” japonês ampara idosos brasileiros e gera polêmica
Idosos brasileiros recebem "Bolsa Família" no Japão e enfrentam críticas. Entenda o programa, dados oficiais e o debate sobre xenofobia no país.
Embora represente uma rede de apoio essencial para milhares de pessoas, o programa tem sido alvo de desinformação, preconceito e resistência por parte de setores nacionalistas da sociedade japonesa.
O caso do brasileiro Yoshio, de 80 anos, ilustra o drama vivido por muitos. Natural de São Paulo e filho de imigrantes japoneses, Yoshio chegou ao Japão nos anos 1990, trabalhou por décadas em fábricas, mas, após um acidente, viu-se sem aposentadoria, sem seguro e sem condições de sustento.
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O que é o Seikatsu Hogo?

O programa de assistência social do Japão
O Seikatsu Hogo é o programa oficial de assistência social do governo japonês, administrado pelo Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar.
Seu objetivo é garantir uma vida minimamente digna a pessoas que não conseguem se sustentar por conta própria, seja por motivos de idade, doença, deficiência ou desemprego.
Quem tem direito?
Para ser elegível ao Seikatsu Hogo, o requerente deve comprovar:
- Residência legal no Japão
- Comprovação de baixa renda ou ausência de recursos financeiros
- Incapacidade de contar com familiares que possam prestar apoio
- Impossibilidade de inserção no mercado de trabalho (por idade ou enfermidade)
Estrangeiros podem receber?
Sim. A legislação japonesa não restringe o acesso de estrangeiros ao programa, desde que atendam aos critérios exigidos. Porém, muitos municípios dificultam ou desencorajam o acesso, o que reforça a ideia — incorreta — de que a ajuda é exclusiva para cidadãos japoneses.
A desinformação e a xenofobia
Dados oficiais contradizem discursos populistas
Durante as eleições parlamentares de julho de 2025, diversos candidatos de tendência conservadora usaram o Seikatsu Hogo como arma retórica. Alegaram que 33% dos beneficiários eram estrangeiros, número que viralizou nas redes sociais, principalmente na plataforma X (antigo Twitter).
Contudo, os dados oficiais de 2023 mostram outra realidade: entre os 1,65 milhão de domicílios beneficiários, apenas 2,9% (45.973 famílias) eram de estrangeiros.
Quem são os mais afetados?
Entre os grupos com maior taxa de dependência estão os zainichi, descendentes de coreanos que imigraram ao Japão antes da Segunda Guerra Mundial. Muitos não conseguiram acesso à previdência nem a redes formais de apoio.
Além dos coreanos, brasileiros e peruanos formam parte considerável dos estrangeiros que vivem em situação de vulnerabilidade, principalmente após a aposentadoria ou perda de capacidade de trabalho.
Os brasileiros no Japão
Comunidade envelhece sem proteção
A comunidade brasileira no Japão é uma das maiores entre os imigrantes — representa cerca de 5,6% dos estrangeiros no país. O fluxo migratório ganhou força nos anos 1990, com políticas que facilitaram o retorno de descendentes de japoneses e seus cônjuges ao país de origem.
Problemas com a previdência
Apesar de trabalharem por décadas em fábricas e serviços pesados, muitos brasileiros não contribuíram com o sistema de Seguro Social japonês, seja por falta de informação, orientação adequada ou exigências contratuais das empresas.
Desde 2010, um acordo entre Brasil e Japão permite a soma do tempo de contribuição nos dois países. No entanto, milhares de brasileiros nunca contribuíram em nenhum dos dois sistemas.
O caso de Antonio e sua esposa
Antonio, de 78 anos, e sua esposa colombiana, de 69, vivem hoje com o auxílio do Seikatsu Hogo. O casal, que trabalhou por quase 30 anos no Japão, não tinha ideia da existência do Seguro Social. Hoje recebem cerca de 100 mil ienes por mês — pouco mais de dois salários mínimos brasileiros, valor que não acompanha a inflação japonesa.
“Não devemos nada a ninguém. Sempre pagamos nossos impostos”, diz Antonio. “Mas não sabíamos como funcionava a previdência aqui.”
A atuação das redes de apoio
Voluntários ajudam onde o Estado falha
Diante da lacuna institucional, diversas organizações não governamentais (ONGs) e entidades religiosas assumem o papel de apoiar os estrangeiros em vulnerabilidade. Uma das mais ativas é a NPO Smile Arigato, que atua na região metropolitana de Tóquio.
Banco de alimentos para 450 famílias
A Smile Arigato distribui alimentos e produtos de higiene todos os sábados para aproximadamente 450 famílias, sendo que 70% são brasileiras.
“Verificamos caso a caso para garantir que o auxílio não interfira nos benefícios que eles já recebem”, explica Akimi Inatomi, voluntária da ONG.
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+311 mil seguidores
O trabalho é feito com esforço comunitário: trabalhadores que atuam em fábricas de segunda a sexta dedicam seus fins de semana a carregar caixas, distribuir alimentos e orientar os necessitados.
Um dilema nacional
O país que recebe a mão de obra, mas rejeita o cidadão
Apesar de depender da mão de obra estrangeira, o Japão ainda resiste à ideia de integrar imigrantes como cidadãos plenos. Muitos estrangeiros relatam uma sensação de rejeição após a aposentadoria.
“Quando eu trabalhava 12 horas por dia, ninguém dizia nada. Agora que preciso de ajuda, me chamam de parasita”, desabafa Antonio.
Pressão política e resistência local
Em julho de 2025, o governador de Shizuoka, Yasutomo Suzuki, propôs que o governo central assumisse a coordenação de políticas de inclusão para estrangeiros.
Suzuki, que já foi prefeito de Hamamatsu — cidade com a maior comunidade brasileira do Japão —, defendeu que estrangeiros devem ser tratados como membros integrais da sociedade.
A resposta foi dura: em poucos dias, o governo de Shizuoka recebeu mais de 200 e-mails e ligações contra a proposta, com frases como “meus impostos não devem sustentar estrangeiros”.
A visão dos especialistas

A urgência do debate com base em dados
Para o professor Edson Urano, da Universidade de Tsukuba, a criação de narrativas xenofóbicas baseadas em desinformação é um obstáculo grave à justiça social.
“Transformar estrangeiros em bodes expiatórios é uma estratégia política que mascara as falhas estruturais do país”, afirma. “O Japão precisa de um debate maduro sobre envelhecimento, imigração e sustentabilidade do seu sistema social.”
Conclusão: o Japão diante de sua própria transição
A história de Yoshio, Antonio e tantos outros revela um dilema profundo: um país que precisa dos estrangeiros, mas hesita em reconhecê-los como parte integral da sociedade.
Com uma população cada vez mais envelhecida, desafios econômicos constantes e uma taxa de natalidade em queda, o Japão terá que decidir se continuará a manter estrangeiros à margem — ou se adotará uma postura de inclusão plena, garantindo direitos a todos os que ajudaram a construir o país.
Enquanto isso, a rede de apoio comunitário e o Seikatsu Hogo seguem sendo o último recurso para muitos idosos brasileiros que envelhecem longe da terra natal, com dignidade silenciosa e o desejo de não serem esquecidos.
Alguns nomes foram alterados para preservar a identidade dos entrevistados.
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