O Bolsa Família está presente em quase metade dos domicílios de alguns estados brasileiros, e os maiores percentuais estão concentrados principalmente no Norte e no Nordeste. Dados da PNAD Contínua do IBGE, referentes a 2025, mostram que o Pará lidera o país, com 46,1% dos domicílios atendidos pelo programa, seguido pelo Maranhão, com 45,6%.
O cenário chama atenção porque os dois estados também aparecem entre os últimos colocados no Índice de Progresso Social (IPS) Brasil 2025, indicador que reúne dados sobre saúde, educação, saneamento, segurança, oportunidades e condições de vida.
A combinação dos indicadores ajuda a dimensionar um problema que vai além da transferência de renda: a concentração de beneficiários reflete desigualdades históricas de renda, acesso a serviços públicos, oportunidades educacionais e mercado de trabalho.
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Quais estados têm a maior proporção de domicílios no Bolsa Família?

O levantamento do IBGE mostra que Pará e Maranhão ocupam as duas primeiras posições quando o indicador considerado é a proporção de domicílios que recebem o Bolsa Família.
O ranking dos dez estados com maior percentual em 2025 ficou assim:
- Pará: 46,1%;
- Maranhão: 45,6%;
- Piauí: 45,3%;
- Alagoas: 41,7%;
- Amazonas: 40,8%;
- Ceará: 40,3%;
- Paraíba: 40,2%;
- Bahia: 38,7%;
- Acre: 38,6%;
- Pernambuco: 37,6%.
Os números mostram uma concentração clara entre estados do Norte e do Nordeste.
É importante, porém, fazer uma distinção: receber o Bolsa Família não significa necessariamente que uma família seja “dependente” do programa em sentido permanente. O dado do IBGE representa a proporção de domicílios que tinham o benefício entre suas fontes de rendimento no período analisado.
Essa diferença é relevante porque programas de transferência de renda funcionam justamente como mecanismo de proteção para famílias que enfrentam vulnerabilidade econômica.
Pará lidera com 46,1% dos domicílios atendidos
O Pará ocupa a primeira posição nacional. Segundo os dados da PNAD Contínua, 46,1% dos domicílios paraenses recebiam Bolsa Família em 2025.
O percentual significa que aproximadamente quatro em cada dez domicílios estavam contemplados pelo programa.
O estado também apresenta um dos menores indicadores de progresso social do país. No IPS Brasil 2025, o Pará registrou 53,71 pontos, a menor pontuação entre as unidades da Federação analisadas.
O resultado não significa que o Bolsa Família seja responsável pela baixa qualidade de vida. A interpretação mais adequada é justamente a inversa: a maior presença de programas de transferência de renda está associada a territórios onde uma parcela maior da população enfrenta dificuldades socioeconômicas.
Renda ainda é um dos principais desafios
Os dados mais recentes do IBGE mostram que o rendimento domiciliar per capita brasileiro chegou a R$ 2.316 em 2025.
No Pará, assim como em outros estados do Norte e Nordeste, a renda permanece abaixo da média nacional, refletindo diferenças históricas na estrutura econômica e na distribuição de oportunidades. O Maranhão apresentou o menor rendimento domiciliar per capita do país, com R$ 1.219 em 2025.
Maranhão aparece logo atrás, com 45,6%
O Maranhão ocupa a segunda posição do ranking nacional, com 45,6% dos domicílios atendidos pelo Bolsa Família.
O estado também está entre aqueles com maior vulnerabilidade socioeconômica. No IPS Brasil 2025, o Maranhão registrou 55,96 pontos, ficando à frente apenas do Pará entre os estados brasileiros.
Outro indicador importante é a renda domiciliar per capita. O Maranhão registrou R$ 1.219 em 2025, segundo o IBGE, o menor valor entre as unidades da Federação.
Isso ajuda a explicar por que a transferência de renda tem peso tão importante no orçamento de uma parcela significativa das famílias maranhenses.
Norte e Nordeste concentram a maior presença dos programas sociais
A diferença regional também aparece de maneira expressiva nos dados do IBGE.
Considerando todos os programas sociais, e não apenas o Bolsa Família, o Nordeste apresentou a maior proporção de domicílios beneficiados em 2025: 39,8%.
No Norte, o percentual chegou a 38,8%.
Em contraste, o Sul registrou 10,8%, enquanto Sudeste e Centro-Oeste apresentaram, respectivamente, 14,8% e 17%.
A disparidade está relacionada principalmente às diferenças de renda e vulnerabilidade entre as regiões.
Bolsa Família alcança 13,6 milhões de domicílios
Em escala nacional, o Bolsa Família foi a principal fonte de transferência de renda entre os programas analisados pelo IBGE.
Em 2025, 17,2% dos domicílios brasileiros tinham o Bolsa Família como fonte de rendimento, o equivalente a aproximadamente 13,6 milhões de domicílios.
No mesmo período, o BPC estava presente em 5,3% dos domicílios, enquanto outros programas sociais estaduais e municipais alcançavam 2,4%.
Os números mostram que o Bolsa Família continua sendo uma das principais políticas de proteção social do país.
O que os dados revelam sobre a qualidade de vida
A comparação com o IPS Brasil ajuda a entender por que Pará e Maranhão aparecem simultaneamente no topo da presença do Bolsa Família e nas últimas posições do índice de progresso social.
O IPS Brasil 2025 avalia os estados a partir de diferentes dimensões relacionadas às condições concretas de vida da população. O índice considera aspectos como necessidades humanas básicas, fundamentos do bem-estar e oportunidades.
No ranking estadual de 2025, os resultados foram:
| Estado | IPS Brasil 2025 |
|---|---|
| Pará | 53,71 |
| Maranhão | 55,96 |
| Acre | 56,29 |
| Amapá | 56,72 |
| Rondônia | 56,79 |
| Bahia | 57,67 |
| Alagoas | 57,70 |
Na outra ponta, Distrito Federal, São Paulo e Santa Catarina apresentaram as maiores pontuações do país.
A comparação evidencia que a presença do Bolsa Família deve ser analisada dentro de um conjunto maior de indicadores sociais e econômicos.
Educação superior aparece entre os principais gargalos
Um dos pontos destacados pelo IPS é a dimensão de Oportunidades, que considera fatores relacionados à capacidade de as pessoas ampliarem suas possibilidades de desenvolvimento.
O Maranhão apresenta dificuldades particularmente relevantes nessa área. O próprio relatório do IPS aponta baixos níveis de acesso à educação superior, além de desafios relacionados à inclusão social e às liberdades individuais.
Esse tipo de indicador é importante porque a transferência de renda, embora ajude a reduzir a vulnerabilidade imediata, não substitui políticas estruturais de educação, qualificação profissional, geração de empregos e melhoria dos serviços públicos.
Em outras palavras, uma família pode precisar do Bolsa Família hoje e, ao mesmo tempo, necessitar de acesso a educação e emprego para aumentar sua renda no futuro.
Bolsa Família não deve ser analisado isoladamente
É justamente nesse ponto que a interpretação dos números exige cuidado.
O fato de Pará e Maranhão apresentarem os maiores percentuais de domicílios atendidos pelo Bolsa Família não significa que o programa tenha causado os indicadores sociais negativos desses estados.
A relação observada é muito mais compatível com a existência de condições socioeconômicas que aumentam a necessidade de políticas de transferência de renda.
O próprio objetivo de programas dessa natureza é atuar justamente onde a renda das famílias não é suficiente para garantir condições mínimas de vida.
Dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social mostram, inclusive, que o Bolsa Família tem capacidade de reduzir a pobreza monetária entre seus beneficiários. Um estudo do MDS com dados de janeiro de 2026 apontou que cerca de 1,2 milhão de famílias que estavam abaixo da linha de pobreza antes do benefício passaram a superar esse limite após a transferência.
Portanto, o indicador de cobertura deve ser interpretado tanto como sinal de vulnerabilidade quanto como evidência do alcance da política pública.
O que o Maranhão está fazendo para reduzir a vulnerabilidade
No Maranhão, uma das iniciativas estaduais criadas para complementar as políticas federais é o Maranhão Livre da Fome.
O programa foi estruturado para atender famílias que, mesmo recebendo o Bolsa Família, permanecem em situação de extrema pobreza.
Segundo dados divulgados pelo governo estadual, a iniciativa alcançou 74 mil famílias em todos os 217 municípios do Maranhão ao longo de 2025.
O programa prevê complemento financeiro para famílias que continuam abaixo da linha de pobreza mesmo após o recebimento da transferência federal. Em 2026, o complemento foi ajustado para R$ 300.
A lógica é combinar transferência de renda com outras ações de segurança alimentar e inclusão produtiva, em vez de depender exclusivamente de uma única fonte de renda.
Pará enfrenta desafios que vão além da transferência de renda

No Pará, os desafios também envolvem infraestrutura e acesso a serviços essenciais.
A realização da COP30 em Belém provocou uma série de investimentos em infraestrutura e colocou a capital paraense no centro de projetos de mobilidade, saneamento, urbanização e turismo.
O Portal da Transparência informa que o conjunto de investimentos relacionados à preparação para a COP30 envolve R$ 4,2 bilhões, considerando recursos do Orçamento-Geral da União, financiamentos do BNDES e recursos de Itaipu.
Em documentos do governo federal, o ciclo de investimentos associado à COP30 é apresentado como superior a R$ 6 bilhões, considerando também investimentos complementares e outras iniciativas realizadas no Pará e em Belém.
A questão central, portanto, é transformar investimentos pontuais em melhorias permanentes para a população.
Infraestrutura pode ajudar a reduzir desigualdades
Obras de saneamento, mobilidade, drenagem, habitação, energia e infraestrutura urbana podem produzir efeitos que vão muito além do período de realização de um evento.
No caso da COP30, por exemplo, os investimentos incluem intervenções em áreas de drenagem e urbanização, além de projetos relacionados ao sistema hidroviário e à infraestrutura urbana de Belém.
O desafio é garantir que esse legado alcance principalmente as áreas que apresentam maiores carências sociais.
Por que a dependência de programas sociais é maior no Norte e Nordeste?
Não existe uma única explicação.
A diferença está relacionada a fatores históricos e estruturais, entre eles:
- menor renda média em parte dos estados;
- desigualdade de oportunidades;
- informalidade e precariedade do mercado de trabalho;
- dificuldades de acesso a educação de qualidade;
- desigualdade na oferta de serviços públicos;
- déficits de saneamento;
- diferenças na estrutura produtiva regional;
- vulnerabilidade de populações rurais, ribeirinhas e comunidades distantes dos grandes centros.
Por isso, simplesmente comparar a quantidade de beneficiários entre estados pode levar a uma conclusão equivocada.
Um estado com percentual maior de beneficiários não necessariamente possui uma população “mais dependente” por escolha. O indicador pode refletir uma maior concentração de famílias dentro dos critérios de elegibilidade do programa.
O que pode reduzir a necessidade do Bolsa Família no futuro?
A redução sustentável da vulnerabilidade depende de um conjunto de políticas.
O Bolsa Família funciona como uma proteção de curto e médio prazo, garantindo renda mínima para famílias que atendem aos critérios do programa. Mas a redução estrutural da pobreza exige que essa proteção seja acompanhada por oportunidades de geração de renda.
Entre as medidas mais importantes estão:
Educação e qualificação profissional
A ampliação do acesso ao ensino técnico e superior pode aumentar as oportunidades de ocupação com melhores salários.
Esse é um ponto especialmente relevante para estados que apresentam baixos indicadores de acesso à educação superior, como Maranhão e Pará.
Geração de empregos formais
O aumento da ocupação e da renda do trabalho pode diminuir a necessidade de transferência de renda ao longo do tempo.
A própria PNAD Contínua mostrou que a melhora do mercado de trabalho contribuiu para a redução da proporção de domicílios que recebiam algum tipo de auxílio em 2025.
Infraestrutura e saneamento
Água tratada, coleta e tratamento de esgoto, energia elétrica, transporte e habitação adequada também influenciam diretamente a qualidade de vida.
Investimentos nessas áreas podem produzir efeitos econômicos e sociais de longo prazo.
Desenvolvimento regional
Outro desafio é criar oportunidades econômicas fora dos grandes centros.
No Norte, questões relacionadas à distância geográfica e à infraestrutura logística tornam ainda mais importante a criação de políticas adaptadas às características da região.
O que significa o ranking para quem recebe Bolsa Família?
Para o beneficiário, o fato de seu estado aparecer entre os primeiros colocados no ranking não altera automaticamente o direito ao programa.
A permanência no Bolsa Família depende das regras nacionais, da situação socioeconômica da família e das informações registradas e atualizadas no Cadastro Único.
Portanto, uma família do Pará ou do Maranhão não perde o benefício simplesmente porque o estado apresenta uma elevada proporção de beneficiários.
Da mesma forma, morar em um estado com menor percentual de cobertura não significa que o acesso seja mais difícil para quem realmente atende aos critérios.
Pará e Maranhão mostram um retrato das desigualdades brasileiras
Os números do IBGE e do IPS Brasil ajudam a enxergar uma realidade que vai além do Bolsa Família.
Pará e Maranhão aparecem entre os estados com maior proporção de domicílios atendidos pelo programa e, simultaneamente, apresentam alguns dos menores indicadores de progresso social.
Essa combinação não deve ser interpretada como uma relação de causa e efeito. Ela mostra, sobretudo, que a transferência de renda está concentrada justamente em regiões onde uma parcela maior da população enfrenta dificuldades de renda e acesso a oportunidades.
Em 2025, 46,1% dos domicílios do Pará e 45,6% dos domicílios do Maranhão tinham o Bolsa Família como fonte de rendimento, segundo os dados divulgados pelo IBGE.
Ao mesmo tempo, o IPS Brasil atribuiu 53,71 pontos ao Pará e 55,96 ao Maranhão, colocando os dois estados nas últimas posições do ranking nacional de progresso social.
O retrato reforça que a transferência de renda tem papel importante no combate à pobreza, mas a redução permanente da vulnerabilidade depende de avanços em educação, emprego, renda, saneamento, saúde, infraestrutura e oportunidades.
Assim, o principal desafio para os próximos anos não é apenas garantir que as famílias tenham acesso ao Bolsa Família quando necessário, mas criar condições para que cada vez mais famílias possam elevar sua renda e melhorar suas condições de vida sem depender permanentemente de programas de transferência de renda.
