O número de famílias compostas por apenas um integrante — conhecidas como unipessoais — caiu para 3,8 milhões em agosto de 2025 entre os beneficiários do Bolsa Família. O resultado representa o menor patamar desde julho de 2022 e reflete a adoção de medidas pelo governo federal para conter o desmembramento artificial de famílias no Cadastro Único.
Justiça pode derrubar regra que regularizou cadastros no Bolsa Família
Número de famílias unipessoais no Bolsa Família cai ao menor nível desde 2022. Governo defende limite de 16%, mas medida é contestada na Justiça.
A queda, no entanto, acontece em meio a uma disputa judicial: a Defensoria Pública da União (DPU) questiona o limite de 16% de unipessoais estabelecido pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS) como forma de coibir fraudes e distorções.
O caso deve voltar a julgamento no próximo dia 18, na Turma Nacional de Uniformização (TNU), vinculada ao Conselho da Justiça Federal.
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A escalada entre 2021 e 2023
Entre 2021 e 2022, o Bolsa Família (então substituído pelo Auxílio Brasil) registrou um aumento expressivo de famílias unipessoais: de 3,3 milhões para 5,9 milhões, uma alta de 76,6% em apenas um ano. O salto é atribuído a mudanças feitas no governo Jair Bolsonaro, que fixou o valor mínimo de R$ 600 por família, independentemente do número de integrantes.
A medida, embora popular, estimulou a divisão artificial de famílias para multiplicar o acesso ao valor integral, gerando distorções.
A promessa e o desafio do governo Lula
Durante a campanha de 2022, Lula prometeu manter o piso de R$ 600, o que permanece até hoje. Em agosto de 2025, 17,7 milhões de famílias (92% dos beneficiários) receberam complementação para atingir esse valor. Ou seja, sem o mínimo garantido, a maioria teria recebido menos pelos critérios de renda per capita.
Medidas adotadas pelo MDS para coibir fraudes
Regras mais rígidas para unipessoais
Desde 2023, o governo Lula vem implantando mecanismos para reduzir cadastros suspeitos:
- Exigência de documentos digitalizados de identidade e residência.
- Assinatura de termo de responsabilidade pelo beneficiário unipessoal.
- Entrevista presencial domiciliar para novos pedidos.
A portaria do limite de 16%
Em agosto de 2023, o MDS fixou que famílias unipessoais não poderiam ultrapassar 16% do total de beneficiários do programa, tomando como base a PNAD Contínua, que estima a proporção real dessas famílias no país.
Municípios acima do limite ficaram obrigados a revisar cadastros antes de aprovar novos benefícios unipessoais. Na época, o percentual nacional estava em 23,4%, e mais de 3,7 mil municípios excediam o teto.
O efeito das novas regras
Queda gradual, mas desigual
Com as regras, a proporção caiu para 19,8% em média nacional em agosto de 2025. Hoje, cerca de 3,6 mil cidades ainda têm mais unipessoais que o permitido, mas a tendência é de queda contínua.
Risco de retrocesso
Caso o limite seja derrubado pela Justiça, o governo teme uma nova onda de cadastros artificiais, especialmente às vésperas da eleição de 2026, quando a fiscalização tende a ser mais complexa.
O embate jurídico
A ação da DPU
A Defensoria Pública da União argumenta que a portaria que fixou o limite foi editada sem base legal e que não poderia retroagir para prejudicar famílias já incluídas. Para a DPU, os beneficiários que cumpriam os critérios na época do pedido teriam direito ao benefício integral.
O voto do relator
Em julgamento na TNU, o juiz federal Paulo Roberto Parca de Pinho votou pela derrubada do limite por considerá-lo ilegal. Houve pedido de vista, e o julgamento foi adiado para o dia 18.
A defesa do governo
O Executivo sustenta que o Bolsa Família é um programa de transferência de renda com dotação orçamentária anual, diferente de benefícios obrigatórios como aposentadorias e BPC. Por isso, pode estabelecer regras de gestão para garantir sustentabilidade financeira e equidade no acesso.
Especialistas apontam riscos e alternativas
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Visão crítica sobre a derrubada do limite
Para Leticia Bartholo, pesquisadora do Ipea e ex-secretária do MDS, a decisão judicial que pode derrubar o teto é equivocada:
“Ela tende a prejudicar famílias maiores e mais pobres, que recebem menos per capita, em benefício de cadastros artificiais. O limite foi criado justamente para corrigir essa distorção.”
Segundo Bartholo, o percentual de 16% ainda foi fixado com “folga” para não penalizar grupos mais vulneráveis, como indígenas, pessoas em situação de rua e acampados da reforma agrária.
Alternativas de redesenho
Bartholo defende uma reformulação do programa para diferenciar o valor per capita por idade, garantindo mais recursos na primeira infância e a partir dos 55 anos, quando a reinserção no mercado de trabalho é mais difícil.
O impacto político e social

Nas eleições
O governo alerta que períodos eleitorais tendem a estimular movimentos atípicos nos cadastros do Bolsa Família. Se o limite cair, a fiscalização poderá ser comprometida, abrindo espaço para manipulações políticas.
Na percepção social
Embora o piso de R$ 600 seja amplamente aceito, especialistas acreditam que a sociedade pode compreender a necessidade de ajustes no desenho do programa, desde que a comunicação seja clara sobre os objetivos de justiça social.
Panorama estatístico
- Julho de 2022: início da escalada de unipessoais.
- Janeiro de 2023: governo Lula assume com 5,9 milhões de unipessoais (27% dos beneficiários).
- Agosto de 2023: portaria fixa limite de 16%.
- Agosto de 2025: total de unipessoais cai a 3,8 milhões, menor nível desde 2022.
Considerações finais
A queda no número de famílias unipessoais beneficiárias do Bolsa Família mostra que as medidas de controle adotadas pelo governo surtiram efeito. No entanto, a judicialização do tema e a possibilidade de derrubada do limite de 16% colocam em risco os avanços obtidos.
Enquanto especialistas defendem ajustes no desenho do programa, o desafio do governo Lula é equilibrar sustentabilidade orçamentária, justiça social e segurança contra fraudes, em um contexto de alta sensibilidade política e eleitoral.
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