Levantamento inédito do Score de Cidades cruza cinco bases oficiais do governo federal — Portal da Transparência, Censo IBGE 2022, IDH municipal, PIB per capita e Mapa Social do MDS — em 5.537 municípios brasileiros. O resultado revela não só um abismo social, mas também um erro metodológico que distorce o debate nacional sobre o programa.
Em 10 cidades brasileiras, mais de 90% dos moradores dependem do Bolsa Família — e a imprensa vem errando a conta
Análise cruzou 20,6 milhões de registros do BF com Censo IBGE 2022. Em Itaubal (AP) e Serrano do Maranhão (MA), mais de 9 em cada 10 moradores dependem do programa.
Quando uma manchete afirma que 93% da população de Itaubal, no Amapá, depende do Bolsa Família, outro veículo publica que são 36%. Quem está certo?
Os dois.
O aparente paradoxo revela um problema que contamina o debate público sobre o maior programa de transferência de renda do Brasil: existem duas formas diferentes de contar beneficiários do Bolsa Família, ambas oficiais, ambas corretas — mas que medem coisas completamente diferentes. E raros são os jornalistas, políticos e analistas que explicam a diferença ao usar esses números.
O Score de Cidades cruzou, em análise inédita, cinco bases oficiais do governo federal: os 20.669.798 registros individuais do Portal da Transparência (dez/2024), a população do Censo 2022 do IBGE, os indicadores de vulnerabilidade do Mapa Social do MDS (dez/2025 e jan/2026), o IDH municipal do PNUD e o PIB per capita das Contas Regionais do IBGE. A análise cobre 5.537 dos 5.570 municípios brasileiros.
Usando a metodologia mais abrangente — a que o próprio MDS considera “pessoas beneficiadas” —, em 10 cidades brasileiras mais de 90% dos moradores vivem em famílias que dependem do programa. Todas estão no Norte e Nordeste. Nenhuma do Sul, Sudeste ou Centro-Oeste se aproxima do topo.
As duas formas de contar — e por que isso importa
O Bolsa Família é pago a titulares (geralmente a mãe da família). Em dezembro de 2024, o Portal da Transparência registrou 20.669.798 titulares que receberam parcela no mês, totalizando R$ 13,97 bilhões pagos.
Mas cada titular representa uma família inteira: o cônjuge (se houver), os filhos dependentes, eventualmente avós ou parentes que coabitam. Uma família média no programa tem cerca de 2,8 a 3 pessoas.
Resultado: o número real de pessoas impactadas pelo Bolsa Família — pessoas que comem, estudam, se vestem com aquele dinheiro — é significativamente maior que o número de titulares.
Métrica 1 — TITULARES (Portal da Transparência)
- Quem conta: pessoa que efetivamente recebe a parcela no caixa
- Total nacional: 20,7 milhões
- Exemplo — Itaubal (AP): 2.025 pessoas | 36,2% da população
Métrica 2 — PESSOAS EM FAMÍLIAS BENEFICIADAS (Mapa Social / MDS)
- Quem conta: todos os moradores de casas onde alguém recebe o benefício
- Total nacional: aproximadamente 55 milhões
- Exemplo — Itaubal (AP): ~5.200 pessoas | ~93% da população
Nenhuma das duas é “falsa”. Elas respondem perguntas diferentes. A primeira mede quantos cheques são emitidos. A segunda mede quantas vidas são afetadas.
A imprensa vem misturando as duas sem aviso — e isso distorce o entendimento público sobre o programa. Uma matéria cita o número alto (Métrica 2) para mostrar o impacto; outra cita o número baixo (Métrica 1) para minimizar. Poucos esclarecem qual base estão usando.
O ranking das cidades mais dependentes
Usando a Métrica 2 (pessoas em famílias beneficiadas), ajustada com o cruzamento de bases, estas são as 10 cidades brasileiras com maior proporção da população impactada pelo Bolsa Família:
| # | Cidade | Estado | Pop. 2022 | Pessoas em famílias BF | % da população |
|---|---|---|---|---|---|
| 1 | Serrano do Maranhão | MA | 10.202 | ~10.000 | ~98% |
| 2 | Itaubal | AP | 5.599 | ~5.200 | ~93% |
| 3 | Pedrinhas | SE | 7.396 | ~6.600 | ~89% |
| 4 | Pau Brasil | BA | 9.370 | ~7.800 | ~83% |
| 5 | Autazes | AM | 41.564 | ~32.400 | ~78% |
| 6 | Central do Maranhão | MA | 7.094 | ~5.500 | ~77% |
| 7 | Pracuúba | AP | 3.803 | ~2.900 | ~76% |
| 8 | Cachoeira Grande | MA | 9.732 | ~7.300 | ~75% |
| 9 | Peri Mirim | MA | 11.108 | ~8.100 | ~73% |
| 10 | Jurema | PI | 4.425 | ~3.200 | ~72% |
Fonte: cruzamento entre Portal da Transparência CGU (dez/2024) e Mapa Social MDS (dez/2025–jan/2026). Análise: Score de Cidades.
7 das 10 cidades estão no Nordeste. 3 no Norte. Nenhuma do Sul, Sudeste ou Centro-Oeste. O Maranhão isoladamente ocupa 4 posições do top 10.
Serrano do Maranhão: a cidade que o Brasil não vê
Serrano do Maranhão encabeça o ranking. O município do litoral maranhense tem 10.202 habitantes segundo o Censo 2022 — e praticamente toda a cidade vive em famílias que recebem Bolsa Família.
Os indicadores socioeconômicos explicam o porquê, mas também chocam:
- IDH: 0,519 — classificação “baixa” pelo PNUD. A média brasileira é 0,659.
- PIB per capita: R$ 7.000/ano — equivalente a R$ 583 por mês, por pessoa.
- 94% das famílias do Cadastro Único não têm nenhum adulto com trabalho formal.
- 67% dos adultos não completaram o ensino médio.
- 21% são analfabetos.
- 93% dos beneficiários do BF são pretos ou pardos.
O município injeta R$ 3,43 milhões por mês em Bolsa Família — R$ 41,24 milhões por ano. Para colocar em perspectiva: esse valor supera sozinho o PIB total estimado da cidade em quase 60%.
Em Serrano do Maranhão, o Bolsa Família não é um complemento à economia. É a economia.
Itaubal (AP): 29 carteiras assinadas em uma cidade de 5,6 mil
O caso que escancarou a diferença metodológica entre os dois números é Itaubal, no Amapá. Reportagens recentes afirmaram que apenas 29 pessoas da cidade inteira tinham emprego formal com carteira assinada em 2025. O dado, se confirmado pelo CAGED, é estarrecedor.
Os 5.599 habitantes do município vivem numa economia essencialmente de subsistência: pesca artesanal, pequena agricultura, extrativismo. A administração pública municipal e o Bolsa Família são, juntos, a quase totalidade da circulação monetária local.
Os indicadores do Mapa Social confirmam a precariedade:
- 89% das famílias pobres sem trabalho formal
- 73% dos adultos sem ensino médio
- 26% de analfabetismo adulto
- IVCAD: 0,3829 — entre os mais altos do Brasil
Propor que os “marmanjões” de Itaubal “aceitem empregos”, como já ouvimos de políticos, ignora uma realidade objetiva: não há empregos a serem aceitos. A oferta formal simplesmente inexiste.
O paradoxo Autazes: cidade maior do top 10
Autazes, no Amazonas, é o único município do ranking com mais de 20 mil habitantes. Com 41.564 moradores, é 4 a 8 vezes maior que as outras cidades da lista.
Ainda assim, ~78% da população vive em famílias do Bolsa Família. O município injeta R$ 11,34 milhões por mês no programa — R$ 136 milhões por ano. É uma economia inteira sustentada pela transferência federal.
Autazes fica ao sul de Manaus, conectada principalmente por transporte fluvial. Sua composição demográfica inclui fortes presenças indígena e ribeirinha — 80% dos beneficiários do BF no município são pretos, pardos ou indígenas.
O caso de Autazes mostra que a dependência extrema do Bolsa Família não é exclusividade de cidades minúsculas. Acontece também em municípios médios onde a economia produtiva formal nunca se instalou.
Top 10 vs. Brasil: o abismo em números
Comparando os 10 municípios mais dependentes com a média nacional, o contraste é brutal:
| Indicador | Top 10 | Brasil | Gap |
|---|---|---|---|
| IDH | 0,574 (baixo) | 0,659 (médio) | -0,085 |
| PIB per capita | R$ 11.400 | R$ 34.491 | 3 vezes menor |
| % pop. no Bolsa Família (titulares) | 39,9% | 12,8% | 3 vezes maior |
| % pop. em famílias do BF (impacto real) | ~81% | ~25% | 3,2 vezes maior |
| % sem trabalho formal | 88% | 80% | +8 p.p. |
| % analfabetos | 23% | 20% | +3 p.p. |
As cidades do top 10 têm PIB per capita equivalente a um terço da média nacional, IDH classificado como baixo pelo PNUD, e uma proporção de beneficiários do BF três vezes superior à brasileira.
Não são números ruins. São números de outro país.
Por que Maranhão e Pará dominam o ranking?
Entre os 10 primeiros colocados, 4 são cidades maranhenses. Entre os 30 primeiros, 8. Entre os 100 primeiros, 16. O Maranhão concentra, isoladamente, a maior quantidade de municípios em situação crítica de dependência do BF no Brasil.
Os dados regionais explicam o padrão:
| Região | % média pop. no CadÚnico | Nº municípios |
|---|---|---|
| Nordeste | 39,7% | 1.788 |
| Norte | 33,6% | 439 |
| Centro-Oeste | 16,8% | 461 |
| Sudeste | 16,9% | 1.611 |
| Sul | 10,4% | 1.174 |
O abismo regional é de quase 30 pontos percentuais entre Nordeste e Sul — dentro do mesmo país, sob a mesma Constituição, com o mesmo salário mínimo.
O outro extremo: cidades do Sul quase sem BF
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Para dimensionar o contraste, as 5 cidades brasileiras com menor proporção de titulares no Bolsa Família são:
| # | Cidade | Estado | % da pop. (titulares) |
|---|---|---|---|
| 1 | Fagundes Varela | RS | 3,6% |
| 2 | Protásio Alves | RS | 3,7% |
| 3 | Nova Prata | RS | 3,7% |
| 4 | Dois Lajeados | RS | 3,9% |
| 5 | Vista Alegre do Prata | RS | 3,9% |
Todas no Rio Grande do Sul. A diferença entre Serrano do Maranhão (98% impactados) e Fagundes Varela (3,6% titulares) é tão grande que os números parecem vir de continentes distintos.
Fagundes Varela tem IDH 0,750 (alto), PIB per capita próximo de R$ 50.000 e economia baseada em agricultura familiar, vitivinicultura e indústria de pequeno porte. Serrano do Maranhão tem IDH 0,519 e PIB per capita de R$ 7.000.
São dois países dentro do mesmo território.
O que o debate público ignora
Quando se discute no Congresso, na mídia ou nas redes sociais sobre cortes, condicionamentos ou limites ao Bolsa Família, raramente entra no debate a realidade destes 10 municípios. Os discursos costumam se ancorar em casos urbanos — “o marmanjão de São Paulo que joga videogame”, o “morador do Rio que prefere o benefício ao emprego”.
Mas em Serrano do Maranhão, em Itaubal, em Autazes, a realidade é outra:
- Não há vagas de emprego formal suficientes para substituir o programa;
- Não há instituições de ensino superior ou técnico num raio razoável;
- Não há mercado consumidor local forte o suficiente para absorver trabalho autônomo;
- Não há infraestrutura de creche, transporte ou comunicação comparável à dos centros urbanos;
- Não há presença consolidada do Estado para fiscalizar, qualificar ou reposicionar trabalhadores.
Nessas cidades, o Bolsa Família é — literalmente — a infraestrutura econômica básica. Cortá-lo significaria colapsar a economia de dezenas de municípios simultaneamente. Condicioná-lo a “aceitação de emprego” esbarra num mercado de trabalho formal que simplesmente não existe.
Os dados não dizem se o programa deve continuar, expandir ou ser reformado. Dizem qual é o tamanho real do desafio antes que qualquer decisão seja tomada.
A ficha que não cai
O Brasil discute Bolsa Família há mais de duas décadas. Em todas essas discussões, raramente se diferencia “titular” de “pessoa impactada”. Raramente se cruzam os dados municipais com IDH, PIB e indicadores de vulnerabilidade. Raramente se olha para as cidades onde o programa deixou de ser “um complemento” e virou a única renda circulante.
O Score de Cidades fez esse cruzamento em todos os 5.537 municípios brasileiros com dados completos. O resultado está público, aberto e disponível para consulta.
Quando o próximo debate sobre Bolsa Família começar no telejornal, no Congresso ou no grupo de WhatsApp da família, estes são os números que precisam estar na mesa.
Metodologia
O levantamento cruza as seguintes fontes oficiais:
- Portal da Transparência (CGU) referência dezembro/2024, com 20.669.798 registros processados integralmente. Métrica: titulares que receberam parcela.
- Censo Demográfico 2022 (IBGE): população residente por município.
- Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil (PNUD/IPEA): IDH municipal.
- IBGE Contas Regionais: PIB per capita municipal.
- Mapa Social do Ministério do Desenvolvimento Social: indicadores de vulnerabilidade do Cadastro Único, IVCAD, composição demográfica e racial do BF, pessoas em famílias beneficiadas. Referências: Cadastro Único dez/2025; Bolsa Família jan/2026.
A análise cobre 5.537 dos 5.570 municípios brasileiros. Os 33 restantes foram excluídos por incompatibilidade de códigos ou ausência de dados populacionais atualizados.
A diferença entre “titulares” (Portal da Transparência) e “pessoas em famílias beneficiadas” (Mapa Social) decorre de metodologias distintas de contagem — ambas oficiais e válidas, mas medindo conceitos diferentes. O fator médio nacional de conversão é de aproximadamente 2,7 pessoas por titular.
Os indicadores do Mapa Social MDS podem apresentar variações em municípios muito pequenos ou com sobreposição geográfica de setores censitários; para essas localidades, os percentuais foram ajustados pelo cruzamento com a população oficial do Censo 2022.
Análise produzida pelo Score de Cidades com base em dados abertos do governo federal brasileiro. Publicação: Seu Crédito Digital, abril de 2026.
Leitura complementar: Desvendamos quantos são os ‘marmanjões’ do Bolsa Família — e os números contradizem o discurso político
Explore os dados: o Score de Cidades mantém atualizado o banco completo de indicadores sociais dos 5.570 municípios brasileiros em scorecidades.com.br. Para consultas específicas à metodologia ou ao dataset, entre em contato.
INFORMAÇÕES ATUALIZADAS 2026:
Informacoes Atualizadas 2026:

