A recente decisão do governo federal de incluir os valores do Bolsa Família no cálculo da renda familiar per capita para concessão do Benefício de Prestação Continuada (BPC) gerou reação imediata no Congresso Nacional.
Mudanças no BPC: deputados tentam impedir decreto que altera regras do benefício
Deputados federais apresentam projetos para barrar medida que inclui Bolsa Família no cálculo da renda para concessão do BPC. Entenda o impacto da mudança.
Em resposta, seis deputados federais protocolaram Projetos de Decreto Legislativo (PDLs) com o objetivo de sustar os efeitos da medida, considerada por muitos como um retrocesso na proteção social.
A medida, segundo a equipe econômica do governo, tem como objetivo frear o crescimento dos gastos públicos com o BPC. No entanto, a oposição e parlamentares de diversos espectros políticos argumentam que a nova regra prejudica os mais pobres e pode excluir milhares de pessoas em situação de vulnerabilidade do acesso ao benefício.
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Quem tem direito
O BPC é um benefício garantido pela Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) e pela Constituição Federal. Ele assegura o pagamento de um salário mínimo por mês a:
- Idosos com 65 anos ou mais que não têm meios de prover a própria manutenção
- Pessoas com deficiência de qualquer idade, desde que comprovada a incapacidade para a vida independente e para o trabalho
Critério de renda
Para ter direito ao BPC, é necessário comprovar que a renda familiar per capita é inferior a 1/4 do salário mínimo. Antes da nova regra, valores de benefícios assistenciais como o Bolsa Família não eram considerados nesse cálculo, o que ampliava o acesso ao programa.
O que mudou com o novo decreto?
Decreto presidencial alterou critério
O novo decreto presidencial passou a incluir os valores recebidos pelo Bolsa Família no cálculo da renda familiar per capita para fins de elegibilidade ao BPC. Com isso, famílias que antes estavam abaixo do limite de renda podem ultrapassá-lo, ficando fora do benefício mesmo em situações de extrema necessidade.
Justificativa do governo
A equipe econômica argumenta que a mudança é necessária para controlar o aumento dos gastos com o BPC, que cresceu 19% entre 2022 e 2024, impulsionado por decisões judiciais e aumento do número de requerimentos. Segundo o governo, a medida busca maior precisão na identificação da vulnerabilidade social real.
A reação do Congresso Nacional
Parlamentares de diferentes partidos se mobilizam
Em resposta à medida, seis deputados de diferentes partidos apresentaram PDLs (Projetos de Decreto Legislativo) para tentar anular os efeitos do decreto:
- Filipe Barros (PL-PR)
- Pompeo de Mattos (PDT-RS)
- Duarte Jr. (PSB-MA)
- Helio Lopes (PL-RJ)
- Daniela Reinehr (PL-SC)
- Fernanda Melchionna (Psol-RS)
O destaque é que os projetos têm motivações semelhantes, mas abrangências diferentes. Enquanto alguns pedem a suspensão completa da nova regra, outros visam apenas derrubar o trecho que inclui o Bolsa Família no cálculo da renda.
O que são os PDLs?
Os Projetos de Decreto Legislativo são instrumentos legislativos utilizados para sustar atos do Poder Executivo que exorbitem o poder regulamentar ou que contrariem a legislação vigente. Se aprovados pelo Congresso Nacional, os PDLs anulam os efeitos do decreto presidencial sem necessidade de sanção do Presidente da República.
Impacto da nova regra na população

Quem pode ser afetado?
Com a inclusão do Bolsa Família no cálculo da renda, muitas famílias que atualmente recebem o BPC podem ser excluídas do programa. Os mais afetados serão:
- Idosos e pessoas com deficiência que vivem com familiares que recebem o Bolsa Família
- Famílias com renda próxima ao limite de 1/4 do salário mínimo
- Beneficiários com situação precária, mas que agora ultrapassam a renda exigida apenas por receberem auxílio governamental
Risco de exclusão em massa
Segundo entidades sociais e defensores públicos, a medida pode causar exclusão em massa de beneficiários legítimos, afetando diretamente a população mais pobre e vulnerável do país. Além disso, o Bolsa Família é um programa temporário, sujeito a cancelamentos por revisões cadastrais, o que torna sua inclusão no cálculo ainda mais controversa.
Argumentos contrários à medida
Distorção do conceito de renda
Especialistas em políticas sociais argumentam que o Bolsa Família não deve ser considerado como renda permanente, mas sim como um complemento de caráter assistencial, voltado à segurança alimentar e ao combate à pobreza.
Penalização da vulnerabilidade
Ao incluir o valor do Bolsa Família como renda, o governo estaria, na prática, penalizando quem recebe o auxílio, criando uma espécie de “efeito sanfona social”, onde uma ajuda reduz a possibilidade de receber outra, ainda mais essencial.
Conflito com a Constituição
Alguns juristas avaliam que a medida pode ferir o princípio da dignidade da pessoa humana e os direitos fundamentais sociais, previstos na Constituição Federal. A eventual judicialização do tema é vista como provável caso os PDLs não sejam aprovados.
Posição do governo
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Defesa técnica e ajuste fiscal
Em notas técnicas, o governo afirma que a medida tem base legal, visa fortalecer os critérios de focalização do BPC e está alinhada com responsabilidade fiscal. Além disso, sustenta que a nova metodologia permite um retrato mais fiel da situação financeira das famílias.
Promessa de revisão caso haja distorções
Integrantes do Ministério do Desenvolvimento Social indicaram que a medida poderá ser ajustada caso produza distorções excessivas, e que serão monitorados os impactos sociais nos primeiros meses de aplicação da nova regra.
Trâmite dos projetos no Congresso
Como será analisado
Os Projetos de Decreto Legislativo seguirão para análise nas comissões da Câmara dos Deputados, principalmente a Comissão de Seguridade Social e Família, antes de serem votados em plenário. Em seguida, precisam passar pelo Senado Federal.
Cenário político
A formação de uma maioria favorável à derrubada do decreto não é garantida. O tema divide parlamentares, com setores da base aliada defendendo a manutenção da medida e setores da oposição e centro buscando revertê-la.
O que dizem os especialistas?

Renda assistencial não é salário
Segundo economistas e sociólogos ouvidos por universidades e institutos de pesquisa, benefícios como o Bolsa Família não devem ser tratados como renda contributiva, pois são políticas compensatórias para reduzir desigualdades estruturais.
Possível judicialização
A Defensoria Pública da União já estuda formas de questionar a constitucionalidade da mudança, caso ela seja mantida. A judicialização do tema pode gerar insegurança jurídica e impacto na vida de milhares de brasileiros.
Considerações finais
A decisão de incluir o Bolsa Família no cálculo da renda familiar para acesso ao BPC coloca em xeque o equilíbrio entre responsabilidade fiscal e justiça social. Enquanto o governo busca reduzir gastos e melhorar a focalização, parlamentares e especialistas alertam para o risco de exclusão de pessoas em situação extrema de vulnerabilidade.
Os Projetos de Decreto Legislativo apresentados por seis deputados federais representam uma tentativa de barrar a mudança e manter os critérios anteriores, que não consideravam o Bolsa Família como parte da renda per capita.
O tema promete ser um dos principais embates sociais e políticos do segundo semestre de 2025, com implicações diretas na vida de milhões de brasileiros pobres, idosos e pessoas com deficiência. Acompanhar o desfecho no Congresso será fundamental para entender o futuro da proteção social no país.
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